‘O silêncio foi ensurdecedor’: a ascensão e queda de Brendan Fraser – GQ

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Brendan Fraser quer que eu conheça seu cavalo. “Eu escolhi este cavalo porque ele é grande”, diz, em pé num celeiro em Bedford, Nova York. Ele tira uma bandana verde do bolso e limpa gentilmente os olhos do animal. O nome do cavalo é Pecas – que em espanhol significa sardas. Fraser conheceu-o em 2015, no set de uma série do History Channel, Texas Rising, em que interpretava um patrulheiro do Texas de meados do século XIX. Eles estavam filmando no México, diz, quando ele e o cavalo tiveram um momento de reconhecimento compartilhado. “Assim, do nada – qual é a palavra? Antropomórfico… antropomorfizante… Sem fingir que o animal é humano, pareceu que ele precisava de ajuda. Era como: me tire daqui, cara”.

Então ele o trouxe para cá. Fraser mora na redondeza e possui uma propriedade perto da fazenda, a cerca de uma hora de Manhattan. E, apesar de ter viajado durante a maior parte do ano passado, indo e voltando entre Toronto, onde estava filmando uma série baseada em Três Dias do Condor, chamada Condor, e a Europa, onde estava filmando Trust, uma série da FX sobre o sequestro de John Paul Getty III, produzida por Danny Boyle, ele sempre dá um jeito de visitar Pecas e passar um tempo com ele. Por que ele faz isso é uma questão com diferentes e surpreendentes respostas. Mas assim é, e estou aprendendo com Brendan Fraser. Ele não consegue evitar a digressão: “Em vez de lhe dizer que horas são, eu posso falar sobre a história da horologia”, diz, no meio de outro assunto. Ele é compulsivamente honesto. Sua mente é como um labirinto. Você afunda e depois emerge, horas ou dias depois, desorientado, mas agradecido de que algo tão imprevisível ainda possa acontecer neste mundo.

Seus olhos são pálidos e um pouco lacrimosos hoje em dia – menos vivos do que costumavam ser quando ele era novo na tela, representando sujeitos que eram novos no mundo. Uma barba cinzenta por fazer em torno de um queixo que já foi poderoso, uma camisa cinza de manga comprida jogada indiferentemente sobre um corpo que já foi forte. Tenho 35 anos: houve um tempo em que a visão de Fraser era tão familiar para mim quanto os móveis na casa dos meus pais. Ele estava em O Homem da Califórnia e Código de Honra, em 1992; Cabeças Ocas, em 1994; George, O Rei da Floresta, em 1997; A Múmia, em 1999. Se você assistia a filmes no final do século passado, você viu Brendan Fraser. E, apesar da carreira de galã cinematográfico ter ido até o final da última década, ele foi desaparecendo ou, pelo menos, estava à margem, há algum tempo. Ele estava lá no cartaz, ano após ano, depois não estava mais; demorou a aparecer e fez uma ponta, na terceira temporada de um seriado de TV a cabo, The Affair, até que muitos de nós, enfim, percebêssemos que ele tinha ido embora.

Há também uma história ali, é claro, e Fraser, com sua maneira elíptica, acabará por me contar. Mas primeiro, Pecas. Os outros cavalos no México eram magros: mustangues, diz Fraser. “E eles batiam neste cavalo. Quero dizer, juro, eu o vi ser coiceado tantas vezes, era mordido por outros cavalos o tempo todo. E nunca o vi revidar”.

Fraser observava a cena diariamente, este grande cavalo prateado sendo provocado pelos cavalos mais elegantes ao seu redor. “E eu pensei: Tudo bem, eu consigo um emprego para você, se quiser”. Ele colocou o cavalo num trailer, de Durango até Juarez. Quarentena em El Paso. Um avião de carga da FedEx para Nova York. “E os veterinários que estavam nos aviões de carga diziam: ‘Esse cavalo veio como se quisesse saber qual era o filme e o que tinha para o jantar’. Ele já veio marchando. Saiu, veio aqui, observou os pedaços de cedro no estábulo… Enfim, assim eu consigo colocar Griffin nele”.

