Com Patti Smith, Tove Lo e Hot Chip, Popload Festival 2019 une gerações em São Paulo – GQ

11

A ameaça era de uma chguva que nunca aconteceu. O clima fechado deu a cara de São Paulo para o Popload Festival, que, em 2019, reuniu um line-up variado, do pop dançante de Tove Lo, passando pela esquisitice politizada de um novo Cansei de Ser Sexy até terminar no encontro de caos e poesia de Patti Smith, uma lenda do punk que, em 72 anos de idade (mais de 40 de carreira), nunca se apresentara na cidade.

Realizado nessa sexta-feira (15) no Memorial da América Latina, o evento teve uma estrutura bem organizada (exceto, talvez, pela ausência de mais banheiros, o que gerou filas em certos momentos) e uma produção agilizada entre shows, que garantiu uma precisão quase britânica a cada uma das atrações.

Desde o finalzinho da manhã, quem chegou cedo conseguiu ver os shows de abertura, que ficaram por conta da banda americana Khruangbin, da cantora britânica Little Simz e da brasileira Luedji Luna. No início da tarde, passada a ameaça de tempestade, o movimento começou a avolumar.

Tove Lo com jeitinho brasileiro


Popload Festival 2019 (Foto: Filipa Aurelio)

A primeira das grandes headliners do festival, Tove Lo subiu ao palco em total sinergia com o público brasileiro, que já a acompanha desde dua passagem pelo país em 2017. Em uma declaração, ela disse referir-se ao fandom local como o melhor do mundo: “you know your shit”, disparou, na intraduzível expressão em inglês.


Popload Festival 2019 (Foto: Fabrício Vianna)

Em sua apresentação, a sueca cantou, dançou, rebolou and pagou peitinho – um aguardado bis de sua apresenção de estreia no Lollapalooza Brasil há dois anos. O destaque ficou por conta da participação de MC Zaac. “Para a próxima música eu queria convidar meu artista brasileiro favorito”, disse ela, convidando ao palco o funkeiro paulistano, seu parceiro na nova “Are You Gonna Tell Her”. Juntos, fizeram funk e pop em uma mistura sensual e, ultimamente, efetiva e celebrada pela plateia.

CSS: mais esquisitona, mais politizada

Para o público paulistano (e pós-indie, digamos) que acompanha o Popload Festival há tanto tempo, experimentar o retorno do CSS após quase seis anos sem novidades foi como voltar no tempo. A todo o momento, a vocalista Lovefoxxx fazia referências à sua própria história, citando 2004 ou 2006 e seus paralelos com esse longínquo 2019.


Popload Festival 2019 (Foto: Filipa Aurelio)

Em certo momento, Lovefoxxx ainda fez um mea culpa emocionado por canções como “City Grrrl”, de 2011, gravada em parceria com Ssion: “quando escrevi essa música achava que para ser feliz a gente tinha que mudar para uma grande cidade, ter um certo estilo de vida; hoje eu sei que isso não é verdade e que é possível ser, sim, feliz, vivendo onde quer que você queira”.

Após um começo tímido, o grupo paulista ganhou força e mostrou a maturidade do tempo fora dos palcos. Após uma mudança de visual, Lovefoxxx apareceu com uma roupa vermelha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a chamada para uma ‘reforma agroflorestal’. A tecladista Ana Rezende também vestia uma camiseta de Marielle Franco. Político a seu jeito, o CSS fechou a tarde com provocações Jair Bolsonaro em vídeo e com um chamado da vocalista a um Brasil que precisa, mais do que nunca, de suas “esquisitonas”.

O sunset do Hot Chip

Com o entardecer também vieram as primeiras batidas do Hot Chip em “One Life Stand”. Com um show animado, o quinteto londrino passou com fôlego por suas quase duas décadas de carreira.


Popload Festival 2019 (Foto: Filipa Aurelio)

Liderada por Alexis Taylor, a banda divertiu o público entre coreografias de clássicos como “Flutes” e “Over and Over”, mas também mostrou a maturidade dos trabalhos mais recentes, nomeadamente do álbum A Bath Full of Ecstasy, de 2019 – uma bem-vinda novidade na discografia do Hot Chip, que ganhou coro da plateia em faixas como “Melody of Love” e “Hungry Child”.

A surpresa ficou por conta de um cover surpresa de “Sabotage”, dos Beastie Boys, e de um grito de Taylor também contra Jair Bolsonaro.

Em tempo: como em suas últimas passagens pelo Brasil, os membros do Hot Chip aproveitaram a noite de sexta para conhecer (e tocar) em alguma casa local e, dessa vez, o escolhido foi o Bar Caracol, na Santa Cecília. Quem viveu, viu.

Rock-onteurs

Com uma estrutura completa e bem organizada, o Popload chamou atenção também pela agilidade no intervalo entre shows, que, quase em todos os casos, foi ágil e descomplicada. Foi assim que, sem muita espera após o Hot Chip, o The Raconteurs, liderado por Jack White e Brendan Benson, subiu ao palco, mostrando uma veia mais roqueira do line-up.


Popload Festival 2019 (Foto: Fabrício Vianna)

Trazendo ao país as faixas do recém-lançado Help Us Stranger, o grupo fez diferente do Hot Chip ao focar mais na produção recente, com poucos resgates à história do projeto. Trata-se também de uma discografia mais curta, marcada por longos hiatos, o que permitiu ao Raconteurs mostrar as novidades sem deixar para trás sucessos como o clássico “Steady As She Goes” (que já tem 15 anos, vejam).

O sarau de Patti Smith

O relógio ainda não batia às 21h quando a grande atração da noite, Patti Smith, subiu ao palco. Em sua primeira apresentação em São Paulo (após uma passagem pelo Rio e por Curitiba em 2006), a cantora, escritora e ativista revisitou sua carreira de décadas com vigor impressionante, trazendo no set mensagens que ajudaram a coroar o tom político da noite.


Popload Festival 2019 (Foto: Fabrício Vianna)

Chamá-la de ‘rainha’ talvez seja incorrer em uma falha técnica quando se fala em uma das fundadoras do movimento punk dos anos 1970, mas essa com certeza levantou o séquito ao entoar com energia seus clássicos como “Land” e “Gloria”.

A todo momento, ela aproveitava para compartilhar as histórias de bastidores das faixas ou relacioná-las com o momento atual. Punk enough, cuspia no chão e chamava palavras de ordem. Revisitou obras de tom ambiental, com covers de “Beds Are Burning”, do Midnight Oil, ou “Gold Rush”, de Lou Reed. Ao fim, fez unir o público do Memorial da América Latina com “Because the Night”, o encerramento perfeito para um festival que manteve fãs e atrações conectados até o último minuto.

Gostou da nossa matéria? Clique aqui para assinar a nossa newsletter e receba mais conteúdos.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários