A indústria do sono tem transformado o descanso em símbolo de status – GQ

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Dormir, um privilégio: “Estamos vivendo uma epidemia de sono insuficiente.” E isso abastece um mercado lucrativo no Brasil (Ilustração Victor Amirabile)

A rotina das grandes cidades e o ritmo frenético da tecnologia transformaram o hábito de dormir bem em uma medida de sucesso. A Associação Brasileira do Sono estima que 75% da população apresenta queixas que vão dos distúrbios (insônia, ronco e apneia) às insatisfações (cansaço recorrente e sonolência diurna). Gabriel Pires, biomédico e pesquisador do Instituto do Sono, afirma que “estamos vivendo uma epidemia de sono insuficiente”. E isso abastece um mercado altamente lucrativo.

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Nos EUA, pesquisa da consultoria McKinsey mostra que a indústria do sono chega a faturar até US$ 40 bilhões por ano. No Brasil, segundo dados do Instituto de Estudos e Marketing Industrial, só as empresas de colchões e camas-box movimentaram em 2018 cerca de R$ 9,1 bilhões.

O engenheiro mineiro Rafael Moura, fundador da rede de franquias I Wanna Sleep – que fatura milhões vendendo de chá relaxante a colchão tecnológico, passando por travesseiros personalizados e até cascatas para dormitórios – é um dos muitos empreendedores dedicados a oferecer facilitadores do sono. “Dormir bem não deveria ser um luxo, mas hoje poucas pessoas conseguem ter o privilégio do sono reparador”, afirma o empresário.


Dormir, um privilégio: “Dormir bem não deveria ser um luxo, mas hoje poucas pessoas conseguem ter o privilégio do sono reparador” (Ilustração Victor Amirabile)

Símbolo de status

Nos anos 1990, um experimento da NASA demonstrou que seus pilotos atingiram melhores níveis de performance e atenção depois de cochilar por 26 minutos durante o expediente. Inspiradas nisso, hoje no Brasil empresas como P&G, Novartis, Sanofi e o Hospital Albert Einstein têm adotado cabines que oferecem aos funcionários mal-dormidos um cochilo reparador. O benefício é oferecido pela Cochilo, que também conta com dois cochilódromos de rua em São Paulo, onde recebe, em média, 150 pessoas por dia. As sonecas são divididas por períodos de 15 minutos, com tempo máximo de uma hora, e custam entre R$ 12 e R$ 25. “Obviamente, o poder de escolha aumenta de acordo com a classe social”, diz a cofundadora Camila Jankavski. O serviço é contraindicado aos insones.

O pesadelo tecnológico

Além de serviços, aplicativos também têm surgido como recursos que asseguram o restabelecimento da saúde do sono. Na lista dos 50 mais baixados de saúde e fitness, oito – inclusive, o primeiro – são relacionados ao tema, todos sujeitos a cobrança. Entre os destaques, o Sleep Cycle se apresenta como um alarme inteligente, que monitora e analisa o comportamento noturno do usuário. Mas apesar da boa intenção, a análise, de acordo com especialistas, é falha. “O exame de polissonografia realizado em clínicas especializadas é o único capaz de garantir um diagnóstico preciso”, afirma Shigueo Yonekura, neurologista do Instituto de Medicina do Sono e referência na área. Ele atende, em média, 350 pacientes por mês em seu consultório.

Basicamente, o uso de qualquer aparelho eletrônico na cama ou antes de dormir é fortemente desaconselhado pelos médicos. Inclusive os vídeos de ASMR (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano, em português), prática que promete induzir o sono por meio de ruídos repetitivos e já soma mais de 60 milhões de vídeos no YouTube. O espectro de luz azul emitido pela tela inibe a produção natural de melatonina, o hormônio do sono, pelo organismo, assim como a interatividade faz o usuário permanecer em estado de alerta.

Falando em melatonina, muitos brasileiros têm recorrido também ao consumo indiscriminado de sua versão sintética, trazida do exterior. “Ela só antecipa o horário de dormir, não trata o problema. Pode, inclusive, provocar dependência psicológica”, alerta Pires. O mesmo vale para os fitoterápicos valeriana e triptofano. Segundo a Academia Americana de Medicina do Sono, nenhum deles oferece efeito clínico, funcionam apenas como placebo. 


Novos hábitos

Noites mal-dormidas prejudicam o sistema imunológico, o aprendizado e a memória, assim como contribuem para depressão, transtornos de humor e mentais, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, câncer, envelhecimento precoce e morte prematura. Para se proteger, o segredo é simples: mudar os hábitos.

Comece procurando um médico especializado, caso o problema se perpetue por mais de 15 dias. Seu celular não fará isso por você. Yonekura orienta ainda a realizar exercícios físicos somente até quatro horas antes de se deitar, evitar substâncias energéticas durante a noite, dormir em horários regulares inclusive aos finais de semana, não ingerir alimentos com alto teor de gordura no jantar, deitar de lado com os joelhos levemente flexionados e um travesseiro fino entre eles, e ensinar ao cérebro que seu quarto é um espaço exclusivamente de dormir. Ou seja, jamais transforme sua cama em sofá ou escritório. Boa noite e boa sorte.

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Fonte oficial: GQ

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