Griffin é o filho mais velho de Fraser – tem 15anos. “Griffin foi avaliado com Transtorno do Espectro Autista. Ele precisa de uma dose extra de amor, e ele tem. Assim como seus irmãos” – Holden, 13, Leland, 11 – “desde pequenos, um sempre era o porta-voz e o outro era o executor”. Fraser interrompe-se aqui para falar sobre o mais velho. Acabamos de nos conhecer, mas isso não parece incomodá-lo. Os detalhes apenas fluem em uma espécie de torrente amorosa. Griffin, diz, é “um bálsamo para todos que o conhecem, percebo. As pessoas têm algumas pontas ásperas. Ou ele simplesmente as faz, eu não sei… mostrar as coisas com um relevo mais nítido e talvez encontrar uma maneira de ter um pouco mais de compaixão. Elas não se colocam em primeiro lugar quando ele está por perto”.

Este era o trabalho que Fraser tinha para Pecas, cuidar de Griffin: “Algo bom acontece entre esses dois. E mesmo que ele não o monte, que dê apenas uma escovada. O cavalo adora isso, o movimento repetitivo que as crianças autistas fazem. E funciona… Sabe, você precisa encontrar essas ferramentas, estratégias. Se eu montar, eu também me sinto melhor. Eu me sinto muito melhor”.

E é assim que passo minha primeira hora com Brendan Fraser.

Brendan Fraser  (Foto: MARTIN SCHOELLER)

Sucesso e a Revolução dos Bichos

Fraser mora numa estrada de terra, em uma casa alta e angulosa, com um gramado vasto que se estende até um lago brilhante. Quando estaciona o carro, ele começa a retirar itens: uma mochila de couro preto, um capacete de equitação, um arco de caça. “Você pode pegar essas machadinhas?”, pergunta. Há duas. Eu faço. No interior, a casa é de madeira escura, aberta, com janelas que dão para o quintal – rede, trave de futebol, trampolim, espirobol, tirolesa, piscina. “Eu adoro florestas e as estações e… madeira queimando”, diz. Os filhos moram com sua ex-esposa, Afton, em Greenwich, Connecticut, logo depois de Bedford. “Mas eles estão aqui o tempo todo”, diz Fraser.

Ele desaparece por um momento e, de repente, som de sintetizadores sai dos alto-falantes, seguido de um anúncio Pandora. “Eu pensei que isso seria legal”, diz ao voltar. Pergunto qual estação escolheu para nós.

“Chill?”, diz Fraser. Ele não se lembra do nome. “Chillax, talvez?”

E então essas flautas sintéticas acabam por ser a trilha sonora da história de Fraser. Ele começou de maneira incomum. Seu primeiro trabalho como ator foi em um filme de 1991, chamado Apostando no Amor, estrelado por River Phoenix e Lili Taylor. Ele fez o Marinheiro #1. “Deram uma roupa de marinheiro para mim e para outros caras e fizemos uma cena de briga com fuzileiros navais. Eu peguei o meu cartão do sindicato de atores e 50 dólares extras pelo trabalho de dublê, porque eles me jogaram numa máquina de pinball. Acho que machuquei uma costela, mas eu pensava: Tudo bem! Eu aguento. Posso fazer de novo. Se quiser, posso quebrar algo. Quer que eu faça de novo?”

Bem, sim. Essa se tornaria sua assinatura na tela: quebrar coisas. Ele era grande e bonito, de uma maneira não ameaçadora e, o mais importante, ele estava disposto. Em O Homem da Califórnia, o filme que ajudou a transformá-lo em astro, Fraser era um homem das cavernas recém-libertado de um bloco de gelo na Califórnia contemporânea; ele gosta de contar que seu teste para o papel consistia em uma luta sem palavras com uma planta. Ele tinha a qualidade única de um homem contemplando o mundo pela primeira vez, e os diretores começaram a promovê-lo exatamente assim. Durante boa parte da década de 1990, Fraser passou muito tempo com olhos arregalados, surgindo de abrigos subterrâneos (De Volta para o Presente) ou no Canadá (Polícia Desmontada) ou na floresta tropical (George, o Rei da Floresta), mas também assumiu papéis mais  sérios. Em 1992, ele estrelou com Matt Damon, Ben Affleck e Chris O’Donnell o drama Código de Honra, como um jogador de futebol judeu que ganhou uma bolsa de estudos e precisava lutar por seu lugar num elitista e anti-semita colégio interno. (Esse papel era natural, tirando a dinâmica religiosa, para Fraser, já que ele cresceu numa família feliz, mas peripatética – seu pai trabalhava no escritório de turismo do Canadá – e ele era matriculado em uma nova escola praticamente todos os anos).

