Brett Kincaid em: os bastidores do Fyre Festival – GQ

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Brett Kincaid (Foto: Franco Amendola)

O fracasso do Fyre Festival aconteceu em 2017, mas ainda é assunto em todas as redes sociais. Criado por Billy McFarland (com um empurrãozinho do artista Ja Rule), o festival de música na ilha paradisíaca de Great Exuma, nas Bahamas, prometia famosas, gastronomia de primeira, alojamentos de luxo e muita música boa. Mas a realidade foi um pouco (muito) diferente.

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Brett Kincaid, diretor criativo da MATTE Projects, agência contratada para a criação do vídeo publicitário do Fyre Festival, viveu na pele a fraude criada por McFarland. “Eu senti que tinha algo estranho sobre a situação porque as ambições eram muito altas e vinham de uma pessoa com zero experiência na área de eventos”, confessou o diretor criativo da Matte Projects, agência contratada para fazer o doc.

Um documentário e um comercial foram gravados simultaneamente pela equipe de Kincaid. Modelos renomadas como Alessandra Ambrosio, Bella Hadid e Emily Ratajkowski estamparam o vídeo publicitário do Fyre Festival e receberam, mais ou menos 500 mil dólares por diária. Já a equipe ralando por trás: “Nós não recebemos o pagamento por nada. Ficamos presos com contas e mais contas.” Arrependimentos? Alguns, mas a cabeça continuou erguida. “Era um risco desde o início. Decidimos contar o nosso lado da história com total honestidade e esperar pelo melhor”, confessou Brett Kincaid.

Descubra o que aconteceu nos bastidores do Fyre Festival abaixo:

GQ Brasil: Minha primeira pergunta é: em algum momento você acreditou que o Fyre Festival seria um sucesso?

Brett Kincaid: Inicialmente, sim. Eu não sabia se ia acontecer no nível que eles (os criadores) sonhavam, mas a expectativa era que não falhasse. Acho que eles pensaram haver uma chance e tinha muito dinheiro por trás de tudo.

GQ Brasil: Como você conheceu o Billy?

Brett Kincaid: Nos conhecemos através de pessoas em comum. Ele entrou contato como qualquer outro cliente da MATTE. Inicialmente, Billy já tinha uma equipe, então não iríamos trabalhar diretamente com ele. Não me leve à mal, mas eu senti que tinha algo estranho sobre a situação porque as ambições eram muito altas e vinham de uma pessoa com zero experiência na área de eventos. O comercial parecia um pouco cafona, mas nós já tínhamos criado projetos com estética parecida. Não é algo que gostamos de fazer. Geralmente, nossos projetos tem um conceito por trás. Mas okay, aceitamos porque tinham grandes nomes por trás, fotógrafos conhecidos, companhia de relações públicas, famosos, etc. Eles nos deram todos os recursos para fazer um belo trabalho, fomos lá e entregamos.

GQ Brasil: Então vocês foram contratados apenas para fazer o comercial?

Brett Kincaid: Nós fomos contratados para fazer o comercial (vídeo que viralizou na internet) e, ao mesmo tempo, fizemos o documentário. Mas a visão deles sobre o doc não era o que realmente aconteceu porque ninguém fazia a mínima ideia do que estava por vir. Filmamos tudo simultaneamente. Uma equipe fazia o comercial e outra o documentário. Tudo aconteceu no mesmo, na mesma hora e sem planejamento algum.  E nós não recebemos o pagamento por nada. Ficamos presos com contas e mais contas.

https://www.youtube.com/watch?v=mz5kY3RsmKo

GQ Brasil: E ele era o cara por trás de tudo?

Brett Kincaid: Bom, ele não estava pensando em produção, transporte e coisas do tipo. Ele pensava apenas em vender.

GQ Brasil: E o Ja Rule? Ele parece ser um cara que quer estar na frente da câmera em todos os momentos…

Brett Kincaid: Acho que esse é o motivo de ele ser famoso, né?(risos). Ele é um cara com muita energia, é hype, é o cara para estar em cima de um palco.

Fyre Festival (Foto: Getty Images)

GQ Brasil: Por que eles pediam para gravar tudo?

