A rede de startups que quer transformar cultura preta em dinheiro para o povo negro – GQ

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Da esquerda para a direita: Yan Ragede, Hasani Damazio, Bruno Brigida e Valmir Nascimento (Foto: Franco Amendola)

Mansa Musa ficou mundialmente conhecido como o “homem mais rico da história”. Mas o governador do Império do Mali, na África Ocidental, durante o século XIV não mereceu tal título apenas por sua quantidade de ouro. Musa acreditava na importância de atribuir ao comércio propósitos maiores do que a relação de compra e venda. Sua fortuna financiou a criação de grandes universidades que ensinavam Teologia, Filosofia, História, Direito e Medicina. Sob seu comando, o Mali se tornou uma civilização urbanizada, com arquitetura monumental e mercados conectados a outras nações. O mais rico africano que já andou pela terra investia em sua gente. Era, por assim dizer, um empreendedor nato.

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A 6 mil quilômetros do Mali, a rua Rego Freitas, no centro de São Paulo, guarda em si um universo composto por muitos outros, chamado Afropolitan Station. Há roupas, acessórios, cosméticos, obras de arte, gastronomia, peças exclusivas, tudo feito por afroempreendedores que possuem negócio próprio e a missão coletiva de incluir história, identidade e criatividade em seus produtos – além de imersão cultural a cada compra. O objetivo da startup inaugurada em 2018 é ser um ambiente colaborativo onde acontecem conexões inovadoras. Nesse espaço afropolitano, Hasani Damazio mantém vivo o legado de Mansa Musa.

“Nasci em uma família de negros. Mãe negra e pai negro,  militantes do Movimento Negro”, diz o especialista em relações internacionais afro-brasileiro que viaja o mundo prestando consultorias e investindo em ideias disruptivas. “Me mudei cedo e vivi até os 14 anos na Catalunha. Lá aprendi quem eu era, de onde vinha. Tinha orgulho disso, mas também assimilei a cultura dos outros sem vergonha nenhuma. Sou um transculturalista, uma pessoa que transcende sua cultura original e consegue conviver com culturas alheias”, explica. Foi graças à multiplicidade de perspectivas que Hasani potenciou encontros que mudaram a sua e muitas outras histórias.

 “Nós não fazemos cultura, nós somos cultura”, diz o investidor-anjo Hasani Damazio sobre sua rede de afroempreendedores (Foto: Franco Amendola )

Os afroempreendedores

Um estudo encomendado pelo Instituto Feira Preta, com apoio do Itaú e realização do Instituto Locomotiva, revelou que os negros brasileiros movimentam R$ 1,7 trilhão por ano em renda própria. Dos negros que trabalham, 29% possuem seus próprios negócios e movimentam por volta de R$ 359 bilhões por ano. Hasani uniu ao seu redor três deles.

“Percebi que meus trabalhos de carteira assinada não faziam sentido, me sentia vazio por não trazer impacto para outras pessoas”, conta Yan Ragede, afroempreendedor e cofundador da Afropolitan Station, cujo pai, empresário negro, aconselhava-o a não seguir pelo mesmo caminho que o seu. Mas o desejo por independência falou mais alto, como um chamado ancestral. Entrou no varejo em 2011, vendia roupas importadas na internet e cursava História quando se deparou com dados sociorraciais e socioeconômicos que lhe despertaram para a condição do negro no Brasil. “A partir desse momento, resolvi dedicar minha vida a combater o racismo”, diz.

O caminho escolhido teve como inspiração uma figura histórica fundamental para a luta do povo africano no século XX: Marcus Mosiah Garvey, empresário, empreendedor e comunicador. Garvey nasceu em 1887, na Jamaica, e durante seus anos de vida aliou ativismo e empreendedorismo como formas de libertar e restaurar a autodeterminação do povo africano no mundo. Sua campanha pelo desenvolvimento econômico do povo preto resultou em criações importantes como a UNIA (Universal Negro Improvement Association – ou Associação Universal Para o Progresso do Negro, em português), o jornal “The Negro World” e a companhia de navegação “Black Star Line”.

O passo seguinte, para Yan, foi encontrar negros e negras de sua cidade, Salvador, que produzissem roupas. Em  2016, surgiu o primeiro projeto que juntou empreendedores negros em um só espaço, uma “loja afrocolaborativa”. Em 2018, o encontro com Hasani fez Yan perceber que não era o único nesse movimento. Logo depois a Afropolitan Station nasce com o desafio de “trazer não só a história que está na peça, mas a história que está por trás: a dessas pessoas”.

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Outro empreendedor viu nas conexões entre produtores e consumidores negros a brecha para conceber o Clube da Preta, primeiro clube de moda afro por assinatura. O administrador e jornalista Bruno Brigida usou seu networking preto para fazer o projeto que, em 2018, cairia nas graças de Hasani. Bruno explica que “queria entender o processo de ser um pequeno estilista negro dentro do país”, então, conversando com alguns amigos, ele percebeu que enviar algo de surpresa aos mais variados públicos poderia dar certo. Hoje, os mais de 450 assinantes ativos do clube recebem caixas com produtos de moda variados criados por afroempreendedores de regiões periféricas. “O afroempreendedorismo vem para ser o caminho principal rumo a mais negros com poder financeiro e econômico”, afirma.

