Arte em um mundo de preconceito – GQ

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Obra de Félix González-Torres exposta em outdoor em Nova York (Foto: Felix Gonzalez-Torres. Untitled. 1991. The Museum of Modern Art, New York. © The Felix Gonzalez-Torres Foundation, New York. Foto de David Allison)

No último domingo tivemos a parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo. O evento alcançou proporções absurdas, se tornando a maior parada do mundo, com aproximadamente 3 milhões de pessoas na rua. É bem diferente do movimento que Harvey Milk liderou em San Francisco nos anos 70, além do tamanho, se tornou uma grande festa. Mas não vejo isso de forma negativa, pelo contrário.  Que bom seria se todas as lutas politicas e sociais fossem pacíficas e festivas como a Parada.

No campo das artes, o ano que passou foi bastante obscuro nesse sentido. A exposição de arte Queer Museu, promovida por um grande banco, teve de ser fechada em função de movimentos retrógrados e extremistas. Mas me pergunto, como um país com o maior evento gay do mundo não consegue conviver com a arte dita “gay”? Preconceito, claro, é a primeira reposta, mas num segundo momento acredito no poder da arte como lanterna que mostra, expande e clareia a sociedade , seu comportamento e seus obscurantismos.

Um dos artistas cujo trabalho mais admiro é o cubano-americano Félix González-Torres. Sua arte alicerçada num minimalismo discursivo se tornou arma forte contra o preconceito. Ele perdeu o marido em decorrência da AIDS em 1990 e cinco anos mais tarde veio a falecer pela mesma doença. Sua obra fala da dor, do preconceito, da solidão, do medo. Ele parte da descrição em microcosmo do seu universo particular para descrever sentimentos que são universais. Um de seus trabalhos mais conhecidos é uma fotografia de uma cama desarrumada onde se via que haviam ali duas pessoas. A cama agora está vazia, assim como ele ao perder a pessoa que mais amava. Essa foto foi espalhada em outdoors por várias cidades dos EUA, e por mais preconceituoso que fosse o expectador, o que se via ali era uma mensagem de amor.

Poderia citar outros inúmeros artistas com discursos fortíssimos em torno da causa gay. No Brasil temos o trabalho revolucionário de Leonílson, artista nordestino que rompeu todas as barreiras sobre o preconceito no país e que também faleceu jovem, ao falar em seu trabalho sobre amor homossexual, Aids e abandono. Hoje tem seu trabalho revisto e mostrado nos maiores museus do mundo. Inclusive, será o primeiro artista contemporâneo brasileiro a ganhar um catálogo Raisonné (esse catálogo é uma coleção de livros que reúne a totalidade da obra produzida por determinado artista e só artistas de extrema importância história são temas dessa coleção).

Mas a boa notícia é que após uma ação conjunta entre artistas e intelectuais, com auxilio do financiamento coletivo, a exposição Queer Museu será remontada no Parque Lage no Rio de Janeiro. Apesar do prefeito da cidade, que governa mais a partir de preceitos religiosos do que com fundamentos objetivos, afirmar que a exposição jamais aconteceria no Rio ( ou no máximo seria jogada dentro do mar ), a força popular mostrou mais uma vez que essa visão arcaica não cabe mais na sociedade Brasileira. A remontagem da QueerMuseu será um pequeno gesto mas de grande força, retomando a delicadeza de González-Torres, que grita que o amor e o respeito são as únicas armas de alcance universal.

Fonte oficial: GQ

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