Cena de A Múmia, maior sucesso da carreira de Brendan (Foto: Reprodução/YouTube)

Código de Honra foi anunciado, corretamente, como o lançamento de uma nova geração de atores: o próximo Quando os Jovens se Tornam Adultos ou Footloose, Ritmo Louco ou Vidas Sem Rumo. E Fraser, que era grande e espadaúdo e também tinha dotes de ação, foi durante algum tempo uma novidade cinematográfica. Conforme a década passava, ele continuava a fazer papéis de galã e, basicamente, só fazia sucesso sem camisa. Em George, o Rei da Floresta, ele usava uma tanga em todo o filme; seus músculos tinham músculos: “Eu olho para mim e vejo apenas um bife ambulante”. O filme arrecadou US$ 175 milhões. “Um ingênuo garoto da floresta que vira o cara novo na cidade que vira o homem-menino… uma espécie de visitante-sempre-em-um-ambiente-diferente foi, hum… foi muito, muito bom para mim”, diz Fraser agora. Esse filme o colocou na trajetória de um tipo muito específico de papel. Em 1999, ele fez A Múmia, uma aventura de horror agitada, que também arrecadou muito dinheiro e, finalmente, gerou uma franquia que ocuparia, mais ou menos, os próximos nove anos de sua vida.

O estrelato cinematográfico é um fenômeno que mesmo as estrelas de cinema não conseguem explicar completamente. Algum executivo ou um diretor coloca seu rosto numa tela de cinema, e há algo sobre suas feições ou a maneira como seus pais o criaram ou a década em que você chegou em Hollywood, algo inefável que vai além da atuação; algo que você não tem consciência ou controle, e milhões de pessoas reagem a isso. Fraser era gentil, ardente e, aparentemente, sem maldade; e nós, como país, decidimos que era algo que queríamos com tanta frequência quanto ele pudesse nos proporcionar e, então, ele passou alguns dos melhores anos de sua vida fazendo o possível para nos dar exatamente isso.

“Quando eu fiz a terceira parte da Múmia na China eu estava vivendo a base de faixas e gelo – eu construía um exoesqueleto para mim diariamente”.

Brendan Fraser

Ele fez o remake de Endiabrado, com Elizabeth Hurley, em 2000. Monkeybone – No Limite da Imaginação e uma sequência da Múmia, O Retorno da Múmia, em 2001. Looney Tunes: De Volta à Ação, em 2003. E assim foi – em retrospecto, muito além de onde Fraser queria que fosse. “Eu acredito que estava tentando demais, de uma maneira que é destrutiva”, ele diz agora. Os filmes, além de apresentarem retornos decrescentes, estavam cobrando fisicamente: ele era um cara grande fazendo cenas perigosas, correndo em frente a telas verdes, passando de um set a outro. Seu corpo começou a sucumbir. “Quando eu fiz a terceira parte da Múmia na China”, que foi em 2008, “eu estava vivendo a base de faixas e gelo – de verdade, louco e fetichista por bolsas de gelo. Bolsas de gelo e proteções de mountain bike, porque são pequenas e leves e dá para usar embaixo das roupas. Eu construía um exoesqueleto para mim, diariamente.” No fim, todas essas lesões exigiram várias cirurgias: “Eu precisava de uma laminectomia lombar. E não deu certo, então tiveram de fazer novamente depois de um ano. “Houve uma substituição parcial do joelho. Mais uma intervenção nas costas, ligando os discos medulares comprimidos. Houve um ponto em que ele precisou reparar as cordas vocais. Ao final, diz Fraser, ele ficou entrando e saindo de hospitais por quase sete anos.

