4 poetas contemporâneos refletem sobre a beleza – GQ

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O que quatro poetas contemporâneos estão fazendo em uma salão de beleza? Essa é a primeira pergunta que veio à mente de quem esteve numa tarde do mês de agosto em um dos salões mais tradicionais e movimentados de São Paulo, o L’officel II, nos Jardins.


Claudia Ardessore (no centro) e os quatro poetas (Foto: Divulgação)

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O encontro, batizado Prosa e Poesia, foi idealizado por uma das sócias do local, a hairstylist e consultora de imagem Claudia Ardessore. “A ideia do encontro com 4 poetas em um salão é tirar o peso do superficial, da glamourização e trazer profundidade para a concepção de beleza”, explica ela. E não é mesmo só de glamour que vive um salão como este, mas também de histórias, algumas tristes, como a da cliente que passou por um tratamento oncológico e teve o doloroso processo de se reconhecer no espelho com os cabelos raspados.

Lucas Lujan, 33 anos, Wally Wilde, de 30 anos, Rafael Cavalcanti, de 31 anos e Zack Magiezi, de 36 anos, são poetas de seu tempo, que usam as redes sociais, principalmente o Instagram, para divulgarem a sua obra. Lucas, Wally e Zack fazem parte do coletivo de poesia Casa Vulgar.

Em torno dos assuntos beleza, amor, autoestima e até tatuagem – todos eles são adeptos – a conversa aconteceu entremeada por poemas de autoria de cada um deles. Saiba quem são eles.

Lucas Lujan @lucaslujan


Lucas Lujan (Foto: Divulgação)

Da Zona Sul de São Paulo, com uma história de pobreza e vício na família, Lucas é formado em teologia e filosofia e lembrou do padrão aristotélico de beleza, da simetria, fórmula inatingível que gera a escravização de um padrão inalcançável. Em seguida, vem Platão, que diz que a beleza é a verdade. “O belo como a sua verdade sem narrativa de autoridade, uma vez que não há verdade absoluta. A vaidade é um valor importante, mas o salão não é uma indústria da beleza. A beleza está nos vínculos, nos afetos”, reflete ele.

“O brigadeiro estava cheio de granulado,
bonito aos olhos, mas seu gosto era ruim.
Nem sempre o que agrada os olhos faz sucesso no paladar. Nas coisas mais importantes da vida, o sabor importa mais que a aparência”

Wally Wilde @_wallywilde


Wally Wilde (Foto: Instagram)

Nascido em, Belo Horizonte, ele também foi ator. “Por que existe um abismo entre os escritores e os profissionais da beleza? De onde vem essa ideia de que a beleza é a superfície e a intelectualidade é o profundo?”, pergunta Wally. Segundo ele, ambos são profissionais que tratam do interno em primeiro lugar. “A literatura, por exemplo, me faz sentir mais bonito, porque me faz bem. Beleza é onde você se sente bem, onde te traz um empoderamento. Acho belo ouvir que as pessoas se identificam com o que escrevo. Minha poesia me empodera, me deixa mais bonito”, conclui.

“A beleza é irreal
Um delírio passageiro
Feito um cigarro se consumindo pelo fogo
A arte é a única maneira
De parar a beleza”

Rafael Cavalcanti @derafaelcavalcanti


Rafael Cavalcanti (Foto: Instagram)

Para ele, que também é designer de formação, tanto a moda, quanto a cena literária, vieram de raízes elitistas e cheias de regras. “Na moda, era o padrão de beleza; na poesia, eram os sonetos, as rimas cadenciadas. Agora, a poesia pode se esparramar como quiser e assumir a sua própria linguagem, o movimento é a aproximação com o povo. As pessoas estão assumindo suas linguagens, tanto na escrita quanto na forma de se vestir”, observa ele. o poeta.

“No encontro da casa com o rio, que era o quarto, tinha um espelho d´água.
Às vezes ele era grande e mostrava todo mundo bonito.
Às vezes ele era pequeno e não mostrava ninguém.
dependia se chovia.”

Zack Magiezi @zackmagiezi


Zack Magiezi (Foto: Instagram)

Com um milhão de seguidores no Instagram, o poeta que também é palhaço trouxe à tona um dos maiores tabus da beleza: a idade. Ao contrário da cobrança de que quanto mais jovem, mais bela, afirma que a beleza cresce com o tempo e está no nosso legado, não se restringindo ao espelho. “Devemos explorar a beleza de quem somos hoje”, conclui.

“Passos leves.
Pés machucados.
Expressão graciosa.
O coração cheio de dor.
A música, sim a música, é mãe acolhedora.
Olhar cansado, mas persistente e lépido.
Como é dançar com o coração tão quebrado.
Mantendo o equilíbrio e não deixando os cacos caírem.
Seus gestos são encantos.
Músculos contraídos.
Esforço recompensado.
Pelo deslumbramento próprio.
Me arranca aplausos.
Eu, um homem atormentado pelos fantasmas,
Encontro um alívio ao ver a dor se tornando beleza”

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Fonte oficial: GQ

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