Caetano Veloso apresenta Majur: “Ouvi-la e vê-la é, hoje, um luxo para os brasileiros” – GQ

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Um canto e um instante: “É uma menina de 23 anos pertencente à geração que trata desses assuntos de fluidez de gênero com naturalidade”, diz Caetano Veloso (Foto: Vavá Ribeiro)

Majur surgiu pela porta da sala de jantar da minha casa em Salvador. Ele veio trazido por Maria Gadú e Lua Leça. Digo “ele” porque, ao ver aquela pessoa de 1 metro e 93, com pernas enormes, sentar-se à mesa, pensei: “Nunca tinha encontrado esse cara alto que chegou com Lua e Gadú. Ninguém me apresentou. Ele fica muito bonito assim com esse cabelo de mulher e essa roupa que poderia ser de mulher, além da gesticulação bem definida no que é visto como feminino hoje em dia”.

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Alguns longos minutos depois, ele tinha se aproximado da cadeira que ficava perto da minha e dito: “Nem imaginava que estava vindo a sua casa. Meu nome é Majur”. E conversamos sobre nossas amigas não terem avisado a nós dois sobre o encontro que estava se dando. Demoro muito para comer um prato. Quando repito, então, a mesa fica vazia antes que eu chegue à metade do segundo. Quando finalmente saí da mesa, fomos todos para a sala onde tem sofás e poltronas. Ali ouvi mais Majur. Observei sua beleza peculiar e o casal Gadú-Lua riu conosco do susto duplo que elas nos prepararam.

Dentro de algum tempo Majur estava cantando. A primeira vez que eu a ouvi em música foi “a palo seco”, “a capella”:  sem violão ou pandeiro, piano ou xique-xique. Aqui já penso “ela”, escrevo que “a ouvi”. Desde esse instante fiquei sabendo que era indiferente chamá-la de “ela” ou “ele”: diz-se “não binário”. É uma menina de 23 anos, pertence à geração que trata desses assuntos de fluidez de gênero com naturalidade. Mas a voz! A voz!

Majur sem microfone é muito mais Majur. Sem instrumentos e sem microfone, é muito mais do que um canto. Aqui a gente enfim percebe a estética do volume e do timbre. Depois disso, todos os que estavam naquela sala se enamoraram da personalidade artística de Majur. Mas não paramos por aí. Ela tinha sua história na cidade. Nascera e começara a crescer no Uruguai, não o país que fica ao sul do Rio Grande do Sul e ao leste da Argentina, mas o bairro da Cidade Baixa onde se ergueu o que veio a se chamar de Alagados, conjunto precário e amplo de palafitas que entrou em verso de música dos Paralamas.

Ele – ela – era também um ponto profundo da estrutura da cidade. Menino negro e bonito, que encontrara, juntamente com sua irmã,  amparo, compreensão e exemplo na mãe, assistente e educadora social. Esta os levava para ver o que se passava com os menores carentes de quem ela devia cuidar. A irmã de Majur, irmã única e mulher cis, hoje mãe de um bebê, foi sempre uma protetora intuitiva do moleque talentoso e fora do comum.

Majur não é só uma voz potente. Muito menos apenas uma pessoa exuberante, de pele muito lisa e quadríceps deslumbrantes, que não se define pelo sexo biológico em que nasceu. Ele não é um gesto de afirmação política de um grupo ou de uma tendência. Ela é uma expressão artística saída da zona nuclear da sociedade baiana, de sua história e de seus espontâneos projetos rebeldes. Com sua boca enorme, passa pelos roucos aveludados e pelos ásperos, pelos falsetes delicados e pelos agudíssimos gritos que saem como que de grandes cavernas. Atenta ao carnaval, conhecedora do rap e das ondas de trap e reggaeton, Majur tem ouvido para o desenrolar do rhythm & blues e compõe e canta dentro do gosto pop da história dessa corrente. É o pop captado diretamente pela sensibilidade popular, constantemente refeito por essa sensibilidade que lhe deu nome.

Ouvir e ver Majur é, hoje, um luxo para os brasileiros. Que o Brasil acerte a fazer vozes como a sua ecoarem no mundo. Que sua elegância ensine os modos refinados ao mundo meio desengonçado que temos hoje em dia. E que o brilho de sua pele o ilumine.

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Fonte oficial: GQ

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