Ele dá um sorriso amarelo e triste. “Isso pode soar meio piegas”, avisa Fraser. “Mas eu me sentia como o cavalo de A Revolução dos Bichos, que só servia para trabalhar, trabalhar e trabalhar. Orwell descreveu um personagem que era, acho, o proletariado. Ele trabalhava para o bem de todos, não fazia perguntas, não causava problemas até que isso o matou… Não sei se fui enviado para a fábrica de sabão, mas senti como se eu tivesse de reconstruir a merda que eu construí e não deu certo e fazer tudo de novo pelo bem de todos. Doesse ou não.”

Tristeza e volta

Em algumas horas, um carro viria pegar Fraser e levá-lo ao aeroporto para voltar a Londres, onde ele está filmando Trust. A série, como o recente Todo o Dinheiro do Mundo, de Ridley Scott, conta a história do sequestro, em 1973, de John Paul Getty III. Donald Sutherland interpreta Getty mais velho; Hilary Swank é sua ex-nora, Gail; Fraser interpreta um investigador particular, James Fletcher Chace.

Danny Boyle, produtor executivo da série, escolheu Fraser depois de ver The Affair, no qual Fraser era um guarda prisional que parecia esconder segredos obscuros. Boyle diz que se sentiu atraído pela competente performance – “Eu acreditei completamente nele” – mas ele também gostou da sensação de ver Fraser novamente. “É um daqueles momentos deliciosos em que você vê alguém com quem estava familiarizado, mas tão alterado pelo tempo e pela experiência. Você meio que registra isso e é tão triste e maravilhoso ao mesmo tempo. Porque todos nós compartilhamos a mesma linha do tempo”.

Sarah Treem, co-criadora e produtora executiva de The Affair, diz que a familiaridade de Fraser com o público – sua “qualidade de astro”, como ela diz, foi uma das razões pelas quais o queriam para o seriado, em parte para que a série pudesse brincar com esse estrelato. “Estávamos à procura de alguém que tivesse a capacidade de ser incrivelmente convincente”, diz Treem, “mas também arrepiante e desorientador de verdade”.

Quando seus episódios de The Affair começaram a ser exibidos, no final de 2016, Fraser foi convidado a dar sua primeira entrevista em anos, para o canal da AOL no YouTube. É desconfortável assistir. Fraser parece sombrio e triste; por um longo tempo, ele fala em sussurros. O vídeo viralizou. Nos meses seguintes, surgiram teorias sobre o que o afligiu, concentrando-se em seu divórcio em 2009 e o fato de que duas franquias que ele já estrelara, A Múmia e Viagem ao Centro da Terra, foram refilmadas sem ele.

No fim das contas, o que estava por trás do triste meme de Brendan Fraser era… tristeza. Sua mãe havia morrido de câncer alguns dias antes da entrevista. “Eu enterrei minha mãe”, diz Fraser. “Acho que estava de luto e não sabia o que isso significava.” Ele estava longe da imprensa há algum tempo; de repente, estava sentado em frente a uma audiência, promovendo a terceira temporada de um seriado em que ele mal aparecia. “Eu não tinha certeza de qual seria o formato. E senti algo como: ‘Cara, fiquei velho. Porra, é assim que as coisas são agora?’”

Sobre a época de George, o Rei da Floresta: "eu olho para mim e vejo um pedaço de bife" (Foto: Reprodução/YouTube)

Era como um dos personagens que ele costumava interpretar na década de 1990, emergindo aturdido em um novo mundo. “Trabalhar, entrando e saindo de hospitais, nem sempre era possível. Então, o que estou dizendo, eu espero que não soe como uma espécie de ‘Hey, eu tive um dodói. E precisava colocar um Band-Aid nisso’, mas mais como um relato da realidade do que eu estava vivenciando.” Durante um tempo, sentado na sala de estar, ele fala sobre outras coisas – é possível dizer que talvez haja mais nessa história que ele ainda não está pronto para compartilhar. Mas, claramente, tem sido uma década ruim: “Eu mudei de casa; enfrentei um divórcio. Meus filhos nasceram. Quer dizer, eles nasceram, eles estão crescendo. Eu estava passando por coisas que moldam e formam as pessoas de maneiras para as quais você não está pronto até ter de passar por elas”.

