Conheça Afrodite, a caminhoneira trans que virou tema de coleção – GQ

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Afrodite (Foto: Divulgação)

Afrodite – nome em referência à deusa grega do amor – ficou seis décadas escondida atrás de uma pessoa que não a representava. Aos 66 anos, ela decidiu colocar pra fora algo com o qual se identificou desde pequena: o sexo feminino. Natural de Jacarezinho, no estado do Paraná, ela já passou pelo exército, foi pastor e há mais de quatro décadas é caminhoneira.

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Esse foi o enredo que inspirou Lívia Barros e Janaína Azevedo, sócias da marca paulistana Ken-gá, a criarem a Boleia Mística, uma coleção de roupas inspirada no universo cowgirl e também na história e superação de Afrodite. As peças foram exibidas em desfile na Casa de Criadores em julho deste ano, e contou com a presença da protagonista, que atualmente mora em Mato Grosso do Sul e cruza o país dentro do seu caminhão com vestido e salto alto – livre e feliz ao 70 anos de idade.

“Foi muito legal ver a Afrodite desfilar. Ela ficou muito feliz, extasiada no dia”, relatou Janaína, uma das responsáveis pela coleção.

A caminhoneira desde jovem teve contato com a moda. Quando era mais nova, mudou-se para São Paulo para trabalhar com tecelagem: “Eu costumava a tecer roupas íntimas de mulher para usá-las por baixo dos meus trajes”, lembra.  

Ela ainda apresentava algumas dúvidas ao definir sua sexualidade. Mas em conversa com uma das sócias, foi convencida: “A Janaína me disse que sou homossexual, pois sempre me relacionei com mulheres. O que determina o sexo não é genitália e sim a cabeça”, disse a caminhoneira.

Em todo o processo de (re)descobrimento, a personagem lembra de papo que teve com sua mãe quando pequena: “Ela dizia que eu tinha alguma missão como homem”. Então, ela descobriu este objetivo, e ele atende pelo nome de Tatiana: “Eu me casei com 26 anos e tive a minha única filha. Recentemente a fala da minha mãe veio na minha cabeça, e assim cheguei ao motivo de eu ter vindo homem nesta vida, que foi dar a oportunidade para ela nascer.

Confira nossa conversa exclusiva com Afrodite

GQ Brasil: Em qual momento da sua vida você se descobriu? 

Afrodite: Quando a Tatiana fez 15 anos, eu me separei da mãe dela e já era para eu ter assumido a minha identidade. Mas logo depois apareceu uma mulher que foi um “trem” na minha vida. Ela era evangélica e acabei indo para a igreja. Fui pastor por um tempo – e sempre usando roupas íntimas femininas. Tanto que essa segunda mulher me via usando essas roupas. Seis anos atrás a gente se separou, ela sumiu e eu fiquei por aqui mesmo (Cuiabá) com meu caminhão, e há quatro anos a Afrodite nasceu. Eu comecei a me vestir como mulher dia e noite. Doei todas minhas roupas masculinas e me assumi para todos, deixando os cabelos longos e mantendo as unhas pintadas durante todo o tempo do dia.

GQ Brasil: Como foi a aceitação das pessoas ao seu redor – amigos e familiares?

Afrodite: Na minha família, somos em sete irmãos – cinco homens e duas mulheres. Quando me assumi, veio a perseguição dos meus irmãos. Eles me ameaçavam e um deles até chegou a partir pra cima de mim. Em contrapartida, as meninas me aceitam muito bem, sem problemas.

GQ Brasil: Você já realizou a cirurgia de transição de gênero?

Afrodite: Não e acho que tão me enrolando. Não sei se vou conseguir. Estou no aguardo de uma posição dos médicos, pois não surgiu vaga ainda, segundo eles.

GQ Brasil: E sua filha, o que pensa desta cirurgia?

Afrodite: Ela é contra a cirurgia. Ela fala “hoje você tá muito feliz, alegre, bonita. Por que mexer com isso? E se der errado?”. Então todas esssas coisas me vêm na cabeça. Eu sempre sonho que já passei pela cirurgia. Bate uma tristeza quando me olho nua no espelho

GQ Brasil: As meninas da Ken-gá disseram que você foi roubada recentemente. O que houve?

Afrodite: Eu sofri um golpe. Deixei o caminhão na mão de um rapaz para fazer reparos e ele sumiu com o veículo. Ele foi viajar, vendeu material que eu tinha nele e acabou apreendido por estar com a habilitação vencida e carregando carga ilegal. Isso me deixou tão nervosa que fui parar no hospital. Fiquei doente com tudo isso, mas agora estou bem.


Afrodite e as sócias da Ken-gá no desfile (Foto: Divulgação)

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Fonte oficial: GQ

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