Brasileiro na NASA aborda novo momento da exploração espacial: “Todo mundo quer ir pra Marte” – GQ

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Não é porque você se senta com alguém munido de uma carteirinha da NASA que o papo vai estar sempre nas estrelas. O mineiro Ivair Gontijo, cientista brasileiro que trabalha no laboratório da NASA na Califórnia e esteve envolvido np lançamento da sonda Curiosity, dividiu uma ‘admiração’ bem terráquea sobre os EUA em conversa com repórteres na Campus Party. “Moro do lado da freeway em Los Angeles, com seis pistas pra ir e pra voltar, e está sempre engarrafado!”, brinca. Mas não é só isso que Ivair destaca sobre os norte-americanos. Em entrevista recente, o cientista também cravou: “Parece que tem uma maldição que só os americanos conseguem pousar em Marte”.

Em papo com a GQ Brasil, Ivair resgatou o raciocínio e aposta, pelo contrário, que este monopólio esteja com os dias contados. E nota que a freeway espacial também estará bem disputada no futuro. “Existem várias missões sendo projetadas para Marte, a União Europeia, por exemplo, tem a Mars Express, que também vai para Marte em 2020, e com certeza esperamos que dê certo”, relata. O ano que vem, garante Ivair, será uma oportunidade única para ver a força de programas espaciais lançados fora de solo americano. “Tem essas janelas de lançamento, elas acontecem uma vez a cada 26 meses, então julho, agosto de 2020, todo mundo quer ir pra Marte”, ri.

Não que seja uma viagem livre de problemas, claro, em especial na hora daquele pouso tão dominado pelos gringos. “Marte é a pior situação possível, porque o planeta tem uma atmosfera que não ajuda, só atrapalha”, explica o cientista. A pressão atmosférica na superfície de Marte é menos de 1% da Terra – ou o equivalente à pressão de nossa atmosfera 30 km acima do nível do mar. “O paraquedas por exemplo não funciona direito, ele opera por muito pouco tempo, só funciona em velocidades supersônicas e na hora que diminui a velocidade, ele murcha”, explica.

Ivair Gontijo, em palestra na Campus Party (Foto: Divulgação)

Ivair trabalha há 13 anos no Jet Propulsion Lab (JPL) da NASA, e se especializa em missões espaciais robóticas – aquelas que mandam sondas ou satélites ao invés de astronautas de carne e osso. Ivair encara uma rotina de acordar 5 da manhã, enfrentar trânsito, trabalhar 12 horas e responder centenas de e-mails, tudo para ajudar na missão Mars 2020, que enviará um novo veículo ao planeta vermelho. É “trazer Marte pra Terra”, nas palavras de Ivair. “A ideia é ir para Marte com a melhor tecnologia que podemos ter no momento, procurar material orgânico nas rochas sedimentares em Gezero, que é essa cratera em que a gente vai descer, e quando acharmos vamos colocar em tubinhos selados, que vão ser deixados na superfície. Se tudo isso der certo, uma futura missão vai trazer isso de volta para a Terra para pesquisarmos esse material”, explica.

O pouso está programado para acontecer em 18 de fevereiro de 2021, e, uma vez lá, o jipezinho terá Marte como lar por pelo menos 687 dias (ou um ano marciano completo). Com o ‘fim’ da missão Opportunity declarada nesta quarta-feira (14), o planeta vermelho será um destino um pouco mais solitário para a sonda.

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Hoje, a responsabilidade de Ivair é com a câmera SuperCam – “aquele instrumento que vai no mastro do veículo, que parece sua cabeça”, diz Ivair. E em seu desenvolvimento, não há espaço para uma única nacionalidade. “[O instrumento] é feito por um grupo da França, um grupo de Los Álamos, no Novo México, e desta vez vai ter gente da Universidade de Valhadolide na Espanha, responsável por organizar as amostras de minerais terrestres que levaremos para recalibrar o instrumento em Marte”, diz o cientista.

Frente a frente com um cientista como Ivair, claro que perguntamos sobre o famoso ‘travesseiro da NASA’. “Na verdade, eu nunca ouvi falar desse travesseiro sendo feito lá”, ri o mineiro. “Com certeza não é lá da JPL”.

Fonte oficial: GQ

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