Conheça Loro Bardot, a voz aveludada do hit ‘Silent Night’ da série “Assédio” – GQ

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A cantora e atriz de atitude low-profile lançou seu primeiro EP, Café dos Pássaros, há dois anos. Já em 2017, saiu o single “Cirurgia” e, desde então, ela compõe para peças de teatro e curtas-metragens. O timbre único de Loro Bardot agora chegou à TV. Ela abre a nova série da Globo, Assédio (baseada no livro A Clínica — A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih, de Vicente Vilardaga e dirigida por Amora Mautner) com a canção “Silent Night”. Para a mesma obra, Loro Bardot também fez uma versão para “If You Hold a Stone”, de Caetano Veloso. “Sem a mídia digital é muito provável que eu não estaria cantando na Rede Globo hoje”, diz. 

Veja o bate-papo exclusivo da artista com a GQ Brasil:

Como surgiu o convite para fazer parte da trilha sonora da série Assédio?
A oportunidade de interpretar essas duas músicas veio da minha parceria com o Felipe Alexandre, produtor que fez meu EP, Café dos Pássaros. Ele é compositor de várias trilhas-clima para novelas e séries globais; e o chefe da produtora, Duda Queiroz, é o diretor musical de Assédio e já havia escutado meu trabalho. Ele achou que minha voz pudesse se encaixar bastante na proposta estética da série. E, no fim das contas, Amora Mautner gostou da última versão que fizemos de “Silent Night”. A música do Caetano foi um bônus muito incrível para mim porque ele é uma grande inspiração. Foi um convite inusitado, mas acho que é um momento importante da série e quiseram manter o mesmo mood sombrio que a abertura traz, mas com elementos positivos que não posso dar spoiler.

Veja o clipe ‘Dois’, parte do EP, Café dos Pássaros:

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Ter música em uma série da Globo muda a sua perspectiva como artista – principalmente de mercado fonográfico?
Muda sim a minha perspectiva, porque é um mercado bastante comercial e muito produzido. E eu comecei a gravar minhas composições e trilhas com produtos de segunda mão e várias gambiarras.

Loro Bardot (Foto: Divulgação)

Você disse: “Ser a voz de abertura dessa série, não me diz respeito apenas como cantora, mas como mulher, denunciando a inconformidade com a narrativa bizarra destes fatos reais”. Acredita que os artistas precisam falar sobre questões como o assédio sexual?
Todas as coisas que invadem seu espaço físico e/ou atormentam o psicológico devem ser retratadas, discutidas e combatidas. Não importa o quão frágil, o quão escondida, uma vida é uma vida e precisa ser protegida. E a arte, principalmente o teatro e a música, sempre foram minhas espadas e escudos diante de coisas que me aconteciam. Acredito que, para muitas pessoas, ter uma série como essa pode ajudar a denunciar os crimes e abusos feitos com as mulheres diariamente.

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Que outros temas – que não dizem respeito apenas aos gêneros – você busca cantar?
Procuro estar a serviço da minha arte, sempre com a escuta aberta para dentro e fora de mim. Muitas vezes a inconformidade é combustível para inspiração e escrevo sobre isso, principalmente com a situação de homofobia e feminicídio (assuntos que estão no meu raio de lugar de fala). Mas sempre, por diversão dramatúrgica, invento personagens que passam por situações que nunca passei. É muito engraçado como as pessoas acham que sou vivida.

Ouça o single “Cirurgia”, de Loro:

Com as plataformas digitais, os artistas têm liberdade de criar e divulgar seus trabalhos sem a curadoria de especialistas (como era o modelo das gravadoras). Isso traz mais diversidade para o cenário musical?
A internet deu uma boa ajuda para artistas independentes, todos têm algo a dizer e é muito bom ter a oportunidade de poder falar, mesmo sem fama. Sem a mídia digital é muito provável que eu não estaria cantando na Rede Globo hoje.

Você também compôs para filmes e peças – ter suas canções nestas obras complementa sua trajetória?
Com certeza. Abre a oportunidade de compor para novos projetos, quem sabe conseguir exercer meu trabalho como atriz também. Tenho duas peças em cartaz agora e nas duas a música é um personagem na narrativa. Uma delas se chama Fios de Memória, trata-se de um velho palhaço que tem Alzheimer – é uma peça de bonecos que não tem texto, ou seja são 45 minutos de música. Juntar teatro e música sempre foi o meu sonho e é muito bom poder fazer isso desde muito nova.

Se a sua música fosse uma imagem, qual seria?
Imagine um pássaro humanóide, não um Loro, mas um pássaro preto, quase Horús, com um casaco branco respingado de tinta laranja atrás. Uma casa abandonada, destruída e o mesmo tentando reconstruir seu ninho. Uma maldição: toda vez que ele sobe um tijolo, outro cai. Não faz nada a não ser levantar todos os dias e tentar reconstruir sua casa, mesmo sabendo que talvez nunca possa ser reconstruída. É essa a relação da minha arte com o meu país.

Fonte oficial: GQ

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