Com novo romance a caminho, Geovani Martins tem uma meta: não tirar os pés do chão – GQ

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Se você faz o tipo techie, talvez se divirta sabendo que uma das mais essenciais paradas da literatura brasileira nos últimos tempos, exaltada por gente do calibre de Walter Salles, Antonio Prata e Chico Buarque, guarda entre suas páginas uma pequena referência a Goldeneye 64, o clássico ‘007 pelo filtro Nintendo’ da era 64-bits. “Era o jogo que mais bombava nas locadoras”, ri Geovani Martins, escritor sensação de 27 anos responsável pela coletânea de contos O Sol na Cabeça (Cia. das Letras), em conversa com a GQ Brasil.

A inclusão do game é natural. Os 13 contos do livro formam um mosaico variado da juventude nas favelas cariocas. Suas rotinas, conflitos e causas, mas também aquilo que move suas paixões: o videogame na locadora, o futebol, a revista pornográfica surrupiada, o ‘pixo’, o amor, a erva, tudo costurado por um jogo variado de linguagem e canalizado por sua vivência como morador de comunidades diversas dos morros cariocas. “O favelado cria e consome como qualquer outra pessoa do planeta”, já disse o jovem em outros carnavais. Para Geovani, morador do Vidigal, o Rio certamente não é uma coisa só.

É um trabalho que, ao menos na teoria, pareceria encerrado no universo do fanzine, mas isto é parte do feitiço honesto de Geovani Martins: é um baita livro, que te pega de surpresa com alguma frequência. Mágica, por sinal, que já surte efeito: a obra rendeu a Geovani seu primeiro best-seller ano passado, foi traduzida para nove países e deve chegar também aos cinemas. “A perspectiva é que o filme seja feito logo, talvez no final do ano a gente já comece a rodar”, diz Geovani.

Geovani veste: Macacão Ahlma | tênis Vert (Foto: Vicente de Paulo)

Entre as surpresas do seu livro, está que, em muitos casos, Geovani parece não dar muita bola para finais tradicionais, deixando o leitor solto no ar, como se fisgasse alguma boa história no burburinho do ônibus ou no caminho para a padaria. Para o escritor, trata-se de um recurso desses que pode ser usado em situações diversas: em um momento, a elipse serve para marcar o surrealismo de uma situação, em outro, a contínua crise de um personagem. Às vezes o ponto final nem faz tanto sentido assim para início de conversa. Em Espiral, conto sobre um jovem vítima do racismo que decide realizar um experimento social bizarro, a ausência da conclusão “é para deixar o assunto em aberto. Colocar um final naquela história daria o tom de que, pronto, aquilo está resolvido”, explica Geovani.

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O Sol na Cabeça é para Geovani o que a Golden Gun é para o James Bond: tiro e queda. Mas o jogo continua. O escritor está aos poucos escrevendo seu primeiro romance, conciliando trabalhos de audiovisual com sua paixão pela escrita. “Estou gostando da estrutura [do romance] que estou montando, ainda tá faltando muita coisa, mas tem sido um processo muito interessante de descoberta”, confessa. “É a primeira vez que penso em uma narrativa mais longa”.

Final feliz para o escritor então? “É uma questão bem complexa”, diz, “porque desde O Sol na Cabeça, me encontrei numa situação muito mais confortável – financeiramente, sei lá, comer nas horas certas, não ter uma série de preocupações que tinha antes, além de ter acesso a livros, a revistas de uma forma mais fácil. Isso tem ajudado, tem me dado incentivo”, explica. “Mas tem uma outra questão: com o acúmulo de trabalho, eu me distanciei um pouco da rua. Estou tentando agora equilibrar um pouco as duas coisas agora”.

Fonte oficial: GQ

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