Copa do Mundo, os russos e o torneio de futebol mais controverso da história – GQ

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A operação Barbarossa começou em 22 de junho de 1941, quando a Wehrmacht, as Forças Armadas nazistas de Adolf Hitler, invadiu a União Soviética. Um ano depois de cruzar a fronteira, soldados alemães chegaram ao rio Volga e lá deram início a uma das mais sangrentas batalhas da história, com centenas de milhares de mortos. Quase 60 anos depois, Stalingrado, hoje Volgogrado, é um dos símbolos da Copa do Mundo da Rússia e do poder de Vladimir Putin. 

Apenas na primeira semana sob bombardeio alemão, Stalingrado perdeu 40 mil civis. As baixas seguiram aterradoras, conforme as tropas se derramavam pelo rio, tentando defender a margem oriental, em uma luta camicase que os alemães apelidaram de Rattenkrieg, a guerra dos ratos. A situação só mudou três meses depois, quando tanques soviéticos contra-atacaram, esmagando e encurralando o exército alemão na cidade.

No início de 1943, os 91 mil soldados do Eixo (aliança fascista entre Alemanha, Itália e Japão) que haviam sobrevivido se renderam. A vitória custou a vida de meio milhão de soldados soviéticos, mas mudou o curso da Segunda Guerra Mundial, transformando a batalha de Stalingrado em um dos mais heroicos episódios da “Grande Vitória” russa. Durante a batalha, toda a cidade chegou a ficar sob jugo nazista, à exceção de dois pequenos bolsões – um deles é o que abriga hoje a Arena de Volgogrado.

Rússia (Foto: GettyImages)

Com formato de chapéu de pele, decorado com uma intrincada teia de estrelas metálicas e com capacidade para 45 mil pessoas, o estádio foi finalizado no início do ano. Pode ser mais bem admirado de Mamayev Kurgan, um morro que serviu de antigo cemitério tártaro, foi palco de lutas acirradas durante a batalha e hoje é encabeçado pelo “Chamado da Pátria Mãe”, a enorme estátua de uma mulher convocando seus seguidores para a luta. Sua espada tem 27 metros de comprimento. E uma placa pede que não se pise na grama. O motivo: ela cobre uma vala comum que abriga 34.505 corpos. 

Sob o pé esquerdo da estátua, há uma câmara coberta por uma abóboda cravejada de emblemas soviéticos que cercam uma chama eterna. Uma placa que agradece a todos os soldados que ali lutaram é assinada por Joseph Stalin. Debaixo do pé direito, há uma igreja ortodoxa, cujos domos dourados cintilam contra o céu azul-claro. Poucos lugares simbolizam melhor a tensa relação entre o passado e o presente da Rússia do que o Mamayev Kurgan.
Stalingrado se tornou Volgogrado em 1961, depois que o sucessor de Stalin denunciou seus expurgos e repressão.

Rússia (Foto: GettyImages)

Mas o ditador ainda paira sobre a cidade, como talvez paire sobre todo o país. Não se pode rejeitar Stalin inteiramente sem rejeitar sua vitória e ninguém quer fazer isso. Pelo contrário, todo 9 de maio (Dia da Vitória), o triunfo é celebrado em paradas militares cada vez mais opulentas, que acontecem sob o beneplácito de Putin, o qual preside as festividades da Praça Vermelha, como fazia Stalin à sua época.

“Seu serviço secreto é bem forte, mas não tão forte quanto o nosso, o que não impede seu povo de nos culpar por toda e qualquer coisa. É por isso que precisamos de Stalin”, disse Irina Valentinova, a risonha guia septuagenária do Museu de Stalin em Volgogrado, ao saber que eu era britânico. Estava com uma pequena trupe a quem ela apresentava as três salas de documentos e mapas que culminam em uma estátua de cera do próprio, disponível para selfies. “Vai, pega o cachimbo, aperta a mão dele”, ela ordenou, enquanto eu posava para uma fotografia. “Putin não pode te encontrar. Mas, pelo menos, você foi um convidado na casa de Stalin”.

