Como envolvimento, amor e vontade de educar fizeram meus filhos amarem a cozinha – GQ

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As primeiras lembranças que tenho na cozinha vêm de quando eu tinha uns cinco anos de idade, no sítio da minha avó paterna, Yolanda, onde passávamos parte das férias ou finais de semana. O cheiro que saía da cozinha me fascinava, era como um ímã que me fazia entrar diversas vezes naquela parte da casa. Lembro perfeitamente do cheiro e do gosto do molho de tomates, feito à perfeição, que era cozido durante muitas horas na véspera. O lagarto, ao ser cozido na panela junto com um escuro e delicioso molho, produzia um aroma que me deixava com água na boca. Mais do que isso, me encantava ver o tempo dedicado naquela cozinha para se preparar uma refeição, com um carinho que era nítido e transbordava pelos outros cômodos da casa.

Percebendo o meu interesse pela comida, Vó Yolanda me chamava para ajudar a preparar alguns dos pratos – como a massa recheada com queijo e posteriormente levada ao forno para que ele derretesse, levando por cima aquele mágico molho de tomates. Sentávamos em uma mesinha na cozinha e ela me passava um prato com pequenos retângulos de muçarela que deveriam ser colocados dentro de vários rigattones, previamente cozidos al dente. Memórias deliciosas que ficaram guardadas e me acompanham pela vida.

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Guloso, poderia dizer que como de tudo, sem muitas restrições. Obviamente não foi sempre assim. Bacalhau, por exemplo, demorei anos para apreciar – e hoje é um dos meus pratos favoritos. Me lembro bem de só comer as batatas e os “pertences” na bacalhoada que era feita na casa da mamãe. Meu padrasto olhava para mim e dizia: “André, como você pode não gostar de algo que não prova?”. Foram vários episódios como esse, até o dia em que provei, com boa vontade, e gostei. Mas assumo que ele precisou insistir por um bom tempo.

O tempo passou, meu padrasto (que foi um pai para mim) se foi, tive três filhos e hoje me pego diversas vezes fazendo o mesmo. Meus filhos dizem “não gosto” para diversos alimentos pouco ou jamais provados por eles. Tentei abordar esse assunto de formas diferentes. Comecei servindo as verduras e legumes em seus pratos pedindo para experimentarem, dizendo que era bom para eles. Não deu certo. Depois, passei para o famoso discurso do “tem que comer, senão ninguém levanta da mesa”. Também não funcionou. Daí, passei para a tentativa de “mascarar” os legumes e verduras, misturando em algum prato ou receita. Deu certo só com a sopa batida, que dois dos três adoram. Foi então que resolvi mudar de estratégia para algo que – supus – seria mais divertido e interessante.

O que deu certo

Passei a convidá-los para irem comigo ao açougue, peixaria, supermercado, padaria ou à feira – esta, por sinal, uma bela atividade que passa pelos alegres feirantes e as frutas que oferecem, e termina deliciosamente nas barracas do pastel e do caldo de cana. Resolveu o problema? Não, mas melhorou um pouco. O próximo passo – e acho que talvez o mais eficiente – foi convidá-los para me ajudarem na cozinha enquanto preparo um prato.

Como escrevi na coluna do spaghetti com polpettine, eles adoram ajudar no preparo de massa fresca de macarrão. Para eles, é como uma brincadeira de massinha – e, quando a massa é servida, noto um ar de satisfação e maior interesse pelo que estão comendo, orgulhosos de terem participado do preparo da refeição. Passaram a comer de tudo? Não. Mas é um começo, especialmente porque passaram a olhar para a refeição de um outro modo, o que considero uma grande “aquisição” para eles.

Outro hábito que tenho (repetindo a forma em que fui criado, junto com os meus irmãos) é o de levar as crianças, pelo menos uma vez ao mês, a um bom restaurante – não necessariamente caro. É uma boa oportunidade para que experimentem algo muito bem executado, podendo perceber desde cedo a diferença entre o comum e o excelente. E, durante esses almoços (e em todas as outras refeições aqui de casa), tablets e celulares não são permitidos na mesa. Não tenho nada contra o uso deles – pelo contrário – mas que seja em outro momento, na medida certa e não na hora em que estamos comendo e tendo a oportunidade de interagir e colocar o “papo” em dia.

Há muitos anos atrás vendi tudo o que tinha (até o computador) e fui estudar nos Estados Unidos. A primeira parada era Santa Barbara, onde aperfeiçoaria o inglês antes de ir para Chicago estudar mercado futuro. Estudantes com a grana curta, eu e meu grande amigo Fernando chegamos na cidade e conseguimos alugar um quarto na casa de uma família. Eu já cozinhava nessa época e preparava alguns almoços e jantares para aqueles que nos receberam tão bem. Só não sabia que isso me renderia abrigo na próxima parada.

Ciente de que eu precisaria de um lugar para ficar em Chicago, o pai da família de Santa Barbara conseguiu que um amigo me alugasse um quarto em sua casa, mas com a sugestão de que eu cozinhasse uma vez por semana para a ele, sua esposa e filhos. Topei na hora. Um dia, compreendi a razão da proposta do anfitrião: seria uma forma dos filhos experimentarem – talvez por receio de chatearem um convidado – coisas diferentes das que ele fazia. Achei brilhante essa ideia e me diverti um monte durante o tempo em que estive por lá.

Estímulos
 
Sinto que vivemos em uma época em que se estimula muito os interesses gastronômicos. Meus filhos, por exemplo, adoram assistir a programas no estilo reality show em torno de competições culinárias. Já vi em inúmeras festas, ou atividades de recreação, aulas de cozinha para crianças, o que acho bárbaro. Chefs famosos têm feito, há algum tempo, receitas voltadas para crianças. A melhoria da qualidade da alimentação oferecida em parte das escolas também é nítida, talvez relacionada com o crescente envolvimento e interesse dos pais sobre o que os filhos estão comendo.

Estava, recentemente, passando uns dias em um hotel e fiquei reparando nas crianças servindo-se no buffet do almoço. Muitas delas faziam pratos de encher os olhos, com saladas, verduras e legumes. Deu gosto de ver. Existem, também, passeios do tipo “visita guiada” em fazendas, como os que acontecem na Santa Adelaide Orgânicos – onde, além de terem contato e verem como são produzidos os alimentos, as pessoas podem desfrutar de um almoço feito com os produtos que acabaram de ver no campo. Esse contato com o alimento in natura, fresco, é muito importante para as crianças. Muitas delas nunca viram in loco uma mandioquinha ou um rabanete, por exemplo. Como esperar que comam de tudo, se nem sabem do que se tratam e de onde vêm os alimentos?

O momento é excelente para despertar nas crianças o interesse pela comida e pela cozinha. E só vejo pontos positivos nisso. Além de se proporcionar uma alimentação mais balanceada e saudável, os horizontes e as relações se expandem, numa ótima oportunidade para passarmos mais tempo juntos, conversando, perguntando e, principalmente, ouvindo. Para eles, é fundamental esse tempo ao lado dos pais, muitas vezes escasso devido à nossa intensa rotina de trabalho.

A cozinha é extraordinária: além de alimentar o corpo, alimenta as relações. Sejam cafés da manhã, almoços ou jantares, a questão é que essas ocasiões podem ser muito mais do que simplesmente refeições. Não acho que exista uma fórmula mágica para ensinar os filhos a comerem, o que pode existir (e existe) é muito amor envolvido e uma enorme vontade de educar.

Fonte oficial: GQ

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