A arte como instrumento de luta – GQ

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Na semana passada tivemos o “dia da mulher”, esse mês a edição da GQ Brasil é toda feita e pensada por mulheres. Eu, como homem e colunista da revista, tentei reverberar o que é ser mulher em 2018. Longe de chegar a alguma conclusão, mas notei que vivemos sim num momento de uma força feminina estupenda, confiante e que não quer mais se curvar ao machismo impregnado na sociedade. Mas no fim, penso que faz parte de um movimento mais amplo, em busca de direitos civis igualitários, e nisso temos racismo, homofobia, questões de gênero e classe social além da luta contra os abusos sofridos, em todo e qualquer nível.

Isso me levou instantaneamente a uma obra que vi, que faz parte de uma exposição incrível  chamada “Radical Woman”, que estava em cartaz no UCLA Museum em Los Angeles até final do ano passado. Dia 13 de abril ela abre no Brooklyn Museum em NY e em setembro ela chega na Pinacoteca. Não quero me estender muito sobre a exposição para poder falar dela no momento em que estiver chegando ao Brasil, mas se trata de um poderoso recorte da produção de vanguarda de mulheres latinas de 1960 a 1985. Quero neste texto falar um pouco de uma obra que me emocionou muito, de uma artista e poeta peruana chamada Victoria Santa Cruz. A obra é um vídeo/performance chamado Mi Gritaron Negra ( Me Gritaram Negra ), produzido em 1978. Nele, a artista assume papel de protagonista de sua própria história e de uma maneira potente se assume negra e, mais que isso, uma mulher negra.

No filme fica clara a força do preconceito, as convenções estéticas, o peso de se sentir menor e a incessante luta pela afirmação feminina. Quando ela assume que se pintou e alisou o cabelo para ser aceita (ou menos insultada), soa muito atual nesse mundo feito de imagens irreais onde algumas mulheres lutam para se adequar a certos padrões. Mas o que prevalece é um orgulho latente daquela mulher das suas raízes e a força que surge a partir da quebra dos paradigmas sociais. Esse filme, feito exatamente há 40 anos carrega todo o peso do preconceito do momento em que vivemos. Enquanto barreiras estão sendo levantadas, vozes distintas assumem protagonismo para derrubá-las. Sugiro que vejam o filme e percebam o quanto a arte é instrumento para escancarar as mazelas sociais, mas também arma grandiosa para lutar contra elas.

Fonte Oficial: GQ.

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