Eu queria perguntar ao fundador do museu por que ele havia criado esse pavoroso memorial para um dos maiores monstros da história e se os torcedores que visitarão o local não ficarão mais estarrecidos do que maravilhados. Mas Valentinova me disse que ele já morreu. Depois descobri que o assassinato dele foi encomendado e ele terminou espancado até a morte durante uma partida de tênis em 2010. Mas tudo bem, tinha muita coisa bacana na lojinha de souvenires. Ela mostrou pratos comemorando Stalin e Putin, um calendário de Stalin, camisetas para adultos mostrando imagens de Putin cavalgando um urso e versões infantis, com o slogan “russos não se rendem”.

“Talvez a educação não seja mais a mesma, os hospitais não são bons, a comida é cara e o preço do combustível está subindo, mas você não tem o direito de não amar sua terra natal”, ela disse. “Assim era com Stalin, assim é com Putin”. Assim é. Stalin pode ter conquistado a maior vitória de todos os tempos, mas é Putin quem vai oferecer a maior festa.

Em certa medida, o lapso de oito anos entre a confirmação da sede e o evento em si transformou a Copa da Rússia em uma cápsula do tempo para outra era. Em 2010, quando a Rússia venceu a concorrência, Putin estava dando um tempo da presidência – era o primeiro ministro – porque queria demonstrar o quanto honrava a restrição legal de servir três mandatos consecutivos à frente do Kremlin. Isso era coerente com sua então prioridade geopolítica: exibir a Rússia como um membro previsível e cumpridor da lei da família das nações. Ele aderiu à Organização Mundial do Comércio, convocou uma reunião do G8 em sua cidade natal, São Petersburgo, e trabalhou duro para alavancar o prestígio das Nações Unidas. Sediar os Jogos de Inverno e a Copa do Mundo era apenas outra maneira de mostrar ao mundo essa outra Rússia.

Mas os tempos mudaram. Desde que voltou à presidência, em 2012, Putin tem se interessado mais em destruir do que construir. Tendo assegurado o direito de ciceronear os Jogos de Inverno de 2014, em Sochi, a Rússia trapaceou em escala industrial, supostamente usando a segurança de Estado para ajudar seus atletas a se dopar. Poucas semanas depois do fim dos Jogos, Putin anexou a Crimeia e enviou tropas para o leste da Ucrânia.

Desde então, foi acusado de usar hackers para subverter as eleições presidenciais americanas de 2016, minando a candidatura de Hillary Clinton  e ajudando a assegurar a vitória de Donald Trump. Em seu primeiro mandato, Putin foi dos que mais vociferaram contra a ação militar unilateral dos Estados Unidos no Oriente Médio. Agora é ele quem ignora as opiniões da comunidade internacional e bombardeia cidades árabes.

No campo esportivo, a truculência do presidente e dos torcedores russos é outra marca do país. As imagens de uma briga em Marselha, na Euro de 2016, no dia do jogo entre Inglaterra e Rússia correu o mundo – 31 ingleses ficaram feridos e três russos foram presos. E Putin parece ter se divertido com o episódio. Em meio a uma tentativa de condenar a briga, ele não conseguiu deixar de exaltar a facilidade com que os hooligans russos espancaram os rivais. “Isso é absolutamente inaceitável”, declarou em um fórum econômico, pouco depois do insosso 1 a 1 que desencadeou o confronto. Em seguida, soltou seu sorrisinho característico: “Agora, eu não sei como 200 russos foram capazes de esmagar milhares de britânicos”. Uma onda de gargalhadas varreu a sala.

O comentário não surpreende ninguém que tenha acompanhado a história da violência de torcidas na Rússia. Há tempos que torcedores organizados são escalados pelo Kremlin como aliados na repressão a protestos contra a riqueza obscena dos amigos de Putin. Em 2007, a União de Futebol da Rússia (RFS, na sigla traduzida do russo) endossou uma associação de torcedores conhecida como VOB como supervisora da distribuição de ingressos para jogos no exterior. O controle da alocação de tickets terminou nas mãos de algumas das mais famosas organizadas do país, com quem Putin gostava de ser fotografado compartilhando uma cerveja.