Fraser faz uma pausa, e seus olhos parecem mareados e, pela primeira vez nessa litania de cirurgias e perdas, parece que ele não quer continuar. Pergunto se precisa de uma pausa.
“Estou bem”, diz. “Acho que só preciso deixar as flechas voarem”.

Ele se desculpa enquanto imagino o que isso significa. Passam-se alguns minutos. Quando ele retorna, é com uma aljava de couro cheia de flechas amarrada nas costas. Ele sai para a varanda. Do lado de fora, pega o arco e coloca uma flecha. La embaixo, no gramado, talvez a 70 metros de distância, há um alvo. Ele solta a flecha, que vai diretamente para o centro do alvo. No olho do touro. Pega uma segunda flecha e acerta outra vez.

Finalmente, ele exala. “Sinto-me muito melhor agora”, diz. Me entrega o arco: “Ok, agora é sua vez”.

Londres

Em um glacial dia de dezembro, algumas semanas depois, Trust está sendo filmado em um complexo de estúdio no leste de Londres, em uma pequena ilha cercada por estacionamentos e postos de gasolina vazios. No interior, o set está cheio de pinheiros cobertos por neve falsa, cintilando sob o brilho das luzes. Fraser veste seu figurino – longo sobretudo branco, camisa branca, terno branco, Stetson branco, gravata Bolo Tie – suas longas pernas esticadas, estudando suas falas. Esta tarde, Fraser e Hilary Swank estão filmando uma cena dentro de um carro. O set é construído para parecer as montanhas da Calabria, na Itália, para onde os dois personagens viajaram para entregar o resgate aos sequestradores de Getty. Os dois atores sentam-se dentro de um Fiat branco, câmeras montadas no capô, grandes luzes suaves os rodeiam. À medida que várias pessoas se preocupam com a configuração, Fraser e Swank discutem suas falas. Swank deveria dizer, nervosamente, quando dirigiam para o ponto de encontro na neve: “Eles disseram que eu tenho de dirigir a 80, mas não consigo enxergar. Só posso dirigir a 50”.

Ao que Fraser responde, de forma calmante: “Você está indo bem”. Enquanto eles ensaiam a cena algumas vezes, um dos produtores da série, Tim Bricknell, cochicha para mim que está gostando de ver Fraser nos últimos meses. “É tão legal ver galãs se tornarem grandes atores em outro momento de suas carreiras”. E é muito legal ver o trabalho de Fraser agora. Uma coisa que você observa, revendo seus filmes dos anos 1990 e início dos anos 2000, é o quanto eles dependem da gravidade que Fraser exerce como ator. Este é obviamente o caso de seus papéis dramáticos: Deuses e Monstros, de 1998, com Ian McKellen; The Quiet American, de 2002, com Michael Caine; e Crash – No Limite, que ganhou o Oscar de melhor filme de 2005. Mas também é verdade que Fraser tem uma cota de blockbusters ridículos. Ele exala uma espécie de decência e equanimidade sólidas que tornam plausível o implausível. Sua presença em uma cena faz você acreditar.

“Eu sempre reconheço atores de comédia; quando eles podem fazer aquilo muito bem, você não percebe essa grande integridade na forma como eles fazem”, diz Danny Boyle. “Porque, obviamente, você percebe o efeito cartoon do que eles estão fazendo e isso é muito prazeroso. Mas para que funcione, é preciso ter integridade. É, de alguma forma, baseado em verdade e em honestidade”.

Em Trust, o personagem de Fraser é essencialmente o narrador da série – mesmo mudando, ocasionalmente, para dirigir-se diretamente ao público. É um conceito arriscado, mas funciona por causa de Fraser. Lá está ele: amável, ligeiramente divertido, sólido e confiável.

