Capa da GQ Brasil, IZA manda recado empoderado: “comparações entre mulheres na música são machistas e desnecessárias” – GQ

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Top of the pop: IZA veste Dolce & Gabbana em todas as fotos (Foto: Henrique Gendre)

Cinco anos que parecem décadas; uma carreira construída single a single sem a notoriedade inicial de um álbum; participações em programas de TV, dublagem na live action de O Rei Leão como a leoa Nala (no original, a felina ganhou o timbre aveludado de Beyoncé): fatos que contribuem para a consolidação de IZA como um household name – aquelas personalidades reconhecidas e amadas pela família inteira – e a fizeram angariar uma legião de fãs que a associam a exemplos de carisma, humildade e simpatia. “Sempre achei que tudo era possível. Mas nunca imaginaria estar cantando agora e ainda ser técnica do The Voice Brasil. Gosto de viver no presente, um dia de cada vez. Por isso, estou tentando digerir algumas realizações – e sobre as quais a minha ficha ainda não caiu – porque tem acontecido tudo ao mesmo tempo para mim. Talvez o meu próximo desejo seja o de tirar férias [risos]”, comenta sobre seus passos e continua: “A televisão me deixa muito feliz porque me mostra novas formas de ver o meu trabalho [ela apresentou o Música Boa Ao Vivo, no Multishow, e o Só Toca Top, na Rede Globo]. Com certeza vai ser um prazer continuar me descobrindo na tela. Quem sabe atuar ou coisas assim”, arrisca a futura cantora-atriz.


Top of the pop: “Sou uma menina negra de Olaria que canta o que sente” (Foto: Henrique Gendre)

Esta é a rápida e consistente trajetória de uma artista que se tornou uma imagem e uma voz onipresentes entre os brasileiros – seu álbum dèbut, Dona de Mim, saiu só em 2018 – quando ela já figurava entre as novas estrelas daqui. Os substantivos que associamos a ela são partes de um cuidado que teve ao se expor sem se deixar explorar. “Todo mundo está sempre olhando para a gente, querendo saber o que você faz, para onde vai. A partir do momento que permite isso, precisa realmente dar satisfação porque convida a todos para entrar na sua vida. Depois que virei uma pessoa pública, tenho deixado de ir em alguns lugares e de fazer determinadas coisas. Não porque seja impossível, mas nem sempre é simples”, explica ao falar de privacidade e da forma como mantém seu casamento com o produtor Sérgio Santos (também seu parceiro musical), ocorrido em dezembro passado, com uma atmosfera de mistério. “A gente se esforça [para que este amor aconteça fora das redes]. Isso é um pedacinho especial só nosso”, diz sobre o marido, que considera como um talismã – em referência a “Meu Talismã”, que a dupla compôs junta.

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Seguida por um turbilhão de admiradores, mais de 9 milhões no Instagram, 3,6 milhões de ouvintes mensais no Spotify e cerca de 2,3 milhões de inscritos em seu canal no YouTube, esta carioca com voz de diva e beleza irretocável, despretensiosamente, se mostrou primeiro na plataforma de vídeos – em um deles fez um mashup de “Flawless”, imortalizada por Beyoncé (ela de novo!), e “Rude Boy”, do repertório de Rihanna. Unindo rainhas, conquistou os ouvidos de experts e dos mais afoitos por pistas com seu inglês perfeito aprendido de forma autodidata (fazendo audição de discos acompanhada dos encartes com as letras).


Top of the pop: “Nunca imaginaria estar cantando agora e ainda ser técnica do The Voice Brasil. Estou tentando digerir algumas realizações – e sobre as quais a minha ficha ainda não caiu”, reconhece IZA (Foto: Henrique Gendre)

Sua voz inconfundível é daqueles timbres-herança que remetem à própria história do R&B. Quando ela canta, dialoga com os que vieram antes, como a Queen of Soul Aretha Franklin que interpretou “Chain of Fools”, recém-regravada por IZA e Alcione e que se transformou em um dueto histórico na última edição do Rock In Rio. “A Aretha é a maior referência de voz negra para muitas gerações, então é uma grande honra pra mim. Estou realizando o sonho de cantar uma música de uma diva (americana) com a nossa diva”, conta ela com a sabedoria de quem mistura sonoridades – reggae, R&B e pop tocam juntos – e flerta com o passado e com tantos nomes que abriram caminhos musicais (lá nos tempos do vinil). O que não significa, em hipótese alguma, que IZA não seja original, autoral, passional – mas sim que se coloca dentro de uma sabedoria de mercado com composições que pouco se vê entre os novos artistas em seus aprendizados. Não estamos fazemos comparações entre cantoras contemporâneas e nem mesmo jogando lenha na fogueira do pop que alimenta rivalidades não só no Brasil – algo tão intrínseco dessa indústria que acreditamos nessas brigas, muitas delas sobrevivendo no terreno das fake news como se fossem verdades mantidas fora dos estúdios. IZA já foi comparada à Anitta e Ludmilla, e do trio se espera alguma luta real por um trono do ritmo que for. O que provavelmente não vai acontecer tão cedo. A compositora é categórica: “As comparações entre mulheres na música são machistas e desnecessárias e feitas por pessoas que acham que elas são comparáveis. Nós somos todas diferentes, especiais e incríveis. Isso é fruto de um mercado que é machista mesmo, mas acredito que as coisas estão mudando”, solta, esperançosa, ela que ganhou um cover para chamar de seu: B.M, J.Seph, Somin e Jiwoo, do quarteto de K-Pop Kard, fizeram uma versão de “Pesadão” (dela com Marcelo Falcão) e a apresentaram no Vivo Rio recentemente. “Arrasaram. Foi muito legal ver um grupo de fora cantar em português tão bem. Eles ensaiaram bastante e tiveram o trabalho de fazer algo tão bonito”, elogia.


