Documentário mostra Maria Callas por ela mesma – GQ

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Se viva, Maria Callas completaria 95 anos de idade neste domingo, dia 2 de dezembro. Nunca na história alguém levou a ópera aos quatro cantos do mundo como a soprano nascida em Nova York de origem grega. Depois de peças e filmes inspirados na cantora lírica, o documentário “Maria Callas – Em Suas Próprias Palavras”, dirigido por Tom Volf com estreia nos cinemas dia 6 de dezembro, traz pela primeira vez a visão dela sobre si mesma, com falas e trechos de entrevistas misturados a leituras de suas cartas a amigos – uma delas à princesa Grace Kelly – na primeira pessoa pela atriz Fanny Ardant, musa de François Truffaut que viveu Maria Callas no teatro e no cinema.

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Maria Callas accompagnÈe par l'Orchestre National de l'ORTF, dirigÈ par Georges PrÍtre, au studio 102 de la Maison de la Radio pour l'Èmission tÈlÈvisÈe "les Grands interprËtes" rÈalisÈe par GÈrard Herzog (Foto: Copyright Fonds de Dotation Maria Callas)

São cenas da carreira iniciada aos 17 anos e momentos de intimidade como os passeios de barco ao lado de seu grande amor, o armador grego Aristóteles Onassis. Um retrato de Maria, da vida privada, e de Callas, dos palcos. 

Tom Volf, realizador de Maria Callas – Em Suas Próprias Palavras (Foto: Kelly-Williford)

Confira a entrevista exclusiva com o diretor Tom Volf, realizador do filme.

GQ: Como você se interessou em contar a história de Maria Callas?
Tom Volf: Foi por acidente, ou melhor, foi o destino. Eu não sabia quem ela era até seis anos atrás. Quando morei em Nova York, eu estava andando perto do Met Opera e decidi assistir a uma ópera italiana. Quando voltei para casa, pesquisei sobre ópera italiana e a primeira coisa que surgiu foi uma gravação de Maria Callas. Aquilo foi o começo de tudo.

GQ: Pode-se dizer que a história dela se encontra com o início do culto a celebridade como conhecemos hoje?
Tom Volf: Sim, com certeza. Ela era uma celebridade mundial do mesmo nível que Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor ou Grace Kelly. Naquela época o culto à celebridade não era organizado como hoje. Você vê no filme ela cercada pelos jornalistas e fãs sem qualquer segurança, assessor de imprensa ou agente. Era um caos, o que tornava tudo bem mais difícil para ela. Ela foi muito corajosa, teve que encarar tudo isso de forma mais direta, sem o cerco que a gente em torno das celebridades.

Maria Callas (Foto: Copyright Fonds de Dotation Maria Callas)

GQ: Na sua opinião, Maria Callas era feminista?
Tom Volf: Eu acho que ela era uma mulher muito moderna. Embora ela revele no filme o seu desejo mais profundo de ter uma família feliz com filhos, dizendo até mesmo que abandonaria tudo por ele, a grande tragédia de sua vida é que ela nunca pôde realizá-lo. Mesmo assim, a forma que levou a sua vida foi muito moderna: pediu o divórcio de seu primeiro marido em 1959 na Itália, um país muito conservador, em uma época em que uma mulher não poderia se divorciar sem o consentimento do marido, que foi o caso dela. Ela lutou por anos para conseguir este divórcio e, enquanto isso, viveu o seu romance com Aristóteles Onassis com o conhecimento de todos. Eles não eram casados e foram casados anteriormente, era uma forma corajosa e moderna de viver tudo isso. Acho que hoje ela pode ser vista como uma mulher que lutou por sua liberdade para viver da forma que queria, independente de qualquer código de conduta moral ou social.

Maria Callas (Foto: Copyright Fonds de Dotation Maria Callas)

GQ: Como foi a escolha da atriz Fanny Ardant para ler as cartas de Callas na primeira pessoa?
Tom Volf: Foi uma escolha bem óbvia já que ela tinha uma conexão com Callas por tê-la interpretado no palco na década de 90 e depois em um filme. Mas, nas duas experiências, a inspiração da personagem era ficção para mim. Agora, pela primeira vez, neste filme, ela fala as palavras de Maria e sua visão do mundo. Foi muito interessante como trabalhamos de uma forma muito íntima, ela leu as cartas de Maria como se estivesse escrevendo aqui naquele exato momento, ela não tentou imitar Callas. A forma como criamos uma interação no filme entre a voz de Ardant e a de Callas, tanto que em alguns momentos esquecemos que são duas vozes, parecendo que ouvimos apenas uma voz, a de Maria Callas.

GQ: Você acredita que vá existir outra Maria Callas um dia?
Tom Volf: A gente não tem como saber [risos]. Eu acho que ela inspirou e continua inspirando muitos artistas, não só no mundo da ópera, onde fez uma revolução.

Maria Callas (Foto: Copyright Fonds de Dotation Maria Callas)

GQ: Maria Callas morreu cedo, aos 53 anos, quando planejava retornar aos palcos. Como você imagina que seria a sua história se estivesse viva hoje, completando 95 anos neste domingo?
Tom Volf: É o destino, ela fala muito sobre isso no filme e diz: “destino é destino e não tem saída”, o seu infelizmente foi morrer cedo, mas deixando um maravilhoso legado, com performances que aparecem pela primeira vez no filme, nas quais podemos redescobri-la. Talvez o filme mostre que ela ainda está viva e de que faz parte do presente e não do passado. 

Nell'immagine distribuita dall'ufficio stampa il 14 aprile 2014 Pier Paolo Pasolini e Maria Callas in Grecia nel 1969.  La foto Ë esposta all'interno della mostra 'Pasolini-Roma' a palazzo delle Esposizioni fino al 20 luglio 2014.ANSA/UFFICIO STAMPA PALA (Foto: ANSA)

GQ: Qual seria a maior qualidade de Callas? A que o fez se interessar por ela desta forma?
Tom Volf: Pela forma que ela se expressa no filme, é a sua integridade e honestidade, tanto na vida pessoal, quanto na carreira. Talvez seja essa a ligação entre Maria e Callas.

Assista ao trailer do documentário.

Fonte oficial: GQ

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