“Brasil de Bolsonaro é pesadelo escatológico”, diz diretor do filme de terror “Morto não Fala” – GQ

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O diretor Dennison Ramalho, do terror “Morto não Fala” (Foto: Divulgação)

O diretor e roteirista Dennison Ramalho estreia nesta quinta-feira (10/10) nos cinemas o seu primeiro longa, Morto não Fala. Com Daniel de Oliveira, Fabíula Nascimento, Bianca Comparato e Marco Ricca no elenco, o filme se enquadra no que ele chama de “terror social”. A história é a de um assistente de legista do IML da periferia de SP (Daniel de Oliveira) que tem o dom de falar com os mortos. Quando trai a lei de silêncio que tem com estes mortos com quem conversa no trabalho, o custo é gravíssimo para ele e sua família. “O meu filme comenta sobre racismo, sexismo, violência policial e o problema do tráfico de drogas na periferia”, conta Dennison em entrevista exclusiva à GQ.

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Cena do filme Morto não Fala, de Dennison Ramalho (Foto: Divulgação)

Morto não Fala ganhou cinco prêmios em festivais, três deles fora do Brasil – do júri no Fantasia Film Festival, no Canadá, melhores efeitos especiais no Festival Nocturna, na Espanha, e outro no México, no Festival Mórbido. O longa estará disponível em streaming em sete países de língua inglesa, além de Alemanha e Áustria. Nas salas de cinema, já estreou antes do Brasil no México e na Rússia.


Cena do filme Morto não Fala, de Dennison Ramalho (Foto: Divulgação)

Refletir em um roteiro de terror as mazelas da sociedade contemporânea sempre fez parte da produção do diretor, que quando fazia mestrado na Columbia University, em Nova York, realizou o curta J for Jesus, episódio da série norte-americana The ABC for Deaths 2.  “É uma história de terror sobre o projeto da cura gay do Marco Feliciano. Esse projeto de um pastor evangélico me ultrajou tanto na época – a regulamentação do código de psicologia para incluir a homoafetividade como doença – que resolvi abordar o tema. No filme, um pastor midiático envolvido com política descobre que o filho é gay e tem um amante. Ele pega dois pastores barra-pesada e sequestra o filho para fazer um exorcismo da homossexualidade. A coisa acaba descambando para a tortura e, durante o exorcismo, acontecem coisas sobrenaturais”, narra Dennison.


Cena do filme Morto não Fala, de Dennison Ramalho (Foto: Divulgação)

Para Dennison, o Brasil de hoje daria um bom filme de terror: “Tá difícil competir; o Brasil do Bolsonaro é um pesadelo escatológico. Além de todos os horrores que estamos vivendo – o genocídio das populações indígena e negra nas periferias -, a gente está lidando com fantasmas da censura e fake news. Esse terror de distinguir a verdade da boataria atormenta a consciência do cidadão brasileiro. Estamos vivendo uma época de muitas injustiças porque a mentira se prolifera e isso gera um estado de loucura coletivo na gente. Você não sabe se o que está vendo é verdade ou não. Vivemos um filme de terror psicológico no qual as pessoas cometem atos de sadismo ideológico”.


Cena do filme Morto não Fala, de Dennison Ramalho (Foto: Divulgação)

Quando começou no cinema, há 13 anos, Dennison se sentia sozinho na produção nacional do gênero, “eu era uma anomalia, antes éramos eu e o Zé do Caixão”. Mas nos últimos cinco anos, a produção de filmes de terror no país cresceu muito, o que ele credita à democratização dos meios, com a captação de vídeo ganhando qualidade de projeção. Na nova leva de terror brasileira, ele cita a diretora Gabriela Amaral Almeida, de A Sombra do Pai e O Animal Cordial, ambos produzidos pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, de Me Chame pelo seu Nome e Ad Astra. Ainda na lista dos novos nomes, a dobradinha de Juliana Rojas e Marco Dutra em As Boas Maneiras, com Marjorie Estiano, e o longa Quando eu era Vivo, de Dutra, com Sandy e Antonio Fagundes no elenco, além do diretor Rodrigo Aragão, que já realizou cinco filmes do gênero. “Ainda temos feito bilheterias discretas, mas tem muita gente fazendo terror”, comemora.


Cena do filme Morto não Fala, de Dennison Ramalho (Foto: Divulgação)

Enquanto Morto não Fala ganha as telonas, Dennison se dedica a inúmeros projetos, incluindo dois longas que ainda estão em busca de um produtor: Crus das Almas, com roteiro original dele, “uma história de feitiçaria e obsessão sexual” e a adaptação de uma história em quadrinhos brasileira – “eu só posso adiantar que é um quadrinista do nordeste” – também de terror, claro. Ele ainda é coroteirista das séries Carcereiros – com Marçal Aquino e Fernando Bonassi – e Supermax, com Cléo Pires e Mariana Ximenes, ambas da Rede Globo.


Cena do filme Morto não Fala, de Dennison Ramalho (Foto: Divulgação)

Assista ao trailer de Morto não Fala.

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Fonte oficial: GQ

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