Ativismo é valorizado no mercado de arte atual – GQ

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Quando criou a feira SP-Arte, em 2005,  Fernanda Feitosa tinha elementos suficientes para acreditar que o negócio poderia vingar no Brasil. Ela própria, como colecionadora de arte, frequentava feiras e galerias pelo mundo e acompanhava o crescente interesse pela arte brasileira entre curadores e outros colecionadores. “Já existiam indícios de que o Brasil tinha condições favoráveis para a criação de uma feira de arte. Só precisava mesmo transformar a ideia em realidade”, lembra.

 

 

Mercado da Arte: “Procuro-me”, de Lenora de Barros (Foto: divulgação)

 

 

Neste mês, a feira criada por Feitosa “chega à adolescência” com 165 galerias, entre brasileiras e internacionais – naquele 2005 de estreia, eram menos de 50 (precisamente 41 galerias). O público esperado é de mais de 30 mil pessoas. No primeiro ano foram 6 mil.

 

“Embora o mercado de arte no Brasil não tenha ficado imune à crise econômica dos últimos anos, é possível dizer que ele tem uma peculiaridade, que é a capacidade de reagir muito rapidamente às crises”, avalia Feitosa. Os números confirmam: em 2017, para 49% das galerias brasileiras, o volume de vendas aumentou. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact), mais de 6 mil obras foram comercializadas.

 

Mercado da Arte: Performance “Longe das Palavras”, de Thomas Dupal, sob curadoria de Sofia Borges na Bienal (Foto: divulgação)

 

 

Para Fernanda Feitosa, a capacidade de reação está vinculada a um processo de “sofisticação dos hábitos de consumo no país”. “Nos últimos quatro anos, é inegável que sofremos uma recessão brutal, mas, antes, houve um sonho de crescimento alimentado muito pelo governo Lula. A classe média se sofisticou, o país passou a importar vinhos, queijos, chocolates. Havia uma demanda nova. A arte encontrou seu caminho nesse processo de abertura e refinamento.”

 

Para os novos colecionadores, com menos poder aquisitivo, ela lembra, surgiram os clubes de colecionismo, mantidos por museus, como o MAM do Rio, por exemplo. Neles, é possível comprar obras de arte ainda abaixo dos R$ 10 mil. Nas feiras, como a própria SP-Arte ou a ArtRio, por outro lado, os preços vão da casa dos milhares a cifras estratosféricas. Uma pintura de Di Cavalcanti foi anunciada na feira carioca por R$ 20 milhões (não confirmaram se a tela foi vendida).

 

Mercado da Arte: “Repro (Saints): Saint Lucy”, de Vik Muniz (Foto: divulgação)

 

 

As pinturas, aliás, são as mais comercializadas pelas galerias, como aponta a pesquisa mais recente do setor. Em média, as galerias venderam 49 pinturas em 2017,  seguidas de esculturas, fotografias, desenhos, instalações e, por fim, vídeos. “Não é possível cravar que existe uma tendência de mercado firmada na pintura, ou na fotografia. Tudo isso varia muito, é um mercado peculiar porque é ligado  também à subjetividade, ao gosto de quem consome arte”, lembra Luciana Brito, galerista e presidente da Abact.

 

Ainda assim, é possível vislumbrar alguns caminhos. Se há poucas décadas, os neoconcretos, como Lygia Clark e Helio Oiticica, lançaram o Brasil no cenário internacional – e alcançaram preços milionários e mostras em museus consagrados, como o MoMA de Nova York –, nos anos 2000 a pintura da chamada Geração 80, oriunda da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, despontou no mercado. Foi nessa época, em 2012, que a pintura da carioca Beatriz Milhazes “Meu Limão”, concebida no ano 2000, foi vendida por US$ 2,1 milhões num leilão da Sotheby’s. A artista passou a ocupar o primeiro lugar no ranking de artistas brasileiros vivos com a obra mais cara vendida em leilão. Antes dela, outra devota da pintura ocupava o posto, Adriana Varejão, com “Parede com incisões à La Fontana II”, vendida por US$ 1,52 milhão em 2011.

 

Mercado da Arte por elas: Obra de Vania Mignoni na Bienal de São Paulo (Foto: divulgação)

 

 

Para os novos colecionadores, o contexto social pode ajudar nos primeiros passos. “Não existe isso de pintura estar mais ou menos valorizada, escultura estar em alta ou não”, reitera a diretora da SP-Arte. Mas existem pistas do que pode valorizar no mercado. Fernanda Feitosa lembra que, diante de um cenário social de conservadorismo crescente, a arte como forma de resistência se fortalece. “Em momentos históricos como o atual, a arte vai lidar com os temas efervescentes, porque é mesmo natural que o trabalho do artista, do escritor, do autor, reflita a sociedade. Hoje, ganha força no mercado a arte que lida com problemas de imigração, ou que trata de questões como a censura, a hostilidade, o racismo.” 

 

A produção de artistas mulheres, em torno de temáticas como o feminismo, é outro filão que parece ganhar destaque. Um exemplo é a recente mostra “Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985”, que arrebanhou uma multidão para a Pinacoteca numa cena rara em outros tempos, com longas filas se formando à sua porta.

 

Mercado da Arte por elas: “Meu Limão”, de Beatriz Milhazes (Foto: divulgação)

 

 

O Museu de Arte de São Paulo (MASP), aliás, é outro museu de prestígio a indicar que as mulheres – ainda em minoria nos acervos – devem, cada vez mais, recuperar um espaço que lhes foi tomado historicamente. O museu anunciou que dedicará o ano de 2019 a elas.   

 

“As Bienais também podem servir de termômetro para um colecionador”, diz Luciana Brito. “A participação em uma Bienal de Veneza ou na de São Paulo valoriza a obra de um artista, sem dúvida”, completa.  Na última Bienal de São Paulo, em 2018, dos sete artistas convidados para criar exposições dentro da mostra, quatro eram mulheres, como a jovem Sofia Borges ou a já renomada Vânia Mignone. A relação entre mercado e instituições, no entanto, é mais complexa e menos óbvia do que se pode supor à primeira vista. Para o curador da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Ulisses Carrilho, ela deve ser tratada de forma crítica. “Não se pode demonizar o mercado, que é benéfico, por promover a circulação dos artistas, criando um valor simbólico que se desdobra financeiramente.

 

Mercado da Arte por elas: “Quadrados”, de Lygia Pape (Foto: divulgação)

 

 

Mas não podemos deixar também de problematizar o mercado ao lembrar que as artes são um exercício de experimentação e liberdade e que, por isso, não pode estar subordinado às vontades e correntes mercadológicas”, explica. Ele lembra, por exemplo, que, se as narrativas de feminismo ou racismo despontam nas artes como reflexo da sociedade atual, as instituições independentes também podem abrir mais espaço, “convidar mais artistas negros e mulheres”. “Assim, nós também podemos mover o mercado, usando de maneira estratégica, sem ingenuidade, a relação entre as instituições e o comércio de arte.”

 

Entre as muitas variáveis do mercado, defende Luciana Brito, as galerias cumprem seu papel de manter o vigor do negócio. “É inegável o esforço das galerias para não deixar o mercado parar, buscando alternativas para a recessão, tanto nas exposições de seus artistas aqui, quanto na ida para as feiras fora do país”, diz Luciana. O esforço, completa, resulta no montante faturado em 2017, ano dos dados mais recentes do setor, quando as galerias movimentaram a cifra de US$ 153 milhões em exportações. 

Fonte oficial: GQ

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