#GQporElas: a campanha #Dontphotoshopme no Hysteria – GQ

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Nem a garota da capa de revista se parece com a garota da capa de revista. A frase deve ser de algum filme antigo do qual não lembro o nome – mas a questão segue atual. A fotógrafa mineira Maria Ribeiro, 32 anos, lançou em fevereiro a campanha online #Dontphotoshopme, que convida mulheres a postarem nas redes sociais fotos sem nenhum tipo de intervenção digital. Isso sem aquele filtro escuro ou blur nas marquinhas, deixando à mostra, de verdade, o corpo que habitam.

“Sempre fotografei mulheres sem alterá-las com o Photoshop”, diz Maria, que no ano passado ganhou o prêmio Ivone Hebert da ONU Mulheres pelo projeto Nós Madalenas. Nele estavam fotos de cem mulheres (sem tratamento de imagem) com palavras que representam o feminismo escritas em seus corpos. “Essa questão ficou forte pra mim quando trabalhei com publicidade. Ali vi como a mídia nos influencia a ir atrás de um corpo que não existe”, diz.

Ao impor um padrão de beleza irreal, os rostos e corpos “perfeitos” das campanhas publicitárias criaram um sistema nocivo para as mulheres – e o mundo está percebendo isso. Em 2016, a França criou uma lei que obriga os anúncios com retoques digitais a exibir uma tarja que informe o público sobre a manipulação (“Photographie retouchée”). Em Israel, desde 2013 é obrigatório que as alterações digitais feitas em fotos de moda sejam sinalizadas. A Austrália adotou a mesma prática de forma voluntária em 2010.

Mesmo quem trabalha no mercado de tratamento de imagem passou a questionar essa lógica. “No passado, trabalhei para revistas de beleza e saúde que diziam ‘faz essa dieta que você vai emagrecer’. Mas a moça da capa tinha secado com o Photoshop mesmo”, conta José Fujocka, fundador da Fujocka Creative Images e pioneiro em pós-produção de imagem no país.

Enquanto causa frustração nas mulheres, a busca por um corpo magro e perfeito engorda os balanços de um setor bilionário. Neste ano, o mercado de produtos de beleza projeta um crescimento nominal de 7,5% em seu faturamento, que deve chegar a R$118,2 bilhões, segundo a associação do setor. Fora isso, o Brasil é o segundo país no ranking mundial de cirurgias plásticas e, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, as mulheres representam 85,6% desse mercado. “A indústria da beleza lucra bilhões vendendo insegurança para as mulheres”, resume Maria.

A fotógrafa mineira Maria Ribeiro: “Essa questão ficou forte pra mim quando trabalhei com publicidade. Ali vi como a mídia nos influencia a ir atrás de um corpo que não existe” (Foto: Hysteria)

Retoque nos boys?

A mídia especializada em imagens retocadas também mostra as garras do sexismo. “Quando é uma foto de homem, as revistas dizem: ‘Não retoca, deixa como está porque é másculo.’ Se é uma mulher, eles até falam para deixar ‘natural’, mas sempre pedem para retocar uma coisinha ou outra, por mais perfeita que a pessoa seja”, conta Fujocka.

Apesar de diversas marcas e revistas terem entrado na onda da representatividade, Maria questiona a legitimidade dessas campanhas. “Mesmo quando a indústria da imagem levanta a bandeira da diversidade, ela não está nos representando. Um exemplo é a questão do plus size, que é uma abertura à diversidade, mas muitas modelos plus sizes não são gordas”, ela afirma. “Eu fotografei a modelo Nathalia Novais (do canal do YouTube Todas Juntas) e quando ela me falou que era modelo plus size, eu não acreditei, porque ela é magérrima.”

Mesmo algumas garotas da capa passaram a questionar as intervenções digitais feitas em seus corpos. Em 2017, a atriz e escritora Lena Dunham elogiou a revista Glamour por não ter retocado uma capa que estampou: “Obrigado por deixar minha celulite brilhar”, ela postou no Instagram. “Fiz um trabalho há pouco tempo com uma cantora que me ligou e fez questão de avisar que não era para mexer em nenhuma gordurinha e nem clarear a pele”, diz Regis Panato, fundador da Photouch, estúdio que trabalha com fotógrafos renomados como J.R. Duran. “Ela queria ficar do jeito que ela é”, conta.

Mas o caso contado por Regis ainda é exceção. Em boa parte das vezes, a própria celebridade exige os retoques, uma postura corroborada pela mídia. “É uma exigência do cliente, isso está na cabeça de quem está editando a revista ou editando a campanha”, diz Fujocka. “Quando é uma modelo que ninguém conhece, o público olha e não tem referência, mas quando é uma celebridade global e você altera pra caramba, cara… eu fico mal”, diz.

Em tempos de filtros e apps de tratamento que estão a um clique, campanhas como a #Dontphotoshopme se fazem pertinentes. “Falar de corpos não é só falar de estética. Precisamos ter consciência de que há todo um sistema que nos ataca e nos oprime”, diz Maria.

Fonte Oficial: GQ.

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