Milionários do Bitcoin estão invadindo o mundo do streetwear – GQ

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Erik Finman, de 19 anos, está prestes a ser personagem de um documentário da CNBC que acompanha a vida dos milionários do Bitcoin. Isso, ele me diz, é o tipo de coisa que você pode esperar ver: “Eu acordo e estou sob um cobertor feito de notas de cem dólares; levanto e elas caem pelo meu rosto. Calço meus Yeezys e assim que saio da cama escovo meus dentes com uma escova da Supreme. É só mais um dia da vida, e se eles conseguirem me pegar num momento desses, então que coincidência”, ele diz com toneladas de auto- confiança. Finman diz estar brincando sobre se cobrir com notas de cem (não que ele nunca tenha feito isso – é comum para o primeiro dia de um milionário) assim como sobre a escova de dentes (não que uma não tenha saído do laboratório maluco de acessórios da marca), mas o episódio não é algo descolado da realidade. Com a explosão do Bitcoin, criptomoeda e streetwear se entrelaçam de maneiras ora horríveis, ora hilárias: garotos estão aprendendo como investir com roupas, comprando moedas virtuais, acumulando riquezas, gastando-as para ostentar peças raras de streetwear e mergulhando em surtos de gastança. No processo, eles encorajam mais lojas a aceitar a moeda.

Finman diz que começou a investir em Bitcoin- parte de uma economia emergente que parece cuspir um novo milionário todo dia – quando tinha 12 anos, e relata ter conseguido o bastante para vender um montante valorizado em US$ 100 mil aos 15 aninhos. Alguns anos depois, aos 17, ele começou a mergulhar no streetwear – um pouco após o lançamento do The Life of Pablo, de Kanye West, diz. Nos 18 meses desde então, Finman abocanha streetwear no mesmo ritmo de um rapper classe A. “Provavelmente mais do que daria para dizer”, ele responde quando pergunto o valor estimado de sua coleção. “Eu prefiro não falar, eu me sentiria terrível. Mas definitivamente estaria na casa das dezenas de milhares de dólares”. Primeiro ele comprou o Yeezy 750 desenhado por Kanye, daí uns Stan Smiths da Adidas, o Yeezy 350 e “umas paradas bobas da Bape”, diz, antes de investir numa espiral de Supremes. Destes, ele só decidiu não comprar uma bolsa da colaboração entre Louis Vitton e a Supreme. “Não está fora do meu orçamento – este não é o problema”, diz Finman. “É que, tipo, isso está virando um vício – é a mesma coisa que o álcool faz para certas pessoas”. Preço não parece preocupar Finman. “Estou pensando em pegar uns Red Octobers. Ando muito ocupado. Estou atuando muito em criptomoeda, preciso voltar à ativa”, fala. “Eles são exageradamente caros. Mas por que não? Se você pode, por que não ostentar um pouco?”

O banho de loja de Finman é alimentado pelo seu amor por roupas, mas ele reconhece que consome para se manter no ritmo de seus contemporâneos na comunidade das criptomoedas. “Esse dinheiro está circulando com todo tipo de streetwear e Lamborghinis”, diz Finman. Ele acredita que criptomoedas têm o poder de alterar instituições financeiras, mas antes que isso aconteça, planeja usar essa tecnologia para conseguir alguns trajes realmente raros. Ele não está sozinho: Finman é parte dos novos-critporicos, que estão buscando todas as maneiras possíveis de exibir suas novas riquezas digitais. Muito deste gasto está envolvendo o streetwear. “Eles são como rappers nerds”, Finman explica. “É só a maneira como eles se exibem para a comunidade. [Streetwear] se tornou um enorme símbolo de status.” Varejistas, por sua vez, estão correndo para atrair estes grandes gastadores.

A lista de lojas de roupas e acessórios que aceitam criptomoedas ainda é curta, mas as que começaram a aceitar Bitcoin e afins são particularmente agressivas quando o assunto é a tecnologia movendo elas, o blockchain (vamos explicar: o blockchain evita intermediários como bancos ou apps como o Venmo, permite que partes negociam diretamente umas com as outras e mantém uma lista de todas essas transações). Varejistas são tão entusiastas da tecnologia por trás do Bitcoin quanto qualquer “criptofã” no Twitter – e não se tratam de lojas aleatórias investindo na moeda. Grandes players como a Overstock.com mergulharam com entusiasmo na onda. “Achamos (sem hipérbole) que o blockchain vai impactar mais a sociedade do que a internet assim que seu verdadeiro potencial surgir”, diz Jonathan Johnson, presidente do Medici Ventures, braço de investimento em blockchain da Overstock, por e-mail. A Overstock começou a aceitar Bitcoin em 2013, mas Johnson diz que transações realizadas em Bitcoin compreendem apenas 0,25% da receita do site – e a maior parte disso é em roupa de cama e decoração para o lar. Por enquanto, compradores munidos de Bitcoin estão procurando outros picos para achar roupas que impressionem seus pares.

