Batemos um papo sobre jazz com Kamasi Washington antes dos seus shows no Brasil – GQ

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Kamasi Washington é preciso. Não só com o saxofone, mas também com as palavras. “Música é linguagem. É uma maneira de se conectar com outras coisas, com outras ideias”, explica o saxofonista. Maior nome do jazz da atualidade, o músico norte-americano chega ao Brasil para três shows, neste sábado (23) no Rio, dia 26 em Porto Alegre e 27 em São Paulo.

Na sua terceira visita ao país, a segunda com a sua banda completa, Kamasi traz a turnê de seu último lançamento, Heaven and Earth, um dos discos mais incensados de 2018. Desta vez, garante que será uma experiência diferente de quem já o viu em outras oportunidades. “Toda noite é uma noite, é outro show, completamente diferente do que já tocamos”, diz.

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Kamasi coleciona colaborações de peso, dentro e fora do jazz. Gigantes do gênero como Wayne Shorter, Herbie Hancock e Stanley Clarke dividem espaço no currículo do americano com outros nomes do rap e do R&B, como Lauryn Hill, Snoop Dogg e Nas. Equilibrar o jazz com outros estilos levou a uma colaboração que rendeu muitos holofotes: Kamasi Washington foi um dos nomes responsáveis pelos sopros em algumas faixas de To Pimp A Butterfly, de Kendrick Lamar, em 2015.

Com dois meses de distância, Washington lançou seu primeiro disco solo, The Epic, em maio do mesmo ano. O disco transformou Kamasi em uma espécie de rock star — jazz star? — e conseguiu agradar crítica especializada e grande público. Aí está a precisão de Kamasi: um ponto de equilíbrio que o coloca ao lado de nomes como John Coltrane e Miles Davis na história de um gênero que é compreendido como “intelectual” e distante do popular.

A popularização de Kamasi ganhou recentemente outro impulso com a assinatura recente de uma trilha sonora para um filme baseado no seu último disco, Heaven and Earth. “Produzir, arranjar, compor trilhas. Tudo está no meu mapa, o cinema é uma mídia poderosa”, reflete.

Kamasi Washington (Foto: Divulgação)

Kamasi Washington falou à GQ Brasil sobre seu trabalho, jazz e os próximos passos de sua carreira. Confira:

GQ Brasil – O jazz não costuma ser tão popular, especialmente entre jovens, que costumam preferir música pop. Você vê o seu trabalho como algo que pode ser a porta de entrada para esse universo?

Kamasi Washington – Sim. O mundo é um lugar muito grande, muito vasto. A música é algo tão grande quanto, e fala sobre muitas coisas diferentes, ideias diferentes. Espero que essas pessoas escutem a minha música e vejam nela maneiras de chegar em coisas novas, jazz ou não.

GQ Brasil – Como você vê o jazz nesse universo de troca com outros estilos? Existe uma conexão real por quem compõe?

Kamasi Washington – Sim, música é algo muito conectado. As pessoas costumam classificar as coisas nessas pequenas caixas, nessas classificações. Mas a questão é que é tudo interligado. Você tem músicos de hip-hop que gostam muito de jazz, músicos de jazz que gostam muito de rock e R&B, então é tudo muito misturado. Eu sou muito influenciado por diversos tipos de música e é importante para o jazz que ele não fique isolado de outros estilos, que ele seja integrado também a outros universos.

GQ Brasil – Quais as principais diferenças do primeiro para o segundo álbum?

Kamasi Washington – A música do Heaven and Earth usa menos harmonia tradicional. São menos blocos de acordes e mais melodias trabalhadas. É uma combinação de melodia e ritmo. Tem um pouco mais de solos também. A instrumentação também é maior. Musicalmente, nós estávamos em outro lugar quando fizemos, estávamos executando as coisas de maneira diferente, ouvindo outras coisas. O tema do disco é outro: esse trata mais sobre diferentes maneiras de entender a realidade enquanto o primeiro, The Epic, é mais como uma história sendo contada, com diversas partes.

GQ Brasil – Muitos músicos com quem você toca são seus amigos de longa data. Que diferença faz isso no palco?

Kamasi Washington – Faz toda a diferença. Eu cresci com esses caras, eles estão na minha banda e, musicalmente falando, nós falamos a mesma língua. Nós nos conhecemos tão bem por conta de todos esses anos que nós entendemos a música da mesma maneira. Isso contribui para que seja um ambiente mais livre em que a música pode mudar de maneira saudável.

GQ Brasil – Você tem dois discos de sucesso, já gravou com Kendrick Lamar, tocou com Wayne Shorter, com Herbie Hancock… Quais são os próximos passos?

Kamasi Washington – Eu preciso me manter criativo. Acredito que o próximo passo seja tentar pensar em músicas que eu nunca pensei em fazer. Tenho tentado abrir minha mente para coisas muito diferentes, para que eu consiga fazer uma música que está além da minha imaginação. Por exemplo, se eu conseguir me forçar a tocar coisas que eu não queria tocar originalmente ou de lugares que não conheço eu vou acabar me questionando em algum momento: “o que acontece se eu tocar isso?”. Eu vou querer descobrir o que acontece se eu me forçar a essas situações, de fazer coisas que eu não quero fazer, tocar coisas que eu originalmente não gostaria.

GQ Brasil – Vivemos uma época de grande discussão sobre direitos sociais e luta contra preconceitos. Como você se vê nesse cenário e qual o seu papel dentro disso?

Kamasi Washington – O meu papel é o mesmo de outros artistas. Eu tento fazer o que eu posso para melhorar as coisas. É o papel que todos nós deveríamos ter. Eu tento fazer com que a minha música atinja o maior número de pessoas possível, para que elas não tenham que viver em um mundo cheio de ódio. Como um homem negro, eu cresci vendo preconceito por toda a minha vida, a única maneira de fazer com que isso pare é enfrentar quem é preconceituoso. Tem mais gente no mundo que quer que ele seja um lugar melhor do que pessoas querendo destruí-lo. É nessas pessoas que a gente precisa se apoiar. Música conecta as pessoas. O meu lugar nisso tudo é ser parte dessa conexão. O problema da questão racial é que ela não é apenas para negros, precisa ser encarado por todos.

GQ Brasil – O que você anda escutando?

Kamasi Washington – Eu escuto muita coisa diferente. Dentre os brasileiros, por exemplo, eu gosto muito do Hermeto Paschoal. Tenho escutado bastante algumas coisas de Wayner Shorter… Entre os mais recentes, o último disco do Anderson Paak. Eu escuto muita coisa ao mesmo tempo, fica difícil de lembrar de tudo (risos).

GQ Brasil – Se tivesse que deixar uma lista de cinco discos de jazz para o leitor da GQ, quais seriam?

Kamasi Washington – Mas só cinco? Se deixar eu posso falar sobre isso por horas (risos). Sugiro então ransition, do John Coltrane; The Gigolo, do Lee Morgan; In A Silent Way, do Miles; Charlie Parker With Strings e Lady Sings The Blues, da Billie Holiday.

Ingressos:

Rio de Janeiro – 23 de Março – 21h no Circo Voador

Porto Alegre – 26 de Março – 21h no Opinião

São Paulo – 27 de Março – na Audio

Fonte oficial: GQ

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