Aos 100 anos, Lawrence Ferlinghetti publica ‘Little Boy’ – GQ

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O poeta, editor, pintor e livreiro Lawrence Ferlinghetti acaba de completar 100 anos. A data foi comemorada em uma festa na sua livraria, a City Lights, no número 261 da Columbus Avenue, em São Francisco, Califórnia.

A City Lights foi fundada por Ferlinghetti e um sócio em 1953 e ficou famosa depois de um julgamento por obscenidade pela publicação de Howl (Uivo), de Allen Ginsberg, que havia feito uma leitura pública na cidade e no dia seguinte recebeu um telegrama do editor que dizia: “Eu te saúdo no começo de uma longa carreira… Quando posso ter o manuscrito?” Ferlinghetti foi inocentado e seu processo acabou abrindo espaço na luta pela liberdade de expressão nos Estados Unidos.

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Há muitas outras histórias em torno de Ferlinghetti. A mais recente diz respeito ao livrinho que ele acaba de escrever e publicar (sem previsão de tradução no Brasil), chamado Little Boy, sendo o menininho do título o próprio autor, embora ele afirme categoricamente que se trata de um romance, e não de um livro de memórias. “Memórias são para damas vitorianas”, disse em uma entrevista. Mas Little Boy é o escritor em carne, osso e memória, e ainda surpreende pela vitalidade, que contaminou o lendário agente do escritor, Sterling Lord.

Do alto dos seus 98 anos, Lord ficou entusiasmado com a obra, que ecoa a obsessão que outro contratado do agente, Jack Kerouac, tinha pela pontuação desregrada, o que se transformou numa batalha de quatro anos até a publicação. On the Road, o tal livro de pontuação esquisita, foi publicado em 1957. E o resto é história.

Little Boy (Foto: divulgação)

Little Boy é normal até a página 25, em que o escritor narra sua infância miserável, último de uma família numerosa dado para criar pela mãe, o crescimento numa mansão em Nova York, onde a tia era governanta, e depois uma esticada para um bairro mais pobre, acolhido por uma viúva. “Solidão era a palavra”, ele escreve.

Algumas páginas adiante, e a imaginação de Ferlinghetti destrambelha, a pontuação enlouquece, como se fosse empurrada pela pressa de narrar. Os fatos são expostos com humor, poesia e muita sabedoria, destilada em um século de vida. É quando o poeta aparece em plena forma. E, como se não bastasse, com uma história para contar.

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Na Segunda Guerra, como oficial da Marinha, ele participou do desembarque das tropas americanas na Normandia. Em seguida, chegou com semanas de atraso à cidade de Nagasaki, devastada por uma das duas bombas atômicas despejadas no Japão, o que faria dele um pacifista para a vida inteira. Quando chega em São Francisco em 1951, descendo do trem com um saco de marinheiro nas costas, não tinha a menor ideia do que estava por acontecer. O que aconteceu foi o início de uma nova era com a City Lights como polo catalisador do movimento beat, de escritores como Kerouac e Ginsberg.

Ferlinghetti, que não se assume como beat, sobreviveu como o último dos moicanos, autor de um improvável best-seller de poesia, Parque de Diversões da Cabeça, com mais de um milhão de exemplares vendidos. Nada mal para um garoto órfão de uma história de Charles Dickens.

Fonte oficial: GQ

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