Aos 67 anos, Cezar Mendes lança seu primeiro álbum – GQ

27

Cezar Mendes mora em Ipanema, mas está sempre com a cabeça em Itapuã. Baiano de Santo Amaro, onde foi vizinho de Caetano Veloso e Maria Bethânia, o músico diz que viveu seus melhores anos na praia de Salvador. “Morei uns 25 anos em Itapuã. Voltei para o Rio, mas a cabeça sempre ficou lá.” Como um bom baiano, Cezinha, como é conhecido, tem outra concepção de tempo e espaço. Talvez, por isso, só agora, aos 67 anos, tenha lançado seu primeiro álbum, o “Depois enfim”.

Apesar de desconhecido do grande público, Cezinha é um compositor de mão cheia e tem parcerias memoráveis com Caetano Veloso (Aquele Frevo Axé), Chico Buarque (Se for pra mentir) e Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, no segundo álbum dos Tribalistas (Carnalismo). Foi Marisa Monte, aliás, a responsável pelo disco de estreia de Cezinha. “A minha cabeça é muito doida. Não penso muito em tempo, é uma visão diferente. Tenho uma obra pequena, mas muito espalhada. Daí a Marisa deu a ideia e começamos a fazer o disco.”

+ Fernanda Montenegro canta em novo disco de compositor baiano

+ Zeca Veloso sobre primeiro show com Caetano: “eu não me sentia preparado”

+ 7 discos essenciais de Caetano Veloso, o maior gênio da música brasileira

Além de Marisa, participam do disco António Zambujo, Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto, Caetano Veloso, Carminho, Djavan, Fernanda Montenegro, Moreno e Tom Veloso. “As canções escolheram seus cantores através de mim e de Marisa”, diz Cezinha. Na última sexta-feira, Cezinha conversou com a GQ e explicou seu quase inexplicável processo de criação para o álbum. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

GQ Brasil: Como foi lançar um disco já veterano e com diversas parcerias de sucesso na carreira?
Cezar Mendes: A minha cabeça é muito doida. Não penso muito em tempo, é uma visão diferente. Me considero um amador. Mas adorei fazer. Tenho uma obra pequena, mas muito espalhada. Daí a Marisa deu a ideia e começamos a fazer o disco. A música, para mim, é uma coisa que tem que vir. Senão não acontece.

GQ Brasil: Mas você teve duas composições em trilhas de novelas recentemente, Aquele Frevo Axé, em O Caminho do Sol, e Mande um sinal e Flor do ipê, em a Força do Querer. Ou seja, parece que a fase é boa, né?
Cezar Mendes: É uma coisa de sorte. Por mim, não faço o menor esforço para que essas coisas aconteçam. Pode aparecer, pode não aparecer. Por sorte agora está aparecendo.

GQ Brasil: E como foi reunir todo o time de músicos que participam do seu disco?
Cezar Mendes: Foram 9 dias de gravação. Cada dia uma pessoa ia, passava o dia, almoçava. Foram dias prazerosos. Imagina um dia com Fernanda Montenegro? Muito maravilhoso. Algumas músicas eu já estava fazendo, outras eu quis regravar. No disco tem algumas inéditas. Com Adriana, filha de Arnaldo, por exemplo. Tem a música com o Ronaldo bastos, que eu particularmente adoro. Por uma grande parte, tenho certeza que essa reunião de pessoas tão especiais foi pela minha música. Sei que as pessoas gostam de mim. Sou legal. Mas a música tem essa força. Uma boa canção, é ela que fala mais alto. Não tenho influência nenhuma.

GQ Brasil: Você já tinha cantado com a Fernanda Montenegro?
Cezar Mendes: Conheço a Fernanda através da filha dela. Uma vez elas me convidaram para ir para um sítio perto de araras que elas têm. Conheci ela lá. E como ela cantava e eu precisava de uma pessoa para cantar, acabou acontecendo. Ela aceitou e fiquei muito feliz.

GQ Brasil: Quais outros trabalhos recentes e também que estão para ser lançados você destaca?
Cezar Mendes: Tenho feito músicas com o Tom Veloso. Tem uma canção linda minha e dele. O nome da música é [cantarola a música para lembrar]… Chama pensando no amor [e toca um trecho]: Talvez para você, eu seja mais um, pra mim você é o que ninguém foi. Eu vivo a vida com calma pensando no amor. Talvez meu olhar, que te conquistou, não tenha mais luz, nem tenha mais cor. Mas tantas memórias, histórias, canções para compor. Guarda consigo a voz da vida cantando pra nós. Talvez se essa dor, se um dia parar, o nosso lugar… – Tom está escrevendo lindamente. É um poeta. E tem só 20 e poucos anos. Falo isso para o Caetano.

GQ Brasil: Alguma outra canção para sair?
Cezar Mendes: Tem uns sambas novos também. Trabalho com o Arnaldo, que já gravou alguns sambas meus. E uma música que está aparecendo aqui que ainda preciso ver. Preciso sempre de um poeta. Nunca fiz letra na minha vida. Outro dica conversando com o Arnaldo, mostrei uma música para ele que tinha imaginado iniciar assim: “desistiu de mim e me mandou embora…” E ele logo emendou “decidiu que seria assim, mas agora chora.” Olha que homem danado. Carminha e Marisa [Monte] logo se juntaram e fizemos um samba nós quatro.

GQ Brasil: Como é isso de se considerar um amador?
Cezar Mendes: Nasci com música. Não entendo nada da parte humana, ortográfica. Vejo o que o aluno ou o poeta gosta. Se tiver uma harmonia que a pessoa gosta, pode ter 30 ou 10 posições. Sou muito orgânico nisso.

GQ Brasil: Você tem alguma rotina de criação?
Cezar Mendes: Acordo e invariavelmente vou para o violão. Por sorte eu trabalho com música, se não estava fodido [risos].

GQ Brasil: Os Tribalistas começaram uma turnê. Você vai participar?
Cezar Mendes: Vou participar só aqui no Rio [o show foi no domingo, dia 5/8]. Abri mão de turnês. É uma coisa desumana. Sou mais um compositor mesmo. Gosto de estúdio.

GQ Brasil: E para o seu disco, vai ter turnê?
Cezar Mendes: Também não. Todos têm sua agenda, aí fica difícil para caramba para conciliar.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários