#GQporElas: o dicionário prático do feminismo – GQ

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Uma certa ilusão de ótica nos faz enxergar apenas separação, distância, diferença. mas não se deixe enganar por palavras que você não entende ou imagens mal utilizadas: o feminismo diz respeito a todos nós. se você está perdido, elaboramos um pequeno glossário sobre algumas das pautas (umas novas; outras, antiquíssimas) para você entender, de uma vez por todas, do que estamos falando.

1. Mansplaining

É a combinação das palavras “homem” (man) e “explicando” (explaining) e significa explicar para uma mulher algo que ela já sabe, de forma condescendente. Tipo bonzinho e atencioso, mas deixando claro que o “explicador” sabe mais do que a interlocutora, ainda que ela seja expert no assunto da conversa. A escritora Rebecca Solnit define o mansplaining como “a combinação entre excesso de confiança e falta de noção”. É por aí.

2. Manterrupting

Sabe aquele amigo mala que não consegue esperar você terminar a sua história antes de contar a dele? Pois é, se já é desagradável com você, com as mulheres o efeito é ainda pior. Tanto que virou jargão. O fenômeno do manterrupting (homem interrompendo) é a “arte” de se sentir à vontade para atravessar qualquer declaração feita por uma mulher.

Como todos nós tomamos machismo na mamadeira, é provável que tenhamos passado por isso – homens e mulheres – sem perceber. Pode ser executado pelos homens mais doces e gentis. Fique esperto.

3. Boy lixo

Está para nascer um adjetivo positivo com a palavra lixo. Por isso, se você ou algum amigo estiver sendo chamado assim, passou da hora de repensar o jeito de lidar com as mulheres. o boy lixo é o sujeito que, como tantos outros machistas, não enxergam numa mulher qualquer coisa além de um objeto para satisfazê-lo sexualmente. a diferença é que ele se veste de várias fantasias para tentar se esconder. Faz papel de bom-moço, amigo, feminista e crítico ferrenho à misoginia. Em geral, engana bem, mas precisa aprender que a fama corre rápido.

feminismo (Foto: Camila Rosa)

4. Sororidade

É “amizade” com sentido político. É também o feminino de “fraternidade”, já que a raiz vem de “soror”, que significa “irmã”. A sororidade está na base do feminismo porque ela implica lealdade entre mulheres na luta por direitos, a despeito das diferenças. É saber que nem todas pensam igual ou têm os mesmos objetivos, mas, unidas, podem desmontar eventuais maquinações contra a busca por seus ideais. Respeita as irmã, mano.

feminismo (Foto: Camila Rosa)

5. Lugar de fala

Expressão que mostra que quem fala, e de onde essa pessoa está falando, definem o que está sendo dito. Pode o subalterno falar? Abrir e garantir esse espaço é papel do lugar de fala – E por isso se tornou o discurso da minoria política. é a história contada pela negra, pela lésbica, pela faxineira e, é claro, por homens atentos ao mundo atual. Lugar de fala é, em resumo, a democratização da narrativa.

6. Consentimento

Não há 50 tons de cinza na palavra “consentimento”. O “não” não é um jogo de sedução para chegar ao sim, não é a tentativa de erotizar e não aceita interpretações. Ele sequer precisa ser verbalizado: vale se expressar com o corpo, com os olhos, com as mãos.

Agora, outro lembrete importante que não custa ser repetido: mesmo o sim pode virar não em pouco tempo se a mulher decidir que basta. Talvez por isso Deus tenha feito da punheta um recurso tão simples. Nessa hora, o homem está entregue a suas próprias armas – e, vamos combinar, não é tão difícil se masturbar e esperar o sim.

7. Gozo

Um mito contado pelo americano Joseph Campbell frequentemente é utilizado para tratar da diferença entre o gozo masculino e o feminino: Tirésias caminhava pela floresta quando viu duas serpentes copulando. Colocou o seu cajado entre elas e virou mulher. Anos depois, estava na mata quando viu duas serpentes copulando, colocou seu cajado entre elas e voltou a ser homem. Um belo dia, na colina do Capitólio, Zeus e sua mulher discutiam para saber quem extraía mais prazer da relação sexual.

feminismo (Foto: Camila Rosa)

Chamaram Tirésias, que logo disse: “Ora, a mulher, nove vezes mais do que o homem”. Não há como medir prazer, mas é claro que o gozo é um fenômeno diferente para homens e mulheres. Se para eles existem só dois tipos (pênis e próstata), para a mulher existe uma infinidade: clitorianos, vaginais, anais… O corpo feminino, esse lugar encantado, é mesmo uma tremenda criação.

8. Clitóris

É aquela região do corpo feminino que tem localização tão misteriosa quanto a pequena Papua Nova Guiné. O clitóris descansa mais para o extremo norte, imponente, poderoso, espetacular. Atenção: Não caia na tentação de visitar os países baixos do corpo feminino sem explorá–lo com calma. se você se perder, peça orientação, uma atitude sempre melhor do que vagar sem rumo e nos fazer começar a pensar nas tarefas do dia seguinte.

Cada vagina tem terminações nervosas únicas, o que torna cada mulher muito diferente da outra, e Há ramificações clitorianas por todos os lados dela. desculpem, mas nunca haverá como escrever o guia da buceta – ao contrário do pênis, que tem uma só maneira de gozar. O cromossomo X é de fato o mais complexo e interessante do genoma humano, e esse jogo clitoriano vale por todo um campeonato, pois é ali, pode acreditar, onde somos mais felizes. Vale demais desvendá-lo.

9. Sexo X fazer amor

Tem horas que sexo basta, mas tem outras em que é preciso fazer amor. Sexo é o erotismo em altas e expressas doses: pode ser em banheiro público, no carro, na praia. Fazer amor é ato contínuo e não necessariamente envolve romantismo, penetração ou gozo – ainda que os dois últimos sejam sempre bem-vindos. É mais se enamorar pelo corpo da outra pessoa, tratá-lo como um templo, algo tão sagrado que é capaz de abrir portais de percepção e expandir a consciência.

10. Feminismo

Para começar, vamos dizer o que o feminismo NÃO é: guerra contra tudo o que seja masculino, luta pelo confinamento de todos os homens e – essa é para quem realmente tem medo da força feminina – desejo secreto de sair por aí cortando paus enquanto seus donos dormem. Tampouco envolve aplaudir mulheres que estejam em situação de poder mas reforcem todos os mecanismos de opressão. Pense na ex-premier britânica Margaret Thatcher e você saberá o que feminismo não é.

feminismo (Foto: Camila Rosa)

Para o badalado historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do livro Sapiens, o feminismo é uma das três maiores descobertas do século 20. Feminismo é o movimento em direção a um mundo em que as energias masculinas e femininas estejam equilibradas. Em resumo, é a árdua batalha por um arranjo social com mais igualdade. Estamos conversados?

Fonte Oficial: GQ.

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