Documentário brasileiro mostra desafios de famílias com crianças autistas – GQ

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Há muitos mitos e tabus em relação ao autismo. Um aspecto que nem todo mundo sabe é que a síndrome apresenta diferentes níveis de avanço, o que pode prejudicar o diagnóstico — e diversificar os desafios enfrentados pelos portadores e seus familiares. Caracterizado como um distúrbio neurológico, o autismo afeta, principalmente, a capacidade de interação social e a comunicação do indivíduo. A intensidade varia de acordo com os tais níveis que formam o chamado espectro autista. Os problemas gerados pelo distúrbio e a forma com que as famílias de autistas de diversos perfis superam as adversidades são o ponto central de Em Um Mundo Interior, uma das estreias de junho nos cinemas do país.

Com direção assinada pelo casal Mariana Pamplona e Flavio Frederico, o filme é o primeiro longa-metragem brasileiro sobre o tema. As câmeras mostram o dia-a-dia de Enzo, Julia, Roberto, Igor, Isabela, Mathias e Eric, autistas cujas idades variam entre 3 e 18 anos. Editado de maneira bastante sensível, o filme está longe de ser uma análise técnica sobre o autismo e as últimas descobertas científicas sobre o tema. Pelo contrário: mostra de maneira bastante real a dinâmica de se ter um parente autista e os desafios cotidianos desses relacionamentos.

Para compor um panorama do universo do autismo, Flavio e Mariana optaram pela via da diversidade. “Buscávamos crianças de diferentes gêneros, idades, classes sociais, procedência, e com os mais variados graus de autismo. Foi um processo bastante demorado, difícil. Aos poucos fomos encontrando esses personagens e nos apaixonando por eles”.

Em conversa com a GQ, os diretores do filme contam sobre esse processo de busca, a sua percepção do autismo e alguns aprendizados adquiridos sobre o assunto.

GQ: Qual é o envolvimento de vocês com o autismo? Vocês têm um filho autista?

Flavio Frederico: As pessoas sempre perguntam isso, mas não, não temos. Nosso documentário anterior, Em busca de Iara, foi muito dolorido para a Mariana, porque é a história da família dela. A Iara do título era irmã da minha sogra, mãe da Mariana, e foi assassinada pela ditadura. Quando terminamos, eu falei pra ela para, no próximo filme, fazermos algo mais leve. Mariana surgiu com a ideia de retratar crianças com algum tipo de dificuldade, e eu gostei. Ela queria tratar o tema com um olhar mais interessante, que não fosse agressivo, ou de pena. Nas nossas pesquisas, achamos muito material sobre a síndrome de Down. Mas percebemos também que há muita informação sobre autismo, mas pouca coisa filmada a respeito. Vimos que precisava ser feito um filme sobre autismo no Brasil.

 (Foto: Divulgação)

GQ: Como foi a busca pelos personagens?

Flavio: Optamos por fazer um filme de personagens, em vez de fazer um filme técnico sobre autismo. Nós sabíamos que precisávamos falar com os pais e especialistas, mas queríamos também fazer desse filme uma tentativa de entrar no mundo dessas crianças.

Mariana Pamplona: Nós também buscávamos especialistas que não falassem do autismo de uma forma geral, mas que tratassem do caso de cada criança apresentada. Assim chegamos nos personagens que aparecem no filme.

GQ: Houve alguma dificuldade nesse processo?

Mariana: Muita. Muitos pais não quiseram. Havia um medo de que isso fosse prejudicar as crianças de alguma maneira. Fora que muitos pais têm medo de expor os filhos. Mas encontramos essas famílias que estavam muito a fim de participar.

GQ: Houve uma preocupação de retratar diferentes graus de autismo?

Mariana: Sim. Temos personagens no filme com diferentes graus de autismo, alguns bem severos, que inclusive têm alguma outra complicação além do autismo.

Flávio: Esse foi um processo demorado porque nós levamos uns dois anos pesquisando justamente isso, casos de diferentes graus, para que a representatividade fosse maior. Encontrar um caso de autismo severo foi, com certeza, a parte mais difícil do processo, porque quanto mais grave, mais os pais ficavam relutantes em participar das filmagens.