“O crescente profissionalismo das torcidas organizadas, que conduzem treinos de combate e batalhas frequentes entre elas foi bem documentado”, escreveu em seu relatório a organização Futebol contra o Racismo na Europa (Fare, na sigla em inglês). “Nossa preocupação é o tipo de ideologia de extrema-direita que estes grupos seguem e o número de ligações que eles têm dentro da estrutura do futebol, frequentemente com representantes oficiais em clubes profissionais…”.

A mensagem implícita na declaração da Fare é que as organizadas podiam fazer o que bem entendessem desde que estivessem preparadas para se mobilizar a favor de Putin assim que convocadas. A VOB é presidida por Alexander Shprygin, que já foi fotografado fazendo uma saudação nazista e repudiou a presença de jogadores não brancos na liga russa — o atacante Hulk, que defendeu a Seleção Brasileira na Copa de 2014 e jogou quatro anos no Zenit, de São Petersburgo, foi um dos alvos.

Após a batalha de Marselha, Shprygin foi deportado. “Os torcedores ingleses são legais. Eles inventaram o hooliganismo. Quando você enfrenta e arrebenta eles, isso é legal também”, ele me disse quando o entrevistei.

Declarações desse tipo, junto com a multa de quase US$ 180 mil imputada à RFS e a desclassificação antecipada da Rússia por conta da violência em Marselha, estão entre os motivos que levaram o governo russo a concluir, tardiamente, que a aliança com as organizadas trazia mais problemas do que soluções. Em 2016, a VOB foi excluída da União de Futebol da Rússia, Shprygin foi investigado por envolvimento em uma briga entre as torcidas do Spartak e do CSKA, e seu carro foi incendiado.

A marcação do Serviço de Segurança Federal (FSB) em cima dos hooligans está cerrada. Mas a briga de Marselha ainda tem efeitos entre os torcedores europeus, sobretudo os ingleses. A venda de ingressos na Inglaterra para a Copa da Rússia é bem inferior à registrada no mundial no Brasil. Outro fator que pode ter contribuído para o pouco entusiasmo é a frustração que os ingleses tinham de sediar o evento. 

David Cameron, David Beckham e o Príncipe William – que a imprensa apelidou de “Os Três Leões” – fizeram seu último esforço de lobby na conferência da Fifa, em 2010. A Rússia não apenas ganhou como a Football Association (FA, Federação Inglesa de Futebol) sofreu uma derrota mais humilhante do que qualquer uma que tenha experimentado em campo. Dos 22 membros do conselho da Fifa, apenas dois apoiaram a FA – e um deles trabalhava para a entidade. 

Putin só apareceu depois da votação para apertar mãos, sorrir para as câmeras e negar qualquer acusação de compra de votos, algo praticamente impossível, diga-se. Dez dos 22 membros do comitê da Fifa à época foram condenados ou sancionados por corrupção, incluindo os ex-presidentes da Fifa Joseph Blatter e da Confederação Brasileira de Futebol José Maria Marin. Pouco importa, até porque o torneio não tem exatamente a ver com esporte, mas com algo bem maior: mostrar ao mundo que a Rússia está de volta. Putin queria, Putin ganhou, independentemente do custo.

A Fifa até examinou se a escolha da Rússia havia sido corrompida, mas não chegou a lugar nenhum – em boa parte porque os russos “só disponibilizaram um número limitado de documentos”. Lamentavelmente, os computadores usados pela comissão russa haviam sido destruídos. Infelizmente, também, suas contas de e-mail não estavam mais acessíveis, bem como o relatório da comissão auditora designada pelo governo, que não pôde ser providenciado. Só por garantia, a Rússia proibiu Michael Garcia, o americano que chefiava a investigação da Fifa, de entrar no país.