Abuso

Algumas semanas depois desse dia no set, Fraser me liga. Há algo que ele quer me dizer, mas não conseguiu contar em Londres ou Nova York. Ele diz que lamenta – que não teve “a coragem de falar pelo risco de humilhação ou danos à minha carreira”.

Acontece que certos fragmentos do que ele conta já foram ditos, mas é a primeira vez que ele fala publicamente sobre qualquer um deles. A história que ele quer trazer à tona ocorreu, diz, no verão de 2003, no Beverly Hills Hotel, em um almoço realizado pela Hollywood Foreign Press Association, a organização que sedia os Globos de Ouro. Na saída, Fraser foi saudado por Philip Berk, ex-presidente da HFPA. No meio de uma sala lotada, Berk estendeu a mão cumprimentar Fraser. Muito do que aconteceu depois Berk contou em suas memórias e também foi relatado por Sharon Waxman, no The New York Times: ele beliscou a bunda de Fraser de brincadeira, de acordo com Berk. Mas Fraser diz que o que Berk fez foi mais do que um beliscão: “Sua mão esquerda alcança e agarra minha nádega e um de seus dedos toca meu períneo. Então ele começa a movê-lo.” Fraser diz que, nesse momento, ele estava dominado por pânico e medo.

“Eu ainda estou com medo? Certamente. Sinto que preciso dizer algo? Certamente. Eu quis muitas, muitas vezes? Certamente. Eu bloqueei a mim mesmo? Certamente.”

Brendan Fraser

Fraser finalmente conseguiu, segundo ele, retirar a mão de Berk. “Eu me sentia mal. Me sentia como uma criancinha. Parecia que havia uma bola na minha garganta. Pensei que ia chorar”. Ele saiu correndo da sala; do lado de fora, passou por um policial, mas não conseguiu confessar o ocorrido, e depois em casa, ele contou para a sua então esposa, Afton, o que tinha acontecido. “Eu senti como se alguém tivesse jogado tinta invisível em mim”, diz agora. (Em um e-mail, Berk, que ainda é membro da HFPA, contestou o relato de Fraser: “A versão do Sr. Fraser é uma invenção total”).

Na sequência do encontro, Fraser pensou em tornar o fato público. Mas, em última análise, “eu não queria enfrentar o que aquilo me fez sentir, ou que se tornasse parte da minha história”. Mas a lembrança do que havia acontecido e a maneira como ele se sentia estava impregnada nele. Seus representantes pediram à HFPA uma desculpa por escrito. Berk reconhece ter escrito uma carta a Fraser sobre o incidente, mas diz: “Minhas desculpas não admitiram nenhuma transgressão, foi o de sempre ‘Se eu fiz qualquer coisa que chateou o Sr. Fraser, não foi intencional e peço desculpas’.”

De acordo com Fraser, o HFPA também disse que nunca permitiria que Berk ficasse em uma sala com Fraser novamente. (Berk nega, e a HFPA recusou-se a comentar) Mas ainda assim, Fraser diz: “Fiquei deprimido”. Ele começou a dizer a si mesmo que havia merecido o que aconteceu com ele. “Eu estava me culpando e estava infeliz – porque eu dizia: ‘Isso não é nada; esse cara chegou e me apalpou.’ Aquele verão passou – e não consigo me lembrar no que trabalhei a seguir”.

Ele sabe agora que as pessoas se perguntam o que aconteceu com Brendan Fraser, como ele passou de uma figura altamente visível até praticamente desaparecer da imaginação pública, e ele já havia me contado a maior parte disso. Mas essa, diz, é a peça final. A experiência, diz ele, “me fez recuar. Me fez sentir recluso.” Ele se questionou se o HFPA o havia colocado na lista negra. “Eu não sei se isso me desfavoreceu com o grupo, com o HFPA. Mas o silêncio foi ensurdecedor.” Fraser diz que raramente foi convidado ao Globo de Ouro, depois de 2003. Berk nega que houve retaliação do HFPA contra Fraser: “Não foi por nossa culpa que sua carreira declinou”.

