Às vésperas de lançamento de livro, Jean Wyllys diz que evita contato com brasileiros: “Se me agredirem, sei que vou reagir” – GQ

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Jean Wyllys: “Perdi a conta de quantas vezes ouvi que de 2019 eu não passaria. Que país é esse que acha natural desejar e incentivar a morte de alguém?” (Foto: Fe Pinheiro)

O último 24 de junho em Paris foi o primeiro dia de uma canicule, termo usado pelos franceses para nomear períodos anormais de calor, com temperaturas acima de 35 graus. Estava abafado, o sol a pino, parisienses e turistas disputavam pedaços de sombra nas calçadas. Jean Wyllys chegou para a entrevista vestido com uma camiseta cinza de mangas compridas e malha bem espessa. O calor excessivo e a roupa pouco apropriada pareciam anunciar: alguma coisa está fora da ordem. “Hoje me sinto mais fora de casa do que nunca porque é a primeira vez em 45 anos de vida que passo um dia de São João fora de Alagoinhas, longe de minha mãe”, contou ele. “Já acordei chorando e a primeira coisa que fiz foi colocar Jenipapo Absoluto, do Caetano [Veloso], para tocar.”

A música e a literatura brasileiras representam uma rota de fuga para momentos de saudade e são uma espécie de Brasil portátil. Exilado voluntariamente na Alemanha desde janeiro, decisão tomada após sofrer inúmeras ameaças de morte, o ex-deputado federal, principal desafeto de Jair Bolsonaro, diz que do Brasil o que lhe faz falta são as pessoas queridas e, vez ou outra, as paisagens. “Se pudesse levar meus amigos e minha família para Berlim eu viveria muito bem por lá”, afirma, confessando ter hoje afetos ambíguos em relação ao país em que nasceu, cresceu, tornou-se celebridade e elegeu-se três vezes deputado federal.

Traumatizado pela violência cotidiana com a qual vinha sendo recebido nas ruas pelos apoiadores do presidente nos últimos meses de Brasil, Jean não pode ouvir um grupo conversando em português que sai de perto. “Se eu corro de brasileiro é porque não sei se vou encontrar gente bacana, que vai dizer que sente a minha falta, ou se serei mais uma vez insultado”, explica. “Ser vítima de tantos ataques no meu próprio país abriu feridas que só o tempo vai cicatrizar.”

Jean Wyllys: “No dia em que eu voltar, chegarei sem rancor. Eu já não guardo mágoas. Estou machucado, mas sei que o tempo vai cicatrizar minhas feridas” (Foto: Fe Pinheiro)

Ele enumera as agressões mais difíceis que enfrentou: ser xingado de pedófilo por uma senhora em um aeroporto, ouvir da boca de um taxista “eu vou te matar!” e ser perseguido por um grupo de homens tarde da noite na região da Lapa, no Rio, na saída de um evento político. “Pensei que seria linchado… Uns caras estavam passando e quando me viram começaram a dizer ‘vamos lá pegar ele’. Perdi a conta de quantas vezes ouvi que de 2019 eu não passaria. Que país é esse que acha natural desejar e incentivar a morte de alguém?!”

Durante o registro das fotos desta reportagem no bairro do Marais, Jean fez questão de entrar em uma loja para comprar um boné e, assim, poder circular com mais discrição pelas ruas apinhadas de turistas. Embora tenha sido vítima de uma única tentativa de agressão desde que se instalou na Europa (em Portugal, um homem invadiu o auditório em que ele dava uma palestra e tentou atirar um ovo em sua cabeça), ainda lhe é emocionalmente impossível baixar a guarda.

“Triste ironia ter medo de brasileiros, não?”, pergunto. “Na verdade, eu tenho medo é de mim mesmo”, responde ele, depois de alguns segundos de reflexão. “Me contive em respeito ao meu cargo. Mas aqui para eu sentar a mão na cara de alguém não vai demorar dois segundos. Se me xingarem, se me ofenderem, eu vou dar tapa, vou gritar, vou chamar a polícia. Tenho medo é do que eu possa vir a fazer.”

Jean Wyllys (Foto: Fe Pinheiro)

Tão longe e tão perto, o país que o expulsou segue ocupando suas conversas e seu trabalho. Enquanto prepara o projeto de uma tese de doutorado sobre “a articulação das fake news com discursos de ódio e os impactos desses discursos nos processos eleitorais e modos de vida das minorias”, ele tem visitado diferentes nações a fim de denunciar a complicada situação política brasileira em conferências e debates. O estudo e grande parte dessas viagens são financiados por uma bolsa concedida pela Open Society Foundations, do bilionário americano George Soros.

Nas próximas semanas, ele começa a percorrer o Brasil por meio de podcasts, entrevistas e outros conteúdos gerados de longe – para divulgar seu quinto livro, O Que Será. A obra entrelaça a trajetória de “um defensor dos direitos humanos no Brasil” (assim a editora apresenta o autor) com a história do próprio país. Jean dá um exemplo: “Venci o Big Brother Brasil em 2005 surfando em uma onda de felicidade. A economia ia bem e, como consequência, as pessoas estavam mais abertas à diversidade. Naquele tempo foi possível dar a vitória para um nordestino, gay e professor”.

Entre o amor e o ódio de seus compatriotas, Jean segue otimista em relação ao futuro, simplesmente porque sua história não o autoriza a ser pessimista. “Tudo se colocava como um obstáculo para que eu existisse: a pobreza, o racismo, a homossexualidade… E veja onde estou: aqui em Paris dando entrevista.” E mesmo evitando previsões, faz uma afirmação carregada de certeza: “No dia em que eu voltar, chegarei sem rancor. Eu já não guardo mágoas. Estou machucado, mas sei que o tempo vai cicatrizar minhas feridas. Não me reconheço nessa nação que está aí, mas também não vou negar que ela existe e ganhou as eleições. O Brasil que eu amo e do qual sinto falta não é esse, mas acredito que um dia, de novo, seremos capazes de nos olharmos no espelho e escolher a nossa melhor face.”

Jean Wyllys: O que será (Companhia das Letras, 2019, 224 págs.) (Foto: reprodução instagram)

Mistura de memórias com jornalismo, em O Que Será Jean Wyllys narra suas lembranças e vai entrelaçando os acontecimentos da própria vida com fatos importantes da história do Brasil e do mundo. Aproveita o gancho de sua primeira viagem a NY, por exemplo, para contar como surgiu na cidade a primeira parada gay do planeta, em 1969. Estão no livro relatos da experiência de “sair do armário”, a iniciação sexual aos 13 anos de idade com uma mulher, revelações sobre os bastidores da participação no Big Brother Brasil, histórias em torno da chegada à vida política e, claro, reflexões sobre a decisão de deixar o país depois da eleição de Bolsonaro à presidência da república.

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Fonte oficial: GQ

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