Putin pode ver estes espetáculos esportivos gigantes como vitrine pessoal, mas seus amigos preferem usá-los para ficar ricos. De acordo com o político e ativista anticorrupção Boris Nemtsov, insiders desviaram até US$ 30 bilhões dos Jogos de Inverno de Sochi (Nemtsov foi assassinado a tiros às vistas do Kremlin em 2015). Tais acusações se mostraram embaraçosas para Putin. Se a Copa do Mundo se mostrasse ainda mais corrompida, o constrangimento seria extremo.

Observadores internacionais, como Andrey Jvirblis, da ONG Transparência Internacional, questionam quase tudo na preparação da Copa da Rússia, incluindo a escolha das cidades-sede (“Saransk é um buraco no meio do nada e é sede da Copa do Mundo da Fifa. Ninguém sabe por quê”), a escolha das empreiteiras, as licitações, o orçamento e assim por diante. “Como a Fifa não exige isso [prestação de contas], ninguém pergunta, ninguém faz”.

Rússia (Foto: GettyImages)

Outro exemplo é o contrato de US$ 285 milhões para a construção da Arena Volgogrado que terminou nas mãos de Gennady Timchenko, um dos mais antigos amigos de Putin, o quinto homem mais rico da Rússia e alvo de amplas sanções impostas pelos Estados Unidos. Ele venceu um contrato ainda maior, de US$ 294 milhões, para construir o estádio de Nizhny Novgorod. Por isso, não surpreende o decreto governamental que aumentou o orçamento oficial da Copa de US$ 600 milhões para US$ 11,8 bilhões em outubro, sem que ninguém explicasse a razão.

O governo local, por razões que só ele próprio conhece, decidiu construir o estádio de Kaliningrado em uma ilha pantanosa – logo, sem a solidez necessária para sustentar fundações. Resultado: cerca de 2 mil pilares de 50 metros foram transportados apenas para servir de solo para o estádio, junto com uma quantidade inacreditável de areia.
Três representantes locais foram presos desde então, acusados de superfaturar o preço da areia para lucrar em cima das licitações públicas.

Mas, de acordo com a análise de Igor Rudnikov, um jornalista engajado do jornal local Novye Kolyosa, a investigação policial pode ter sido uma cortina de fumaça para esconder um nível ainda maior de corrupção. Rudnikov não pôde dar entrevista: ele foi preso em novembro de 2017, depois que um general do poderoso comitê investigativo do ministério do Interior o acusou de tentar extorqui-lo US$ 50 mil. Rudnikov, que sobreviveu a um frenético ataque a faca em 2016, havia escrito um artigo denunciando que a casa de veraneio desse mesmo general era luxuosa demais para um funcionário público.

Igor Lebedev, membro tanto do parlamento quanto da federação de futebol da Rússia, declinou de me encontrar enquanto eu estava em Moscou. Mas ele teve o cuidado de responder às perguntas que enviei a ele por email, tanto em inglês quanto em russo, para garantir que eu compreendesse tudo. “A Copa do Mundo é uma enorme oportunidade para mostrarmos a beleza da Rússia e a hospitalidade dos russos”, escreveu Lebedev. Ele tem razão: os russos sabem fazer festa e os torcedores que forem à Copa comprovarão isso. Sob outro ponto de vista, porém, ele está errado: o campeonato não é da Rússia, é de Putin. Foram os amigos dele que ganharam dinheiro, os hooligans dele que ameaçam o evento e são suas aventuras na política externa que espantam os torcedores.

Mas não espere que ele finja interesse. Hoje, Putin joga num tabuleiro global, da Síria a Salisbury, do leste da Ucrânia à Casa Branca, fazendo seus adversários tentarem adivinhar o que ele vai quebrar a seguir. Despender 90 minutos de atenção a um retângulo de grama deve parecer absurdamente insignificante para ele.

Fonte oficial: GQ

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