Candidatos, comportamentos e eleitores: na realidade, três blocos – GQ | Esplanada

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Uma das grandes dificuldades no século 21 é conseguir se manter atualizado em relação às tendências, mudanças e anseios. A expectativa da sociedade por ações, respostas e posicionamentos para com novos fatos é tão grande que a chance de um tomador de decisão se posicionar de forma atabalhoada é altíssima.

Durante uma campanha eleitoral isso é ainda mais acelerado. A velocidade na disseminação dos fatos, aliada à demanda instantânea da sociedade por um posicionamento, faz com que alguns candidatos se reinventem a cada semana, jogando conforme a reação do eleitor. Ganha o melhor espelho, não necessariamente o melhor arquiteto de propostas.

Nesta eleição temos três blocos de candidatos: Lula e seu alterego Haddad ocupam o primeiro bloco. São donos de uma mensagem. Não importa o que digam ou façam, uma grande quantidade de seus votos está sendo entregue por eleitores que transferiram seus poderes de tomada de decisão à Lula. Ele se tornou o dono do processo decisório de milhões de eleitores.

No segundo bloco temos alguns camaleões que se adequam aos anseios do eleitor em tempo real. O clássico populismo do século XX ganha uma versão turbinada, onde não só o anseio emocional do eleitor é cuidado, mas emula-se o comportamento do próprio eleitor. Ciro e Bolsonaro estão nessa categoria, com Bolsonaro executando essa estratégia com maestria. Se Lula é o “painho” de milhões de eleitores, Bolsonaro é a personificação de outros milhões. Bolsonaro vem triunfando, pois quebrou uma barreira que se mostrava intransponível, que separava o mero cidadão da poderosa condição de candidato à Presidência. Bolsonaro prevalece sobre Ciro (ao menos no primeiro turno), pois Ciro já foi tudo, desde “establishment” político tradicional, até “painho” e, agora, “novidade”.

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Um dos grandes trunfos de Bolsonaro é a sua característica de “candidato-eleitor”. Assim, consegue entre seus seguidores apagar seu passado de político de Brasília, por meio da repulsa contra o ecossistema que ele habitou por 30 anos. Como conseguiu? As suas demonstrações de revolta, similares às de milhões de eleitores indignados com a corrupção e a violência, fundiram-se com o passado militar, trazendo, assim, uma velha novidade. Isso apagou, ao menos entre seus eleitores mais ferrenhos, registros do passado onde era mais do mesmo. Pior, parece ter apagado a lembrança do que significou os tempos de ditadura no Brasil. Acabou que essa composição se mostrou solidamente antagônica ao posicionamento de Lula e seu partido.

No terceiro grupo, Marina e Alckmin representam a política analógica, as velha novelas e formalidades do monólogo político. Marina Silva seguiu com uma narrativa coerente com seus valores e posturas históricas e, por isso, vem sendo penalizada nas pesquisas. Ela, de forma inconsciente, adotou a postura de se tornar a melhor segunda opção dos eleitores.
Alckmin, por sua vez, buscou adequar 2006 a 2018, como alguém que se encontra na fronteira entre a Idade Média e a Renascença sem perceber que um já virou o outro. Em 2006, o eleitor era o consumidor da campanha, já em 2018 ele se tornou sócio majoritário dos candidatos. Deve-se acrescentar que as campanhas da nossa era atual não são mais duelos elegantes entre rivais do século 18. Alckmin ainda contava os passos com arma em punho quando vários tiros já acertavam suas costas, inclusive de seu próprio partido. Não adiantava reclamar, pois a plateia não queria mais formalidade, queria exatamente isso.
Muitos, embora não todos do Brasil de 2018, não estão em busca de argumentos ou justiça. Estão em busca de gritos de guerra e de vingança, seja de um lado ou de outro. O que decidirá as eleições é a forma como o indeciso irá se posicionar no segundo turno, exatamente aquele que não se identifica com um ou com outro.

Ao que tudo indica, no momento, caminhamos para um segundo turno onde Lula, por meio de Haddad, apostará na dependência emocional de seu seguidor contra a interatividade da relação entre Bolsonaro e seu eleitor, que nele vê uma extensão de si mesmo. No entanto, isso não definirá o resultado final, mas, sim, como milhões de eleitores que não se encontram de um lado ou de outro tomarão suas decisões.

*Thiago é sociólogo, pesquisador do Foreign Policy Center de Londres, do Instituto de Relações Internacionais de Paris e sócio da Arko Advice. Escreve semanalmente sobre política e bastidores de Brasília.

Fonte oficial: GQ

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