GQ: A maioria dos personagens do filme são crianças. Como eram as escolas? Existe um problema de infraestrutura no tratamento do autismo?

Mariana: Sim. É raro encontrar escolas que estejam preparadas. Existe uma discrepância absurda entre o público e o privado, ainda é preciso muito investimento do governo. Está tudo muito sucateado. Para quem não tem dinheiro, tudo é muito difícil.

Algumas associações existem, elas apoiam e são boas ferramentas. Mas a combinação de autismo severo e falta de recursos é complexa. Há também o outro lado, claro. A Isabela, uma das personagens do filme, deu muita sorte porque está em uma situação um pouco melhor, encontrou uma escola que aceitou profissionais de fora, que fazem um trabalho conjunto, e é excelente. Mas essa não é a média do que encontramos.

 (Foto: Divulgação)

Flávio: Nosso filme não pode ser um retrato da política pública no Brasil. Ele é um retrato do autismo e de como os personagens lidam com ele.

GQ: Qual foi o feedback que vocês tiveram dos pais dos personagens?

Mariana: Os pais adoraram o filme. Alguns dos pais são os maiores divulgadores, aliás. Durante o período de pré-estreia, algumas mães chegaram a ir mais de uma vez ao cinema para assistir ao documentário. Criou-se uma comunidade em torno do filme, as mães criaram um grupo no WhatsApp para conversar a respeito. Elas comentam muito como enxergam na outra as próprias angústias.

GQ: É possível dizer que o filme é um tipo de alento para famílias que enfrentam problemas similares?

Flávio: Esse é um viés do filme. Quando pesquisamos os personagens, nós queríamos mostrar o lado da dificuldade. Nós não douramos a pílula, mostramos o cotidiano real dessas crianças. Mas queríamos mostrar crianças que estivessem progredindo com os tratamentos. Em nenhum momento a gente quis mostrar a última descoberta científica sobre o autismo. Não queríamos fazer um filme dogmático. Nós queríamos um filme peculiar, que acompanhasse o cotidiano dessas crianças. E foi isso que aconteceu, a equipe inteira viveu isso.

Mariana: Isso foi uma ideia firme desde o começo. Eu queria trabalhar com crianças que estivessem em uma perspectiva boa, cujos pais tivessem, de alguma maneira, encontrado meios de lidar com o autismo no cotidiano, em uma perspectiva de melhora, já que não existe cura.

GQ: Como foram as filmagens? Houve alguma dificuldade?

Flávio: Durante as filmagens, nenhuma criança se sentiu incomodada com a gente. Essa foi a nossa maior preocupação, que permeou todo o processo. A gente sempre deixou claro para as famílias que queríamos mostrar a rotina dessas crianças, mas perguntamos o que era importante e o que poderia ser deixado de lado. A ideia não era fazer um Big Brother. Como iríamos representar essa rotina? Mostrando a escola, algumas cenas em casa, alguns momentos no médico ou na fonoaudióloga.

GQ: É possível dizer que esse é um filme que fala sobre comunicação?

Mariana: Sim. Há uma perspectiva de desestigmatizar essas crianças e aprender a chegar junto. À medida que você vai convivendo com eles, você aprende a lidar e a se comunicar. E eles aprendem a se comunicar com a gente também. É uma via de mão dupla. Mas, para isso, a pessoa precisa entender um pouco mais, estar aberta a conversar, entender como entrar nesse mundo. É preciso mais informação sobre o que é o autismo — o que é, como se trata, como lidar com ele. As pessoas muitas vezes têm medo. Nós queremos que as pessoas aprendam a se comunicar com esse universo, que elas sensibilizem com essas histórias. Que olhem com outros olhos o que é o autismo. Porque é o único jeito de eles se inserirem na sociedade.

São Paulo
Cinesystem Morumbi
15:00

Rio de Janeiro
Cinemark Downtown
18:50

Porto Alegre
Cine Center Guion
14:00

Brasília
Cine Brasília
16:00

Balneário Camboriú
Cineramabc ArtHouse
19:30

Curitiba
Cinemateca
19:00

Salvador
Sala de Arte Cinema do Museu
18:55

Fonte oficial: GQ

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