Conheça Lamu, a ilha fetiche do Quênia e patrimônio histórico da Unesco – GQ

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Verdade tropical: A vista da cidade que é patrimônio histórico da UNESCO (Foto: Getty Images)

A epopeia de chegada a Lamu anuncia o inferno do millennial e o paraíso para as gerações mais  analógicas. A telecomunicação móvel vai do 4G a quase traço à medida que nos aproximamos do arquipélago queniano, a partir de Mombaça, em um voo mitológico de 30 minutos que sobrevoa um Índico que, visto de cima, parece livre de plásticos e protegido da ação de resorts all inclusive. Sim, é um sinal. Não, não é um sinal de internet: é um aviso de que devemos aproveitar a má conexão para nos desligarmos e cairmos na real a fim de mergulhar de cabeça, e a fundo, no mais bem preservado bastião suaíli à beira-mar. E que mar.

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Verdade tropical: Lamu guarda um dos últimos redutos da cultura suaíli. (Foto: divulgação)

Geralmente nosso primeiro contato com uma língua local é um simpático “bem-vindo”. Foi o que pensei ao ouvir “pole, pole” de todos que cruzavam meu caminho nas vielas labirínticas da velha cidade, erguida sobre calcário de corais e madeira de mangue há nada menos que 700 anos. “Pole”, tão suave e musical, em suaíli significa “devagar” – e tem maneira mais direta e aconchegante de se sentir em casa logo de cara? Lamu não chega a 30 mil habitantes, seu povo e sua arquitetura, seus costumes e suas feições, orações e rotinas são a tradução mais literal de um vagar quase parado no tempo e no espaço, cultura que, de forma terna e natural, tem se mantido a salvo da gentrificação e da velocidade implacável dos ventos modernos. Talvez por isso a ilha se tornou um dos últimos destinos genuínos e seguros (sim, porque há outras maravilhas a serem exploradas por aí quando as guerras cessarem de vez – ou você também não sonha em nadar um dia nas águas do arquipélago de Dahlak, na Eritreia?) do leste africano depois de Zanzibar, na vizinha Tanzânia, hoje talvez um pouco concorrida demais, com italianos e ingleses saltando de barcos e bares como em um verão em Formentera ao som do DJ mais cultuado de Madrid. Não! Queremos paz, amor, anonimato e experiências que possamos levar para casa e praticar em um dia cinzento do outono lisboeta – aliás, os portugueses passaram por ali em suas viagens de um sem medo glorioso que tanto, e quase tudo, levou do Oriente para a Europa medieval.


Verdade tropical: Lamu, o arquipélago, fica na costa norte do Quênia; Lamu, a cidade, foi erguida sobre calcário de corais e madeira de mangue há 700 anos. (Foto: divulgação)

E não só eles, mas também turcos e otomanos, persas, árabes e indianos deixaram suas pegadas no assentamento portuário outrora rico e cosmopolita, o mais importante do Índico africano, marcas ainda presentes na história da região que se converteu ao islamismo sem apagar da memória seu passado easygoing e open minded de uma época em que, no velho porto, os ventos das monções trouxeram veleiros carregados com mercadorias para a costa suaíli e, mais tarde, quando os ventos mudaram, os navios foram devolvidos com produtos locais. São comerciantes, pescadores, construtores de pequenas embarcações, agricultores e artesãos cujas vidas estão entrelaçadas ao Corão e às mais remotas tradições do povo banto, a gênese de tudo o que se entende por África do Saara para baixo. Por devoção a Alá – são mais de 20 mesquitas, imperdíveis as de Mnarani e Riyadha –, elas vestem o buibui e eles o kikoy, uma espécie de pareô, ou o kanzu, uma túnica branca e, na cabeça, um kofia delicadamente bordado em um desfile technicolor que, por uma ilusão de ótica, me transportou (só por um segundo, afinal fazia sol) para um mercadinho do Boulevard Barbès, epicentro afro vibe de Paris.


