Após vender réplicas de carros de luxo por 24 anos, fábrica catarinense é investigada – GQ

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“[segundo os donos] desde 1995, somos os únicos no mercado com o diferencial de realizar projetos exclusivos” (Foto: divulgação)

O recente boom de histórias policiais na Netflix tem um motivo. As pessoas adoram casos de criminosos ambíguos, aqueles que agem no limite da lei. Para quem gosta de roteiros assim, um que começa a se desenhar – e é tipicamente brasileiro – parece misturar Velozes e Furiosos e Prenda-me Se For Capaz em pleno litoral catarinense.

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No dia 15 de julho, a Polícia Civil de Santa Catarina descobriu uma fábrica de carros falsificados em Itajaí, cidade praiana a quase 100 km de distância de Florianópolis. Foram apreendidos oito veículos ainda em processo de montagem, réplicas de modelos como Ferrari F355, Porsche 993, Lamborghini Murciélago e Ford GT40 que eram vendidos sob encomenda por valores bem distantes dos originais, que vão de 1,5 a 3 milhões de reais. As réplicas custavam algo entre 180 e 250 mil reais.


Império do fake: À esquerda, um Porsche 993 original. À direita, a versão vendida pela Autosfibra. São 24 anos oferecendo customizações em fibra de vidro para clientes que querem exclusividade – sem pagar R$ 1 milhão (Foto: divulgação)

Foram as próprias fabricantes italianas que denunciaram o local à polícia. Na oficina, oito funcionários foram encontrados trabalhando com estruturas de carros, peças adulteradas e acessórios com os logotipos das marcas. As cascas das supermáquinas eram feitas em plástico reforçado com fibra de vidro, aplicadas sobre chassis de fabricação própria. Já a parte mecânica tinha origem variada, de carros velhos e desmontados. Uma das Ferrari apreendidas tinha o motor de um Chevrolet Ômega, por exemplo.

Até aí, tudo parece indicar uma fábrica clandestina padrão, certo? Burlando a norma para distribuir produtos piratas no mercado e lucrar bastante. Mas a história é um pouco mais complexa do que isso.

Chamada Autosfibra, a empresa agia sob a luz da lei há 24 anos. Criada pelo empresário Nilton Góes, fabrica carros esportivos personalizados – cerca de quatro por mês – e vende para todo o Brasil. Anuncia seus produtos pela internet e interage com fãs nas redes sociais. No Instagram e no YouTube, se apresenta da seguinte forma: “Desde 1995, somos os únicos no mercado com o diferencial de realizar projetos exclusivos”.


Império do fake: Consegue adivinhar qual o Ford GT40 original e qual o feito pela Autosfibra? A réplica (à dir.) é anunciada no Instagram por R$ 150 mil em postagem que troca o nome da Ford por “protótipo” (Foto: divulgação)

Nilton e seu filho, Alan, alegam que não são clandestinos e que tudo está legalizado. Dizem que os veículos produzidos têm documentação regularizada pelo Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) e que se tratam de protótipos e customizações, não réplicas ou versões paralelas. São famosos por isso, argumentam – de fato, Nilton chegou a aparecer em algumas reportagens locais dizendo que seu próximo sonho era construir um avião executivo.

O delegado Angelo Fragelli, responsável pela investigação, rebate dizendo que servidores públicos e outros agentes podem ter facilitado a legalização desses automóveis nos Departamento Estaduais de Trânsito (Detrans). Segundo ele, a construção artesanal de um veículo para si ou para venda não configura crime, mas fazer isso com características patenteadas por outras marcas, sim.

A acusação, portanto, é de crime contra a propriedade industrial: fabricar, sem autorização, produtos que incorporem desenho registrado ou que imitem originais – mesmo se a réplica for feita para uso pessoal. E pode sobrar até para os clientes, já que as pessoas que encomendaram os veículos devem ser investigadas. Se comprovado que sabiam que o produto era ilegal, segundo a polícia, podem ser indiciadas por receptação.

Enquanto a história não se resolve, a Autosfibra segue a todo vapor, pai e filho responderão ao processo em liberdade (se forem considerados culpados, podem pegar até três anos de prisão) e alguém dirige por aí sua Lamborghini Murciélago que parece uma Lamborghini, mas não faz barulho de Lamborghini.

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Fonte oficial: GQ

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