Ana Flávia Cavalcanti vive uma viciada em ‘Sob Pressão’: “Foi um desafio acessar esses lugares” – GQ

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Ana Flávia Cavalcanti: “Tem muita ilusão no mundo, principalmente um certo deslumbre com a imagem, com a televisão, com o ser famoso” (Foto: Carlo Locatelli / Divulgação)

GQ Brasil: Como foi o desafio de viver uma dependente química em Sob Pressão?
Ana Flávia Cavalcanti: Mais do que exatamente focar na dependência, acabei buscando referências em relatos de dependentes químicos na internet, em vídeos no YouTube, em filmes. Fiquei pensando muito sobre quais eram os motivos que levaram a Diana esse estado limite de ir para as drogas e não conseguir sair sozinha disso. Desilusão, tristeza, saudade e momentos difíceis estão conectadas com a vida de todo mundo. Acredito que uma pessoa que é saudável ou que não tem uma predisposição a desenvolver uma dependência química passa por esses momentos difíceis e segue, supera. Outras que têm essa doença e não sabem, de repente entram em contato com uma substância química e acabam se viciando. Na minha concepção está tudo muito conectado com a vida que levamos, com as nossas escolhas e as demandas atuais – que são intensas – pois estamos em um mundo cada vez mais digital, tecnológico, rápido. De alguma forma isso também reflete e repercute nas nossas vidas. Basicamente, tentei me conectar com essas dores. A Diana perde a irmã e está sozinha; ela vai para outra cidade em busca de uma vida melhor e as coisas acabam que não dão certo naquele primeiro momento. Ela não teve maturidade ou um apoio por perto. Quando a irmã vem morar junto com ela, há uma melhora e ela para de se drogar. Mas tem essa fatalidade, essa morte brutal que deixa ela muito sem rumo, até que encontra o N.A, o que de fato faz muita diferença. No episódio da semana passada (18), ela falou que estava há 60 dias limpa, e isso é muito importante e muito forte para quem frequenta o N.A. e vive essa filosofia, que salva tantas vidas, que é o “só por hoje”, um dia de cada vez. Foi um desafio acessar esses lugares, sim, mas também é sempre bom para refletir sobre a minha própria vida, pensar nos meus limites, no que estou fazendo com os meus dias. É sempre uma oportunidade de se viver. A vida é muito cíclica, as coisas mudam muito, é muita coisa. Uma vida é muita vida.

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GQ Brasil: Você disse que Onde Está Meu Coração é uma série sobre superação. Emendando trabalhos, como você vê sua superação pessoal para chegar até aqui?
Ana Flávia Cavalcanti: Onde Está Meu Coração é uma série de superação sim, de espelhamento, de relação com a família, de ter, de repente, um momento muito difícil, mas estar amparado pelos seus. É muito importante ter esse amparo, ver que você não se está sozinho, poder contar com alguém e segurar na mão dessa pessoa e dizer “vamos juntos, vamos comigo” ou até “não estou bem, estou precisando de ajuda”. A Inês, minha personagem, é uma ex-viciada, uma mulher que está reconstruindo a vida dela e que também está no vivendo um dia de cada vez. É uma mulher muito íntegra, trabalhadora, que está ali do lado da Dr.ª Amanda (Letícia Colin) e trabalha com ela e a observa. Elas são contemporâneas, praticamente da mesma idade, e sacam uma a outra, percebem o que estão vivendo. A Inês dá todo o apoio possível e chama a Dr.ª Amanda numa chincha, falando “olha presta atenção, você não está sozinha. Já passei por isso e acho que você precisa de ajuda”. Então é uma série sobre atravessar e superar os nossos limites. Quanto à minha própria superação, ela ainda não acabou, acontece diariamente. Cada momento da nossa vida exige um tônus, uma energia, uma motivação… Tive que superar muitas coisas e tenho certeza que terei que superar outras tantas, coisas diferentes de quando eu era menor, quando era adolescente ou quando comecei minha carreira. Pratico o candomblé, que me dá muitas forças, e minha mãe é umbandista e cuida muito de mim espiritualmente. Hoje posso dizer que a fé ancestral, nos orixás, nos banhos de folhas, é o que mais me ajuda a superar qualquer obstáculo, seja ele emocional, financeiro, profissional ou familiar. É uma maneira que encontrei de me religar, de rezar para mim e para o outro. A Ave Maria é também uma oração que me acalma muito e tenho feito demais – melhora minha cabeça e abre o meu mental. Gosto muito de ficar com a minha família, de voltar para as minhas origens e viver próxima às pessoas pobres e pretas. É o que me deixa mais feliz, estar em contato com o simples, com a comida que minha mãe faz, com a casa que ela mora. Isso me faz lembrar quem eu sou, de onde vim. Tem muita ilusão no mundo, principalmente um certo deslumbre com a imagem, com a televisão, com o ser famoso. Muitas pessoas te conhecem e você não as conhece. Isso pode trazer e gerar ou ansiedade ou uma espécie de ilusão, que você é muito mais especial do que você é ou que não é. De alguma forma você se destaca, mas isso não quer dizer mais do que isso. Acho que somos especiais para os nossos e para a gente mesmo. No entanto, somos todos iguais. Essa é que é a verdade.

“A fé ancestral, nos orixás, nos banhos de folhas, é o que mais me ajuda a superar qualquer obstáculo”, revela Ana Flávia Cavalcanti (Foto: Carlo Locatelli / Divulgação)

GQ Brasil: Você está na novela de Manuela Dias. Existem poucas mulheres autoras e diretoras, o que acha disso?
Vou começar agora a novela Amor de Mãe e estou muito feliz no núcleo do José Luiz Villamarim, que é esse cara especial. Estou realizando muitos sonhos e isso é muito bom, porque me dá forças para sonhar outras coisas e seguir em frente. Em Onde Está Meu Coração fui dirigida pela Luisa Lima, que é mãe de dois filhos e  se desdobra entre maternidade, casamento, trabalho e anseios pessoais. É muito bom e prazeroso ser dirigida por uma mulher, tem sim um olhar diferenciado e especial, de empatia, que entende aquele corpo, aquela vivência. E isso ocorre nas duas mãos, tanto da minha parte com ela quanto dela comigo e outras atrizes. É sobre ser mulher e entender as necessidades que temos, às vezes as agruras que passamos. Fiquei muito feliz com essa direção! Tem um tempão que estou querendo trabalhar com a Manuela Dias, desde Justiça e todo o sucesso que a série fez. Ela é uma autora maravilhosa, tem uma maneira muito boa de escrever, perspicaz, ágil. Com ela a trama não acaba, sai de uma história e vai para a outra, englobando todos os núcleos. Acho que o povo vai amar e que será uma novela de sucesso, principalmente pelo tema “amor de mãe”, que é maravilhoso. Todo mundo tem ou teve mãe. Na novela uma mãe solo tem vários filhos e adota mais uma criança, o que mostra que ela é uma mulher muito pronta para cuidar e proteger outras pessoas, como tantas outras mulheres. A maioria dos lares brasileiros são formados com a presença feminina e ausência paterna. Temos também muitas “mães-avós”. Isso mostra muito sobre nós e como são as mulheres, principalmente as pretas, que sustentam e seguram a barra. Não tive minha mãe por perto, como muitas pessoas com a minha origem no Brasil, porque ela estava tomando conta do filho de outra pessoa e cuidava de mim o máximo possível, no amor, na comida, nos conselhos, mas não estava presente porque precisava trabalhar.. Minha mãe também é mãe solteira e este é um dilema muito forte. Nesse sentido, a novela vai abraçar muitas mulheres brasileiras. Além de tudo tem a Regina Casé, que é uma grande deusa e tem essa conexão direta com a população pobre e preta do Brasil. Ela fala diretamente com a gente e a gente escuta. Acho que vai ser um sucesso, estou muito feliz e o elenco é bem lindo. Torcendo para que tudo corra muito bem e a gente trabalhe direitinho e toque muitas pessoas. Porque é isso que nós, artistas, fazemos: dialogamos com os sentimentos das pessoas e também com os nossos próprios.

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GQ Brasil: Em quem você se inspirou para se tornar atriz?
Ana Flávia Cavancalti: Fiquei aqui pensando e não sei, acho que comigo não foi muito de inspiração, foi mais de realização mesmo. As coisas foram acontecendo, fui percebendo uma oportunidade e cavando cada vez mais. Meu corpo é muito resiliente e preparado para o jogo. Quando crescemos com pouco e recebemos um pouco a mais, isso se torna muito. Recebemos bastante uma sabedoria ancestral das nossas mães, dessas pretas velhas, dessas caboclas e ciganas, que nos ensinam através do tempo. Se eu for dizer quem mais me inspirou nessa vida, foi e ainda é minha mãe. Com muito pouco recurso, ela conseguiu construir um lar, por no mundo e criar três pessoas que hoje são adultos, trabalhar honestamente, ter discernimento e tomar boas decisões que mudaram a nossa trajetória. Sempre com uma intuição e uma sabedoria de vida, um feeling, uma conexão muito grande com a terra, as folhas e uma voz que fala internamente. Tenho muito orgulho da minha mãe e das mães das minhas amigas e amigos pretos que vivem a mesma história, a mesma luta, cuidando, estudando e trabalhando para que não falte nada. Minha mãe é minha maior fonte inspiradora para ser atriz, ceramista (porque agora estou com essa moda de fazer cerâmica) e o que mais vier – não sei ainda o que está reservado para mim no futuro.

Ana Flávia Cavalcanti: “Quando crescemos com pouco e recebemos um pouco a mais, isso se torna muito” (Foto: Carlo Locatelli / Divulgação)

GQ Brasil: Ao mesmo tempo, existem pouco espaço para profissionais negros no audiovisual. Esta é uma luta sua?
Ana Flávia Cavalcanti: É um direito, é um espaço que existe e nós negros que queremos ocupar porque temos vocação para isso. Não é a minha luta e minha vocação. Tenho vocação pra escrever, atuar, dirigir e criar performances e é isso que estou fazendo. Eu e uma galera. No nível das artes, que é mais o meu meio, as coisas mais bonitas que vi nos últimos tempos foram feitas por artistas pretos, mas isso não significa que eu não veja outras coisas.

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Fonte oficial: GQ

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