Conheça o barão brasileiro do gim – GQ

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Quando ainda tinha 23 anos de idade, recém-formado advogado, o pernambucano Sergio Marques fundou uma empresa de energia eólica na Paraíba, a Bioenergy. Cinco anos depois, em 2007, vendeu parte dela a uma utility australiana. Bem capitalizado, em 2012 apostou em energia solar, fundando a Solyes em Juazeiro, na Bahia – seu segundo negócio de sucesso. Em 2016, veio a Solutions New Energy, sua promissora incubadora de projetos energéticos baseada em Boca Raton, na Flórida. Também promissora. Foi quando decidiu buscar algo que lhe desse mais prazer que o ramo de energia renovável. Marques queria mesmo era investir em algo que fosse uma paixão. Assim surgiu seu gim.

Um pernambucano do mercado financeiro que o conhece há anos diz que Marques é boa gente, mas volátil. Investe em uma coisa, vende e parte para outra, sucessivamente, “como uma porta giratória”. Já os amigos dele o veem como um cara que gosta de viver a vida intensamente, um esteta curioso e generoso. Seja como for, Marques estreou no ramo das bebidas com tudo e, repentinamente, lançou um gim chamado Savvy, destilado no lugar mais improvável do mundo: o Alentejo, em Portugal.

Gim (Foto: Victor Affaro)

Ele sempre adorou passar férias na região – famosa pelos vinhos robustos – e a certa altura resolveu que ali fundaria uma vinícola. Chegou a comprar uma herdade em Évora e contratar um arquiteto renomado e um enólogo. Mas trombou de frente com alguns vizinhos e com regulamentações draconianas que não lhe permitiram ir adiante. “No Alentejo não é só chegar e fazer, tem um ranço cultural muito forte”, diz.

Certo dia, bebendo um apple martini em Londres, teve uma epifania ao descobrir que o bartender usara um gim alentejano na receita. Chamava-se Sharish. No dia seguinte, Marques caçou Antônio Cuco, dono da destilaria, para lhe propor um negócio. Tudo aconteceu muito rápido. Como suas mensagens não tinham resposta, foi ao Alentejo bater à porta de Cuco pessoalmente. Elizabeth Esteve, sua amiga de longa data e galerista em Londres, admira a energia com que ele se lançou no negócio. “Ele ama a Europa, fazia muito tempo que buscava fazer algo aqui. Até que o gim caiu no colo dele como que por milagre”, explica. “A ideia é genial”.

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Da ideia à execução foi um pulo, porque Cuco topou produzir o Savvy paralelamente ao seu próprio gim. Aceitou o desafio mesmo tendo começado no ramo só quatro anos antes, quando largou a carreira de guia de turismo para arriscar-se como destilador. O Sharish fez um sucesso fenomenal e inesperado. Cuco planejava vender 7 mil garrafas em 2014 e vendeu 21 mil. Hoje, são mais de 200 mil por ano – tornou-se líder de vendas em Portugal entre as marcas premium.

Gim (Foto: Victor Affaro)

Em um modesto galpão no vilarejo de Monsaraz, os dois começaram a desenvolver, juntos, a receita do que viria a ser o Savvy. Incluíram vinte botânicos na fórmula para aludir à década de 1920 que inspira a marca, incluindo zimbro da Macedônia, menta, alecrim, limão, laranja e tangerina plantados ali mesmo, lírio, jasmim etc. Marques gastou 65 mil euros comprando um alambique alemão de última geração que faz dupla destilação, um Rolls-Royce do setor que quase ninguém tem e deu o start na produção. Parece improvável o local escolhido para o projeto sendo Marques pernambucano? “Ninguém valoriza inovação no Brasil”, conta, desiludido. “Produzir um painel fotovoltaico na Bahia custa 60% mais caro do que importar da China, por exemplo”.

Ele vende seu gim em São Paulo e no Rio só por patriotismo. “Ganhar dinheiro com isso? Esquece! Meu mercado principal vai ser a Europa”. Pretende fazer barulho nas duas capitais do gim: Holanda, onde o destilado nasceu, e Inglaterra, onde popularizou-se. “A gente vai brigar na terra do inimigo para ser reconhecido”, diz.  Investir no Alentejo tem outra vantagem: ajuda-o a conseguir o chamado visto dourado e mudar sua residência fiscal para Portugal, onde pretende viver 40% do tempo.

Mesmo estando cada vez mais no Alentejo e indo frequentemente à Flórida para cuidar de seu outro negócio, desde 2004 a base de Marques é São Paulo, onde vivem sua ex-mulher Adriana e os dois filhos. Ele mora em um apartamento cinematográfico com um bar imenso, digno de hotel cinco estrelas. E é lá que recebe amigos em torno de dry martinis feitos com seu gim. “Sempre gostei de beber dry porque é um drinque de personalidade, quando você toma o segundo tem a sensação de entrar em uma outra sala e a cada dry mais portas vão se abrindo. Mas se você não souber bebê-lo, no quarto estará morto”, avisa.

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Tamanho é o entusiasmo de Marques pelo Savvy que ele estabeleceu metas ambiciosas. Pretende abocanhar 15% do mercado brasileiro de gins premium em um ano. No site de vendas online ginflavors.com.br a bebida está listada a R$ 179, um preço bem acima de gins reputados como Bombay Sapphire e Beefeater. Não parece preocupar-se com os concorrentes nacionais, cada vez mais numerosos. “Sou de família de usineiros”, comenta. “Os gins brasileiros são feitos com álcool de cana e por isso sempre terão um ranço de cachaça”, ele acrescenta.

Gim (Foto: Victor Affaro)

O Savvy chegou querendo brigar com os grandes: Monkey 47, Plymouth, Tanqueray Ten e outros da categoria premium. Se conseguirá emplacar no saturado mercado brasileiro só o tempo dirá, mas qualidade para isso tem. Quem atesta é José Oswaldo Amarante, autor do livro Os Segredos do Gim. Em uma degustação com um júri de experts, o Savvy ficou em primeiro lugar, à frente de cinco concorrentes. “Todo dia aparece um gim novo”, reconhece Amarante. “Mas o Savvy nos deixou impressionados”.

Impressionar os entendidos é fácil perto do desafio de ganhar mercado cobrando bem mais caro do que a maioria das marcas de gim. A bela garrafa e a iconografia remetendo aos anos 1920, era áurea da coquetelaria, ajudam. O próprio Marques diz que “é preciso vender uma história”. Mas se o Savvy emplacar não será por nada disso, mas porque um pernambucano obstinado apostou suas fichas na mina de ouro escondida nos confins do Alentejo que só ele soube enxergar.

Fonte oficial: GQ

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