Top of the pop: “Quando era criança, não me via nos filmes que assistia, nas novelas que acompanhava. Não tinha muitas artistas como referência – exceto a Taís Araújo, a Isabel Fillardis e a Aisha Jambo”, diz IZA (Foto: Henrique Gendre)

Com um sorriso de quem faz escolhas assertivas, IZA é mesmo uma boa “Brisa” (nome de um de seus hits mais recentes, uma levada caribenha) que se ouve e um novo vento que sopra. “No pop, você é encarada como um produto. Para que não haja algum mal-entendido, precisa dizer quem você é”, dá pistas sobre o caminho que resolveu trilhar e sua busca por identidade – aos 29 anos, ela amadurece ao vivo (e sem ensaios).  “Sou uma menina negra de Olaria [Zona Norte do Rio de Janeiro], formada em publicidade, que procura cantar aquilo que sente. O mais importante que aprendi: o público consegue se comunicar com quem é de verdade. Isso já é meio caminho andado. Seja lá qual for a definição, estou procurando ser eu mesma”, admite.

Ouvi-la em seu primeiro disco é como tê-la naquela playlist essencial em que também estão parte do olimpo de deuses que já eram trilha da nossa vida – e com muitos destes ela já fez dueto. “Pois é, gravei com Caetano [à época o tropicalista admitiu: “Termos ‘Divino Maravilhoso’ cantado por ela é uma espécie de revelação da atualidade de expressão poética da canção”], com Milton Nascimento (“Toda Forma de Amar”). Tive oportunidade de cantar com o Gilberto Gil (“A Novidade”) e com o Djavan (“Um Amor Puro”). São sempre encontros muito especiais com artistas que foram apresentados para mim pelos meus pais. São nomes que sempre admirei e que agora admiram meu trabalho. Isso é inacreditável”, comemora.

IZA é assim, inspirada por seus ídolos e uma presença inspiradora para outras tantas, como é o caso de Luara Martins, a “Izinha” que dançou com ela no mesmo palco Sunset do RiR. “Ela é parte da minha vida, fico feliz de poder fazer parte da carreira dela – tem uma luz incrível e abrilhantou o meu show. Este é o recado que quero passar – mostrar que existem oportunidades. Olhem para nossas crianças com muito carinho – porque elas são o futuro. E também como uma mulher negra a Luara tem um papel muito importante. A presença dela foi uma mensagem que passamos e fico muito feliz de ter contado com ela para fazer parte disso”, reconhece ao discutir sobre representatividade (ou a falta dela). “Quando era criança, não me via nos brinquedos que brincava, nos filmes que assistia, nas novelas que acompanhava. Não tinha muitas artistas como referência – exceto a Taís Araújo, a Isabel Fillardis e a Aisha Jambo. A gente precisa se ver em todos os lugares para saber que é possível estar onde a gente quer estar”, avisa.


Top of the pop (Foto: Henrique Gendre)

A vontade de estar onde quer está mesmo levando IZA para bem longe (de nós). Este shooting para a GQ Brasil – à la Diana Ross – foi feito em Nova York, onde se apresentou no Stage 48. Nos Estados Unidos, para a performance na Big Apple, foi batizada como um fenômeno pop. “Sei que os rótulos existem, mas nunca me importei com eles. Se a gente ficar se apegando a isso, esquece o que é mais importante – a música”, diz. Logo após essa gig, viajou à Flórida para o 8th Annual Pompano Beach Brazilian Festival e de lá foi a Los Angeles encontrar Ciara e Major Lazer – um feat que aponta para uma possível carreira internacional e promete um hino para o próximo verão. Além dessa incursão em terra estrangeira, também está sendo esperada para novo desafio em solo nacional – desfilar na Marques de Sapucaí pela Imperatriz Leopoldinense. “Nunca fui Rainha de Bateria e a escola faz parte da minha vida. Passava na frente da quadra quando ia à aula e ela estava ali no meu final de semana. Vou fazer uma preparação como se fosse para um show muito grande”, revela. Momentos finais e versos dela vêm à cabeça: “Deixo a minha fé guiar/Sei que um dia chego lá/Porque Deus me fez assim/Dona de mim”.

Styling Gisella Lemos | Assistente de styling Amandha Gaio | Grooming Mary Saavedra com produtos MAC (mood glam) | Produção executiva Alexey Galetskiy e Miles Montierth (agpnyc) | Assistente de fotografia Michael Morales

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Fonte oficial: GQ

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