Fraser diz que a experiência mexeu com o senso de “quem eu era e o que estava fazendo”. O trabalho, ele diz, “foi perdendo a graça. Na minha mente, pelo menos, algo tinha sido tirado de mim.” No outono passado, ele viu outras pessoas falando sobre experiências semelhantes. “Eu conheço Rose [McGowan], conheço Ashley [Judd], eu conheço Mira [Sorvino], trabalhei com elas. Eu as chamo de amigas, na minha mente. Não falo com elas há anos, mas elas são minhas amigas. Eu assisti a este movimento maravilhoso, essas pessoas com a coragem de dizer o que eu não tive coragem”.

Ele estava num quarto de hotel algumas semanas atrás, assistindo ao Globo de Ouro na TV, diz, enquanto as atrizes vestiam-se de preto e os atores usavam broches Time’sUp em solidariedade, quando a transmissão mostrou Berk. Ele estava lá e Fraser não estava.

“Eu ainda estou com medo? Certamente. Sinto que preciso dizer algo? Certamente. Eu quis muitas, muitas vezes? Certamente. Eu bloqueei a mim mesmo? Certamente.” Ele respira profundamente ao telefone. “E talvez eu esteja exagerando sobre as circunstâncias. Só sei qual é minha verdade. E ela é a que acabei de falar para você”.

Superman e boicote

A última vez que vi Brendan Fraser, em um restaurante no Soho, ele me contou uma história tão digressiva e confusa que hesitei em tentar recriá-la aqui. Mas ela está comigo de uma forma que não consigo articular. E com ajuda do que sei agora, acho que eu finalmente entendi o que ele estava tentando dizer. Então aqui vai. Começa com Fraser tentando explicar por que ele foi atraído pelo roteiro de Looney Tunes: De Volta à Ação, no qual ele interpretou um ator que é o dublê de Brendan Fraser. Isso foi por volta de 2003 – ao mesmo tempo em que um roteiro para um novo filme do Superman, escrito por J. J. Abrams, estava circulando em Hollywood.

Fraser, juntamente com um monte de outros atores, foi sondado como um novo Superman em potencial – um papel cobiçado, mas famoso por ser maldito. O diretor do filme, na época, era Brett Ratner, atualmente acusado de má conduta sexual por várias mulheres, mas que era apenas outro diretor influente de Hollywood. (Ratner, por meio de seu advogado, negou as acusações.) Uma vez que o estúdio estava interessado em Fraser, e Fraser estava interessado no roteiro, Ratner pediu a Fraser para ir até sua casa, numa manhã, para falar sobre o papel. “Ele desceu e parecia ainda adormecido”, lembra Fraser. “E havia uma cabine fotográfica. Uma velha cabine retrô de fotos preto e branco. E ele disse: ‘Quer fazer uma foto?’ Então eu sentei na cabine para tirar minha foto. Ele abriu a porta para me mostrar que era tudo de verdade. Não era digital ou algo assim. E eu falei, ‘Você não pode abrir a cabine’.” Ratner expôs o filme. “Ele puxou o filme e disse, ‘xi… está tudo branco. Vamos fazer de novo?’.”

Mas Ratner disse a Fraser que estava trabalhando num livro dessas fotos, e, apesar de suas dúvidas, e porque ele queria ser o Superman, Fraser voltou para a cabine e tirou a foto novamente. E então “a reunião terminou com ele sentado em uma mesa de bilhar com um telefone, gritando argumentos para alguém no estúdio, eu não sei por quê”.

Mas a história registra o que aconteceu depois: Ratner nunca dirigiu um filme do Superman. E Brendan Fraser nunca interpretou Superman. (O filme finalmente se tornou Superman – O Retorno, em 2006, dirigido por Bryan Singer e estrelado por Brandon Routh.) O que, diz Fraser, quase partiu seu coração. Fez com que ele se sentisse até envergonhado. “Você sente algo como: eu não estava à altura. Oh, eu falhei. E a verdade não é essa. Isso é falso. Isso está errado. Isso não é verdade. Você não falhou. Não. Mas mesmo se você, se quiser, enquanto eu sento aqui e digo isso agora, eu sinto algo como ‘Bem, não e não, a prova está ali mesmo’”.

