Colocamos um homem e uma mulher pra falar sobre machismo e futebol – eis o que aconteceu – GQ

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Como foi assistir a um jogo de futebol narrado por mulheres pela primeira vez? Qual sua memória inesquecível de Copa do Mundo? O que você estava fazendo em 2002, na última vez em que o Brasil levantou a taça? Fizemos essas e outras perguntas para Fernanda Frozza, repórter da Glamour, e Felipe Blumen, editor assistente da GQ. O resultado você vê aqui!

Qual foi a sua reação assistindo a um jogo narrado por mulheres?

Fê Frozza – Glamour: Você chegou a assistir aos jogos na Fox?

Felipe – GQ: Assisti a um jogo quase inteiro narrado pela Isabelly.

Fê Frozza: E o que você achou?

Felipe: Vou confessar que, no começo, achei estranho, mas por não estar acostumado mesmo. Com o tempo, nem fui reparando mais.

Fê Frozza: É cultural, né? Eu achei lindo. É a primeira vez que isso acontece na TV, e me assusta que tenha demorado tanto. É claro que é diferente, a gente vem de uma geração em que não existiam mulheres ocupando cargos de repórteres, comentaristas e muito menos narradoras de futebol.

Felipe: E, aliás, foi uma mina da Fox que falou um dos dados mais interessantes que eu vi nesta Copa: 7 dos 11 titulares da seleção foram criados pelas mães; cresceram sem presença paterna. Talvez não seria algo que um dos narradores comuns falaria numa transmissão.

Fê Frozza: Sempre que a gente pensa em uma voz referência, o que vem à cabeça é Galvão Bueno, Milton Leite e uma lista exclusiva de homens. Essas meninas vieram para mudar isso.

Felipe: Total, essa Copa é das mulheres.

Fê Frozza: Estamos vendo novos olhares sobre um assunto que já estamos mais do que acostumados (ainda mais aqui no Brasil, país do futebol).

Felipe: Mas não só na TV… Acho que no envolvimento com a Copa também. Pelo que sinto das minhas amigas, elas estão curtindo mais o esporte. Talvez seja um reflexo por elas estarem vendo mais minas na TV.

Fê Frozza: Pela primeira vez as minhas amigas estão participando de bolões! Até as que não acompanham tanto assim. E sabe outra coisa que eu reparei? Que as narradoras priorizam comentários de torcedoras que estão assistindo aos jogos. Normalmente, são só homens que ganham voz, né?

Felipe: Pô, olha só, não tinha reparado nisso. Faz sentido!

Fê Frozza: Mas, por outro lado, também vi algumas pessoas criticando elas no Twitter. Eu conversei com as narradoras da Fox para uma matéria e elas falaram bastante sobre a resistência do público de ouvir uma mulher falando sobre futebol.

Felipe: Em grupos de futebol que eu participo no Facebook, não é raro as minas reclamarem de serem ignoradas nos comentários. Ou de caras comentando a mesma coisa e sendo respondidos.

Fê Frozza: Sério? Que triste!

Felipe: O pior é que eu acho que vai demorar pra acabar essa resistência.

Fê Frozza: Você acha que, se essas narradoras estivessem num canal aberto, o público teria muita resistência?

Felipe: Eu acho que a resistência não acaba, mas vai diminuir se virar mais comum, se botarmos mulheres para narrar com mais frequência.

Fê Frozza: Eu vi uma menina elogiando a narração, mas falando que o pai e o tio dela não tinham gostado porque futebol “não combinava” com voz de mulher.

Felipe: Hahaha isso aí é ridículo, mas é total falta de costume. Tipo no passado, quando os caras falavam que calça não combinava com mulher.

Fê Frozza: Isso me incomodou e, ao mesmo tempo, me deu pouquinho de esperança na próxima geração. É cultural, né?

Felipe: Pô, tem coisa que (espero) a gente vai achar absurda de lembrar daqui uns anos. E pode até ser que a gente comece a falar que narradora X ou Y é ruim, igual falamos dos caras, mas essa é a hora achar legal só pelo fato de estar rolando.

Qual é a melhor maneira de acabar com a ideia que mulher não entende de futebol?

Felipe: Taí uma boa pergunta.

Fê Frozza: Para mim, essa é uma ideia que já começa na infância. Acho que tem muito a ver com aquele momento em que a gente distingue o que é “brinquedo de menino” e “brinquedo de menina”.

Felipe: Putz, verdade. Ganhei muita bola quando era criança.