Valmir Nascimento foi outro que cruzou com o investidor em busca de projetos que viabilizassem o propósito comum de criar uma cadeia de valor e riqueza para o povo preto. “Ele me falou que queria fazer um ecossistema de apoio a afroempreendedores através do e-commerce”, conta o hoje diretor de tecnologia do Afro.Estate, fundo de investimento-anjo comandado por Hasani. Inicialmente envolvido com música e conteúdo para redes sociais, Valmir estudou Análise de Sistemas e, no ano passado, topou desenvolver o projeto de expansão desse ecossistema. “A tecnologia permite mudar o mercado, mudar a perspectiva de um grupo, mudar o jeito que uma tribo se comunica”, reflete. “Nós temos uma essência criativa que vem de milênios, desde o Egito.”

Valmir Nascimento (à esq.), do Afro.Estate, e Yan Ragede, do Afropolitan Station, unem produtores e consumidores negros (Foto: Franco Amendola)

De Dalí a Malcolm X

Uma das últimas – e talvez mais marcantes – memórias da infância de Hasani na Catalunha foi um encontro surreal. “Morávamos em Figueras, onde nasceu e vivia o pintor Salvador Dalí. Imagine uma cidade relativamente pequena, em que chega uma senhora negra com dois filhos, os únicos negros do lugar. Não demorou para que ele quisesse saber quem eram aqueles dois negrinhos que passavam por ali, para cima e para baixo”, conta. A curiosidade do artista catalão rendeu uma inusitada amizade com os irmãos – da qual somente muitos anos depois ele entenderia a dimensão.

Já adulto, depois de uma rápida volta ao Brasil por conta do estado de saúde do pai, sociólogo e antropólogo, Hasani se mudou para os Estados Unidos no início dos anos 2000. Lá, foi o primeiro afro-brasileiro a ser aceito no programa de Jovens Executivos da Câmara Americana de Comércio. Estudou Relações Inernacionais na New York University enquanto trabalhava como ajudante de garçom. Foi um documentário, Startup.com, que o motivou a escrever seu primeiro business plan.

“Mostrei [o business plan] para uma professora negra. Ela organizou umas 20 reuniões, foi em todas comigo”, recorda. Com a orientação dela, o jovem negro ouviu pela primeira vez um “sim” acompanhado de um investimento de meio milhão de dólares. “Recebi uma ligação para abrir conta no banco. Respondi que só abriria no primeiro banco de negro que tivesse no Harlem”, diz. Foi o que fez. A agência escolhida, curiosamente, ficava no cruzamento das ruas Dr. Martin Luther King Jr. e Malcolm X.

Para Bruno Brigida, do Clube da Preta, o encontro com Hasani o fez perceber que não estava sozinho (Foto: Franco Amendola)

Muito além dos palcos

De volta ao Brasil, em 2010, Hasani virou Chefe da Assessoria Internacional do Ministério do Turismo, o que lhe permitiu conhecer embaixadores africanos e criar uma rede de contatos no Continente Mãe. Desde então, passou por mais de 20 países trabalhando para empresas e governos e conectando afroempreendedores. 
Hoje aos 40 e estabelecido por aqui, o businessman comanda o Afro.Estate, rede dentro da qual vivem o Afropolitan Station e o Clube da Preta, além de outros projetos e startups como a Afropolitan Wallet, que contará com uma moeda digital própria, e o AWO, serviço de nuvem, big data e inteligência artificial.

O objetivo, em números, é canalizar 100 milhões de reais em investimentos para 100 startups disruptivas, resultando em um portfólio total de R$ 1 bilhão. Consequentemente, criar 10 mil empregos relacionados à tecnologia nos próximos 10 anos. Como ele vê o Afro.Estate? “Nós não fazemos cultura, nós somos cultura.”

Evitando se limitar às palestras e frases feitas, Hasani acredita que é preciso cuidado para não se tornar um “empreendedor de palco”. Se o propósito é fazer crescer a riqueza entre pessoas negras, não há tempo a ser investido em falácias. “Empreendedor é aquele que observa a sociedade em que está inserido, identifica um problema e se propõe a resolvê-lo com produtos e serviços. Essa é a definição. Se ele não está resolvendo problemas, está fugindo do seu propósito. Não há motivo para existir”, define.

Mansa Musa e tantos outros africanos históricos provaram ao longo dos séculos que uma África cosmopolita pode romper barreiras geográficas impostas pelo tráfico transatlântico de seus ancestrais escravizados e unir, de fato, todo um povo em diáspora. Uma palavra recorrente entre Hasani e os demais afroempreendedores, filhos dessa diáspora, é “propósito”. Mas existe outra que complementa seu sentido e também é conhecida por todos. “É uma das palavras da minha vida”, revela o transculturalista. “O que eu vou deixar aqui? Legado.”

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Fonte oficial: GQ

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