A versão 350 do Yeezy Boost (Foto: Reprodução/Twitter Adidas)

O ecommerce que Finman frequenta é a Fancy, que começou a aceitar a moeda lá em 2013. Um porta-voz da loja me diz apenas que a plataforma “vendeu algumas coisas incríveis através de criptomoeda”. Não querer falar sobre Bitcoin é algo extremamente raro no mundo do Bitcoin: outras empresas são bem mais abertas.

Para Jack Apkarian, dono da Jeffersons Apparel em Bergenfield, Nova Jersey, criptomoeda é um jeito de atrair novos consumidores – e uma maneira de estocar sua própria pilha de dinheiro. Apkarian diz que ele recebe algo em torno de 10 ou 20 transações pagas por Bitcoin ao mês, ou de 1 a 6% de todas as operações mensais, e não se incomoda em transferi-las para dólar. “Eu não estou necessariamente interessado em sacar tudo isso”, diz. “É um investimento. Ele vale hoje muito mais do que costumava valer”, completa Apkarian. Johnny Szeto, um dos parceiros da Kicx Unlimited, que também aceita criptomoeda, me diz: “Achamos que vai ser o futuro”. Além do quê, quando lojas aceitam dinheiro digital e clientes adotam essa moeda, é uma ajuda à causa. “Qualquer utilidade ou praticidade envolvendo criptomoeda ajuda a legitima-la e torna-la mainstream”, diz Charlie Shrem, membro diretor  e fundador da Bitcoin Foundation. Finman aponta que comprar roupas é uma ajuda em particular. “Uma companhia de calçados cool vai ter muito mais influência para popularizar o Bitcoin do que a loja de conveniências da rua”, explica. O que é verdade com a moda, então, serve para o Bitcoin: ser cool ajuda.

Varejistas como Jeffersons e Kicx Unlimited parecem ter encontrado um estranho lugar em comum entre criptomoedas e streetwear. A melhor teoria para explicar isso é que o boom de ambos – e o maior número de homens jovens interessados nas duas coisas – é movido pela desconfiança em sistemas já estabelecidos: conglomerados de luxo de um lado, e bancos do outro. Mas o verdadeiro motivo para a junção pode ser bem menos abstrato. “Estou na internet o tempo todo, correndo atrás de coisas e vasculhando o que há de novo, e sinto que isso é boa parte da cultura do streetwear: tentar estar a par das últimas tendências ou saber o que tá rolando”, diz Landau Lang, que gerencia a companhia de investimento Gold Linx Capital e cuida de um canal de Youtube dedicado aos sneakers e streetwear no tempo livre. “Acho que criptomoedas são sinônimo dessa busca”. Lang também nota que a molecada que vai atrás de peças hype da Supreme e “oito ou nove pares de Yeezys” já são tech-savvy e não têm medo de testar novas ideias como o Bitcoin.

 (Foto:  )

Considere também que boa parte das pessoas comprando streetwear raro e sneakers fazem isso para jogá-los de volta ao mercado e conseguir uma grana – um processo não tão diferente de como pessoas movimentam suas moedas digitais. “Muitas dessas pessoas estão entendendo muito novas como identificar grandes investimentos, e eu acho que isso tem um efeito no mercado financeiro”, diz Lang.

Mês passado, Lang postou no Twitter que estava vendendo um monte de Supreme, Palace, Off-White e tênis, e ofereceu a metade do preço para qualquer um disposto a pagá-lo em criptomoeda. Ele me disse que fez isso enquanto o valor delas estava em queda – Litecoin, em particular, havia caído de US$339,45, em seu pico, para US$ 130,48. “Muito disso foi para provar meu ponto”, ele diz. “Isso mostra como sou mais otimista com a moeda virtual”. Lang acabou vendendo uma camiseta da Supreme por 0,65 de um Litecoin, equivalente a US$ 75 na época. Desde então, Litecoin voltou a valer algo em torno de 208 dólares, o que significa que o 0,65 pelo qual Lang vendeu seu Supreme agora vale mais ou menos US$ 135. Seu investimento quase dobrou de valor – um bom negócio, sem dúvida.

*Leia a matéria original na GQ US.

Fonte Oficial: GQ.

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