Fê Frozza: Quando eu era criança, menina não ganhava bola de presente de aniversário, não jogava futebol na rua com as amigas e dificilmente ia no estádio assistir a um jogo. O erro já começa aí! Eu NUNCA ganhei bola, mas meus irmãos sempre ganharam. Por outro lado, quantas bonecas você já ganhou na vida?

Felipe: Boneca nenhuma, imagina.

Fê Frozza: Acho que hoje isso vem mudando, né? Mas é claro que o número de homens que se interessa por futebol é maior que o de mulheres. Eles foram estimulados e vida inteira a isso. E, além disso, acho que tem outros motivos aí. Tem muito cara que insiste em achar que entende mais de futebol só pelo fato de ser homem. Eu gosto de futebol. E, normalmente, quando falo isso para um homem, começa o desafio…

Felipe: Já te pediram pra falar a escalação?

Fê Frozza: “Ah, mas então quantas vezes o time xxx ganhou a Libertadores?”; “o que é impedimento?”.  Você tem sempre que se provar, isso é muito chato.

Felipe: A maioria dos caras que eu conheço não sabe responder isso aí.

Fê Frozza: Hahahaha, mas acho que nem todo mundo precisa saber. Só que ninguém desconfia se for um cara que gosta de futebol.

Felipe: Acho que tem que ter um esforço por parte dos caras que não são toscos. Eu mesmo já perguntei escalação.

Fê Frozza: Já? Por ser mulher?

Felipe: Nossa, sim. Fazia isso direto na época de escola. Mas aí você cresce e percebe que é babaca, né. (Idealmente.)

Fê Frozza: Tem homem que respeita, mas a gente ainda tem uns exemplos de que nem todo mundo é assim, né? Prova disso é o caso dos torcedores brasileiros com a russa nessa Copa…

Felipe: Os caras do vídeo não cresceram. São uns tiozões que não conseguem ver o mundo sem ser com aquela cabeça de quinta série. Acham que podem fazer o que quiserem e colocar tudo na culpa do “mas é brincadeira/tradição/costume”.

Fê Frozza: Esse vídeo é triste. Acredite, eu nem assisti até o final porque achei deprimente. Eu estava conversando com umas amigas outro dia, e a gente começou a se questionar sobre o que faria se visse essa situação em algum bar durante um jogo.

Felipe: O que vocês fariam?

Fê Frozza: A gente se dividiu. Uma disse que sairia do bar; outra disse que defenderia a menina… Eu pensei muito. E gostaria muito de dizer que defenderia a menina, mas não sei se na hora eu teria medo de enfrentar sete caras. O que você faria?

Felipe: É uma situação difícil mesmo. Eu acho que é questão de porrada.

Fê Frozza: Você acha que toda essa situação fez com que eles (e outros caras iguais a eles) refletissem um pouco sobre o assunto?

Felipe: Putz, honestamente? Acho que não. Mas acho que eles perceberam que esse tipo de coisa não passa mais batida – só que, infelizmente, sem entender o motivo.

Felipe, da GQ, e Fernanda, da Glamour, batem um papo sobre futebol, machismo e Copa do Mundo (Foto: Daphne Ruivo)

Que tipo de atitude machista você já cometeu no passado com relação a mulheres x futebol – e hoje não cometeria de jeito nenhum?

Felipe: Hmmm. Eu já pedi pra mulher falar escalação de time. Já falei que fulano “chutava igual mulherzinha”.

Fê Frozza: Já defendi que mulher não deveria ir sozinha ao estádio e já me subestimei também. Quando era mais nova, achava que não dava para uma menina entender e gostar tanto de futebol quanto um menino.

Felipe: Já achei que estádio não era lugar para mulher também – ainda mais se fosse com roupa curta. As coisas que a gente pensa quando é adolescente, credo. E o pior é que eu nem lembro de onde vieram essas ideias!

Fê Frozza: Acho que, se eu tivesse 10 anos, encararia como brincadeira o caso do russo que tentou beijar a repórter Júlia Guimarães ao vivo. Hoje, acho absurdo!

Felipe: Como que você foi mudando de ideia? Eu acho que só mudei ao conhecer mais mulheres mesmo.

Fê Frozza: Chegou um momento em que comecei a me questionar: “Por que isso é tão estranho pra gente e normal para eles?”. E não existe resposta racional para isso. Meu pai (que, só para deixar claro, eu amo muito e é um cara incrível) sempre disse em casa “não sou machista, mas….”. E, por muito tempo, achei que não era machismo mesmo, que era só um jeito de me proteger…. Até porque tenho dois irmãos, sou a única mulher. Você é filho único?