É nessa hora que pergunto o que tudo isso tem a ver com Looney Tunes: De Volta à Ação. E Fraser parece perplexo por um segundo, mas ele se lembra. “Eu comecei a contar isso porque toda essa intriga estava acontecendo enquanto eu estava filmando Looney Tunes: De Volta à Ação, que é sobre um dublê… o dublê de Brendan Fraser. E então o dublê conhece Brendan Fraser, no final. Ele conhece Brendan Fraser e bate nele.”

Brendan Fraser durante bate-papo sobre a série Condor, em 2018 (Foto: Getty Images/Frederick M. Brown)

Fraser diz que quando chegou o momento de filmar a cena em que bate em si próprio, ele vestiu as roupas mais pomposas que podia para interpretar Brendan Fraser. “Foi minha visão da pior versão de mim mesmo. Eu me conheço”. E a questão, finalmente, é a seguinte: “A razão pela qual eu fiquei inflexível em querer fazer isso” – desempenhar um papel num filme com um monte de desenhos animados que envolviam dar socos no próprio rosto – “mesmo que eu não percebesse isso até muito, muito tempo depois, é que, naquele momento, acho que eu queria me boicotar. Eu queria me fazer de idiota antes de qualquer outra pessoa, porque eu tinha na minha cabeça que isso estava para acontecer”.

Ele não era digno de ser o Superman. Ele nem sequer era digno de ser Brendan Fraser. E essa sensação o consumia à medida que a década passava, e ele estrelava filmes com os quais ficava cada vez menos orgulhoso, e seu corpo se deteriorava, e seu casamento desmoronava, e ele continuava pensando no que havia acontecido com ele no verão de 2003: “O telefone para de tocar na sua carreira, e você começa a se perguntar por quê. Há muitos motivos, mas um deles foi esse? Eu acho que foi.” E esse, diz, é o motivo pelo qual ele desapareceu por um tempo. “Eu cedi à pressão que vem com as esperanças e objetivos que vêm com uma vida profissional que está sendo formada e moldada, guiada e gerenciada”, diz agora. “Isso exige o que eles chamam de ‘casca dura’, ou simplesmente ignorar, colocar a cabeça na areia, ou ranger os dentes, e vestir seu rosto público, ou simplesmente nem mesmo… precisar do público. Ignorando. Ficar em casa, droga. Você sabe, não porque sou estranho ou algo assim, mas porque eu senti que não conseguiria fazer parte disso. Não sentia que isso me pertencia”.

Então ele saiu e levou anos, algumas cirurgias, um cavalo, a terceira temporada de uma série da Showtime, e agora Trust, aqui em Londres, para estar de volta. “Algo bom surgiu de algo ruim”, diz. “Às vezes, demora um pouco para que isso aconteça”.

Ele brilha. Há mais pós-escrito para a história que ele tem me contado durante a última hora, enquanto nos sentamos neste restaurante e as pessoas passam pela nossa mesa, olhando duas vezes quando percebem quem está sentado ali. “O golpe de misericórdia”, como diz Fraser: Ratner, finalmente, publicou um livro de fotografias. Que apareceu na casa de Fraser um dia, ele ainda não tem certeza de como – certamente, ele nunca deu autorização para aparecer nele. Ele folheou o livro: Michael Jackson, Chelsea Clinton, Harvey Keitel, Britney Spears, Sean Combs, Shaquille O’Neal, Val Kilmer, Jay-Z, um monte de estrelas que perambulavam por aquela estranha cabine fotográfica em algum dia estranho e cujas imagens foram capturadas, por razões que provavelmente nunca ficaram claras para nenhuma delas, razões que nunca foram sólidas ou racionais, mas lá estavam, em preto e branco.

E ali estava ele também. “Lembro-me de pensar: ‘Bom, de nada’”.

*Leia a matéria original em gq.com.

Fonte Oficial: GQ.

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