Verdade tropical: Em Lamu não há carros, apenas burros que garantem o transporte – veterinários e ONGs cuidam da saúde dos animais. (Foto: divulgação)

Para ir e vir, nada de carro, apenas burricos (há veterinários e ONGs por todos os cantos para cuidar deles, para você ver a importância e o amor que merecem) e o dhow, uma jangada cearense com tempero suaíli que pode levá-lo para além de Lamu – rumo às outras ilhas do arquipélago, onde aldeias isoladas, como a misteriosa Shela e suas cabanas de palha, e ruínas antigas escondem-se em Manda, Siyu, Pate e Kiwayu, com suas praias de areia finíssima e branca, atóis e lagoas.


Verdade tropical: Turistas procuram em Lamu o anonimato – cada vez mais raro (Foto: divulgação)

Mas é a vila de Lamu a grande pérola do Quênia, merecidamente Patrimônio da Humanidade da UNESCO com sua fortaleza moura, mercados movimentados (os burricos sempre presentes!) e as casas de pedra do século 18 adornadas com portas de madeira esculpida e pátios internos – os chamados kiwanda –, centro de todas as atividades diurnas e a fonte da maior parte da luz e do ar do edifício. A maioria delas possui as chamadas galerias suaíli, que são nichos embutidos na parede contendo livros, lâmpadas de cerâmica e vários elementos para demonstrar a riqueza e a posição social da família. Não há janelas, pois reduzem a privacidade em uma sociedade que tenta manter as mulheres em reclusão, o “purdah”.


Verdade tropical: Torre de uma mesquita – são mais de 20 no arquipélago. (Foto: divulgação)

Todas as construções são voltadas para o norte, em direção a Meca, até mesmo os hotéis, que não são tantos, porém todos de um charme único em uma bem-sucedida e harmoniosa mistura de elementos locais com know how inglês e je ne sais quoi francês dos donos e hóspedes, antigos habitués de outros destinos que caíram em desuso devido, talvez, à indiscrição e euforia de selfies dos frequentadores de agora – outros tempos, novas manias.


Verdade tropical: O dhow é o transporte utilizado para chegar às ilhas vizinhas (Foto: divulgação)

Não há veículos circulando por lá. As ruas sinuosas do centrinho histórico são mais bem exploradas a pé ou a bordo de um burrico mesmo. As praias também são acessíveis a pé ou de dhow. Lamu, na contramão de todo frenesi de verão que afundou o Mediterrâneo, segue em seu ritmo orgânico, meio invisível, quase transcendental. Pole, meus caros, pole, pole.


Verdade tropical: São Tomé e Príncipe encanta por sua floresta densa (Foto: divulgação)

Soníferas ilhas

São Tomé e Príncipe é o país menos visitado da África. Foram apenas 8 mil visitantes em 2019, a maioria deles portugueses e alguns aventureiros italianos e franceses – são viajantes invisíveis, fugitivos das multidões, a descobrir e guardar para si as últimas maravilhas intocadas da Terra. Não à toa chamadas de Éden africano, as duas ilhas tropicais, onde se fala o português e em muito mareiam na malemolência baiana, boiam no Atlântico morno junto à costa do Gabão. O cenário daria um apêndice em Os Lusíadas: praias desertas de areia muito branca, mar e horizonte cruzados em azul Pantone tom “Serenity”, floresta densa e virgem, belíssimas roças embrenhadas na mata e engenhos em estilo colonial onde se cultivava, no século 18, a cana-de-açúcar e o cacau – o chocolate feito com a matéria-prima local é fetiche. Mas voltando à matriz: vá antes que seja tarde, pois não há destino no mundo que resista por muito mais tempo à sarabanda aeroviária que congestiona céus e interrompe o fluxo do cosmos. Dicas? Guia no bolso, caro amigo. Neste caso funciona.


Verdade tropical: Engenho estilo colonial onde se cultivava a cana-de-açúcar no século 18. (Foto: divulgação)

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Fonte oficial: GQ

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