Felipe: Sim, e criado por duas mulheres: minha mãe a minha avó. Mas elas mesmas reproduziam um monte de comportamentos machistas em casa (porque, né, todo mundo reproduzia, acho).

Fê Frozza: Sim! Todo mundo.

Felipe: Pra mim, foi muito importante ter contato e conversar com mais amigas e mulheres no geral para perceber essas coisas.

Fê Frozza: Muita gente acha que só homem tem pensamento machista, mas não é bem assim… Aliás, me deixa muito mais triste quando vejo uma mulher pensando e tento atitudes machistas, ainda mais mulheres da nossa geração.

Felipe: Acho que também é coisa de criação e de geração.

Fê Frozza: Tem muita gente, como minha vó ou a sua, que dificilmente mudarão de ideia. Cresceram com isso na cabeça. Mas a nossa geração, não.

Uma memória inesquecível de Copa do Mundo?

Fê Frozza: Acho que todo mundo tem uma memória inesquecível boa e uma ruim de Copa de Mundo. A gente pode falar as duas. Provavelmente, a ruim é a mesma para os dois, hahaha.

Felipe: Hahaha, pior é que a minha lembrança ruim nem é o 7×1. Eu já estava esperando algo de ruim acontecer naquele dia, o choque não foi tão grande. A pior memória é de 98 mesmo, eu era criança e estava achando que o Brasil era o melhor time do mundo – daí a gente perde pra França de 3×0. Foi horrível, chorei demais. A melhor lembrança foi 2002 – era muito legal acordar de madrugada para ver os jogos. Eu dormia em um colchão na sala, na frente da TV, e acordava bem na hora da partida com a TV já ligada e o Galvão falando. Isso foi mais legal do que o penta em si. E a sua?

Fê Frozza: Eu amava acordar de madrugada. Inclusive, nesse fim de semana, reassisti à final de 2002 entre Brasil e Alemanha. (Bastante tempo livre.)

Felipe: Hahaha.

Fê Frozza: Mas não é essa a minha melhor memória de Copa. Entregando bem a minha idade, eu amei a de 1994. É a primeira Copa que eu lembro, tinha 6 anos. E quando o Brasil ganhou, eu saí de carro com a minha mãe com a cabeça para fora do teto solar (nos anos 1990 não tinha muita segurança, né?) e uma bandeira gigante do Brasil na mão. Ficava imitando o Bebeto!

Felipe: Hahaha. 1994 foi a primeira copa que eu vi, mas só lembro dos churrascos e do Leonardo sendo expulso. O que marcou mesmo foi a convulsão do Ronaldo.

Fê Frozza: Nossa, foi tenso!

Felipe: Minha mãe, na semana seguinte, apareceu com um papel tipo desenho infantil para colorir. Era um Ronaldo (então Ronaldinho) todo destruído. Essa era a diversão da época e isso me marcou demais também.

Fê Frozza: Mas deve ser muito tenso estar ali, né? Eu sei que eles ganham uma baita grana, treinam e trabalham com isso, mas deve ser difícil… Eu certamente choraria igual Thiago Silva, vomitaria igual ao Messi e passaria mal igual ao Ronaldo.

Felipe: Ah, sim. Ainda mais se você é novo e tal. É uma profissão, né. Num campeonato mundial de jornalistas de sites de ~lifestyle~ até a gente ia sentir algo no dia da final.

Onde você estava da última vez que o Brasil levou a taça?

Felipe: Eu estava em casa, sentadinho no sofá e acho que tinha acabado de tomar café da manhã. Foi muito legal, até pelo trauma de 98. Mas era engraçado porque eu não tinha a real noção de como era difícil ganhar uma Copa. Depois de 2002, eu passei basicamente uns 16 anos sem ligar muito para a Seleção.

Fê Frozza: Mas por quê?

Felipe: Ah, as gerações seguintes de jogadores/técnicos não me empolgavam. Ou eram muito vagabundos (2006), ou muito ruins (2010), ou muito antipáticos (2014). Agora que dei uma animada a mais mesmo – mas não muito.

Fê Frozza: A de 1994 foi mais marcante para mim que a de 2002. Porque eu lembro muito de ser criança e ver todo mundo comemorando na rua. E pensei: “Nossa, as pessoas gostam mais de Copa que de Ano Novo”. A de 2002 eu também estava em casa, com a minha família, assistindo na sala. A gente sempre torceu muito. Pintou a rua, pendurou bandeira na janela e comprou umas cornetinhas. E eu botava muita fé naquele time. Acho que ficaria decepcionada se perdesse. Já assisti ao jogo pronta para comemorar!

Fonte oficial: GQ

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