Brett Kincaid: Eles gostavam de aparecer. Eles não faziam ideia do que ia acontecer. Se você soubesse que seria uma tragédia, ia querer gravar tudo? Nós filmamos por, mais ou menos, 5 semanas.Acho que eles queriam gravar tudo pra mostrar superação no final. Mas não foi isso que aconteceu, né…

GQ Brasil: Há conversas que vocês ouviram e que não puderam colocar no documentário?

Brett Kincaid: Olha, nós gravamos muito, mas tudo foi publicado. A maioria das gravações.

GQ Brasil: No primeiro vídeo de divulgação, modelos como Bella Hadid, Emily Ratajkowski e outras da Victoria’s Secret aparecem. Vocês tiveram que convencê-las de alguma maneira?

Brett Kincaid: Não. Na verdade não fomos nós que fizemos os convites ou pagamos as modelos. Eles (os criadores) usaram a narrativa de: “Temos muita grana. Vocês topam?”. Algumas garotas receberam, mais ou menos, 500 mil dólares por 1 dia de gravação daquele vídeo.

GQ Brasil: Você foi para as Bahamas?

Brett Kincaid: Sim e, no geral, aquele vídeo promocional custou 5 milhões de dólares. Não tinha nada na ilha. E nem precisava. Tinha água azul cristalina, roupas de banho. O pensamento era: “Okay, vamos fingir que geral está de férias e filmamos eles felizes pulando do barco. Eu realmente acho que quem assistiu ficou confuso. Do tipo: “O que eles estão vendendo?”. Mas a ilha era vazia. Tinha apenas um restaurante.

Brett Kincaid (abaixo à direita) dando depoimento para o documentário Fyre Festival, da Netflix (Foto: divulgação)

GQ Brasil: Houve um momento de impacto em que você parou e pensou: “Onde eu me meti”?

Brett Kincaid: Era um risco desde o início. Dar continuidade ao projeto era um risco, filmar era um risco. Mas nós sentimos a obrigação de fazer porque se jogássemos tudo pro ar e fingirmos que nada aconteceu, seria pior. Estaríamos dando brecha para críticas. Então, decidimos contar o nosso lado da história com total honestidade e esperar pelo melhor.

GQ Brasil: Eu li que o Billy cobrou para dar entrevista ao documentário. Isso procede?

Brett Kincaid: Ele foi pago pelo Hulu, não pela Netflix. Mas não sei exatamente o valor.

GQ Brasil: E como foi o contato com a Netflix?

Brett Kincaid: A gente fez o documentário com esperanças de vendê-lo, mas sem muitas certezas.A maioria das distribuidoras de conteúdo seguem três linhas: criar do zero, acham um conceito e criam a partir disso ou compram algo basicamente pronto. No caso do Fyre Festival, nós fizemos tudo. Eles distribuíram e ajudaram no processo de marketing.

https://www.youtube.com/watch?v=uZ0KNVU2fV0

GQ Brasil: O Fyre Festival afetou a MATTE (positivamente ou negativamente) de alguma forma?

Brett Kincaid: Eles não nos pagaram. Isso já foi há quase dois anos. Foi difícil para a agência, claro, porque o projeto estava indo ladeira abaixo e nós não conseguimos pagar todos os envolvidos.O Fyre não era o único projeto que estávamos trabalhando na época, mas foi difícil pois tivemos que enxugar o caixa. O documentário em si não nos trouxe clientes mas, com certeza, mostrou ao mundo que nós podemos fazer um trabalho desse tamanho.

GQ Brasil: Existe algum lado positivo em tudo isso?

Brett Kincaid: Sim, claro! Algumas pessoas ficaram impressionadas que nós conseguimos fazer um documentário sobre, mas foi uma experiência surreal. É um aprendizado. 

GQ Brasil: Ja Rule quer tentar criar um novo festival. Se ele te chamasse pra fazer um documentário sobre, você aceitaria?

Brett Kincaid: Definitivamente, não!

GQ Brasil: Pra finalizar: no que a MATTE está apostando para o futuro?

Brett Kincaid: Acho que tentar entrar no ramo de ficção e de documentário, mas acho que continuar a puxar para o lado da música também seria interessante. Acho que transformar os comerciais de marcas em mini documentários e usar a ficção seria legal.

Foto de divulgação do documentário Fyre Festival, da Netflix (Foto: reprodução)

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Fonte oficial: GQ

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