Christopher de Hamel ressalta a importância dos manuscritos durante a 16ª Flip – GQ

6

Christopher de Hamel quer incentivar as pessoas jovens a saírem por aí em busca de novos manuscritos.“Nunca vamos descobrir todos os manuscritos. Então alguém começando agora na área certamente vai fazer uma descoberta”.

Um dos maiores especialistas em manuscritos medievais do mundo, o historiador inglês estava na 16ª Flip para lançar Manuscritos Notáveis, pela Companhia das Letras. Na última quinta (26), participou da mesa Encontros com Manuscritos Notáveis trazendo curiosidades sobre esse mundo.

Bem-humorado e diferente, talvez, da figura que se faz de um Guardião de Manuscritos, ele escolheu alguns slides para acompanhar a sua conversa com a historiadora Lilia Schwarcz. Fez chuva de ouro para ilustrar o seu uso em tantos manuscritos – sob aplausos da plateia – e contou que a obra de arte mais cara do mundo não era um quadro, mas um livro.

O Livro de Kells, ícone da cultura irlandesa, arrematado por mais de 8 bilhões de libras esterlinas e hoje guardado em seus quarenta quilos num case de vidro em algum lugar bem escondido da Trinity College, em Dublin.

Antes de viajar para Belo Horizonte, para o casamento do filho – “eu passo o dia em bibliotecas, mesmo quando estou de folga. Mas vim para o Brasil pela família” – ele conversou com a GQ na Casa da Companhia das Letras, em Paraty.

Vida Longa aos Livros

A primeira pergunta é quase inevitável. O livro – cuja morte vem sendo anunciada desde a invenção do fonógrafo – vai morrer?

“Nos últimos mil anos, aprendemos a considerar livros como objetos preciosos. Eles estão em todo lugar, como ali naquela estante. Daqui a 100 anos, talvez, quando essa casa for esvaziada, os livros serão guardados. O valor deles é diferente do de joias, por exemplo. São apenas palavras”, conta de Hamel, que nunca leu um e-book.

E manuscritos? “Não faço distinção entre livros e manuscritos. Mas manuscritos eram caros quando foram feitos, e são caros até hoje. São também colecionáveis, então acredito que as pessoas continuarão a lhes dar valor. Para mim, são adoráveis”.

Mais difícil do que conhecer o Papa

Ao longo da edição lindamente ilustrada de Encontros com Livros Notáveis, de Hamel compara os momentos que passa folheando os 12 manuscritos escolhidos – que vão do século VI ao XVI – com encontros com celebridades. Para quase todo mundo, manusear o Livro de Kells será mesmo mais difícil do que chegar perto do Papa ou de um líder de Estado com um serviço secreto bem rigoroso.

“Segurar, folhear um manuscrito como esse é como conhecer alguém muito famoso. De repente, você está ali, cara a cara com uma figura de nome mundial. Existe uma fascinação especial em segurar, ver, manusear, tocar algo de tanta importância. É divertido estar num lugar famoso, de frente ao Taj Mahal por exemplo, mas você pode interagir com um livro. É uma experiência muito mais pessoal. Se nada mais der certo, pode inclusive começar a ler, e aí ele começa realmente a falar com você”, conta.

Christopher de Hamel e  Lilia Schwarcz na Flip (Foto: Walter Craveiro)

Se você fosse um livro…

Se Christopher de Hamel fosse um livro, qual livro ele seria?

Ele riu, dizendo que nunca antes tinha pensado sobre isso antes. “Se nós dois fôssemos manuscritos, provavelmente seria bom pertencer à casa de alguma família real. Nos divertiríamos muito em um grande palácio. Deve ser melhor do que ser um manuscrito em algum lugar húmido do norte da Alemanha”, brinca.

O Guardião dos Manuscritos

Os guardiões de manuscritos – função que o próprio de Hamel exerce na Parker Library e no Corpus Christi College – são como curadores de qualquer outro lugar.

“Queremos inspirar as pessoas que estão trabalhando com manuscritos. Temos sempre estudantes visitando, levamos manuscritos a exposições, contamos sobre eles e tentamos torná-los indispensáveis para o resto do mundo”.

O grande desafio é encontrar o equilíbrio entre preservação e acesso. “Toda vez que você abre um manuscrito e o toca, ele fica mais perto de sua destruição, então esse equilíbrio é muito importante”.

Livros têm as dimensões de um animal

Talvez você já tenha se perguntado por que livros têm esse formato retangular.

Com a ajuda de uma folha de jornal, de Hamel mostrou – dobrando-a várias vezes – que não importa quantas vezes dobremos uma folha de papel, ela sempre vai apresentar as dimensões de um animal.

“Quando o papel foi inventado, no século 13, estavam tão acostumados com esse método de se fazer pergaminhos, que fizeram papel – que poderia ter qualquer outro formato – assim, com as proporções de um animal”, conta.

Manuscritos para todos

Christopher de Hamel acha que a paixão por manuscritos pode ser para todo mundo. Esta é a mensagem principal que tentou passar aqui na Flip.

“Você pode achar que manuscritos são essas coisas antigas, que interessariam à sua avó, mas na verdade são objetos fascinantes, muito reais, que existem em grande quantidade ao redor do mundo. Não são tão raros. Qualquer um pode fazer descobertas”.

Por onde começar? “Existe um mercado muito grande, que pode ser acessado pela internet. Você pode, por exemplo, comprar uma única página de uma Bíblia do século XIII por 100 dólares. Para um professor, poder mostrar uma folha como essa em aula faz muita diferença. Ou, se tiver milhões, participar dos leilões das grandes casas”.

E, claro, dá para ler o seu Manuscritos Notáveis e aprender um pouco mais sobre alguns dos principais manuscritos através da narrativa deliciosa do escritor.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários