Elza Soares entrega referências de novo álbum e manda recado: “não tô adormecida, tô muito acordada” – GQ

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Elza Soares (Foto: Marcos Hermes)

“Tudo legal, tudo vai mal”. É com verso e música que Elza Soares anuncia sua constatação sobre o Brasil de 2019. “Comportamento Geral”, lançada em clipe nessa quinta-feira (19), faz parte de Planeta Fome, 35º e possivelmente mais poderoso álbum da artista. Palavras da própria.

Em entrevista exclusiva a GQ Brasil, Elza falou sobre seu novo trabalho, uma crítica pesada à política, ao preconceito, ao racismo e à inércia do brasileiro atual. No disco e na vida, ela não poupa críticas ao panorama atual. “A gente tá num momento muito ruim”, reflete.

Trata-se de uma crescente para a cantora, que nunca se furtou à polêmica e à politização de suas músicas: em Do Cóccix Até O Pescoço, de 2002, ela lançou “A Carne”, uma denúncia contra o preconceito de raça, em que canta “A carne mais barata do mercado / É a carne negra”. Com A mulher do fim do mundo, em 2015, e Deus é mulher, de 2018, ela aumenta o volume da crítica e o tom feminista.

Em Planeta Fome ela se alia a nomes da nova geração, como BaianaSystem, Rafael Mike e Virgínia Rodrigues, mas também relembra Tim Maia, Gonzaguinha e até agradece a Mané Garrincha, com mensagens de protesto (“Libertação”, “Brasis”) e também de homenagem à comunidade negra (em “Não Tá Mais de Graça”, espécie de resposta a “A Carne”). Mensagens que fluem com naturalidade de sua voz gentil, mas rasgada da cantora: “As pessoas precisam acordar, ninguém tá fazendo nada. Alguém precisa fazer isso, então faço eu mesma. Eu não tô dopada, não tô adormecida, tô muito acordada”.


Elza Soares (Foto: Marcos Hermes)

GQ Brasil: Elza, você vem no que parece ser uma crescente desde o lançamento de A mulher do fim do mundo (2015), depois com Deus é mulher (2018) e agora com o Planeta Fome (2019). Qual a importância de trazer política para suas letras?
Elza Soares:
É um alerta para o povo. As pessoas estão dopadas, adormecidas. O povo não tá fazendo nada. Costumo dizer que o país tá gripado e, se não fizermos nada, isso vai piorar, vai virar uma pneumonia. Então a arte vem para agitar, vem como um grito para acordar as pessoas.

GQ Brasil: Em sua vida, você já viu o país mudar muitas vezes – e canta sobre ele em “Brasis”. Você diria que estamos em um momento melhor ou pior em 2019?
Elza Soares:
Deu uma piorada, né?! Eu acho que a gente tá num momento muito ruim. As pessoas precisam acordar, ninguém tá fazendo nada. Alguém precisa fazer isso, então faço eu mesma. Eu não tô dopada, não tô adormecida, tô muito acordada.

GQ Brasil: O disco é forte já pelo nome, Planeta Fome, que remete ao início de sua carreira, quando você respondeu ao apresentador Ary Barroso que o seu “mundo” tinha esse nome. Você acha que a gente ainda vive naquele mesmo Planeta Fome?
Elza Soares:
O título tá forte e o disco também. Acho que a gente precisa trazer essa força, porque eu acho que as coisas pioraram. Esse planeta piorou.


Capa de “Planeta Fome” (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: Planeta Fome faz pelo menos uma referência a censura – e é lançado uma semana após o episódio da Bienal do Rio. Você vê esse cenário de censura crescendo no país?
Elza Soares:
Aquilo foi uma vergonha, foi terrível, terrível. Mas lá as pessoas acordaram, reclamaram, brigaram. E é assim que tem de ser, ninguém mais pode ficar calado, ver o erro e ficar quieto.

GQ Brasil: Em “Não tá mais de graça”, você fala de grandes figuras negras, como Tupac, Marielle e Rosa Parks. Na mesma faixa, você diz: “Onde essa porra vai parar?”. Falando da questão racial, para onde acha que estamos caminhando?
Elza Soares:
Onde essa porra vai parar? Eu é que pergunto! A gente tá vendo a coisa piorar e não tá fazendo muito. Mas também não podemos mais voltar ao que era, a gente precisa lembrar desses nomes que eu falo na letra.

GQ Brasil: “Não tá mais de graça”, que você canta com o Rafael Mike, fala que “A carne mais barata do mercado não tá mais de graça”. Parece uma resposta a “A Carne” [do álbum Do Cóccix Até O Pescoço]. É uma continuação?
Elza Soares:
Com certeza! Não tá mais de graça, a gente mudou e não vai mais voltar.

GQ Brasil: Uma pausa para falar de “Lírio Rosa”, a faixa mais singela do álbum. Li descrições falando que ela era romântica. Ela é romântica mesmo? De que fala essa canção?
Elza Soares:
Ela é linda mesmo, acho que é uma declaração de amor para mim. O Pedrinho (Loureiro) escreveu e as pessoas têm dito isso, que é uma música meio emocionante, mas acho que é uma carta de amor para mim, para minha história.

GQ Brasil: Tem algo de autobiográfico?
Elza Soares:
Acho que sim, tem algo de autobiográfico, quando eu canto “Quando passo o tempo em seu lençol / Quando eu piso um passo seu / No meu corpo está você” eu falo da minha história, sim.

GQ Brasil: Em Planeta Fome, existem pelo menos três momentos em que você olha para trás – com Tim Maia, em “Blá Blá Blá” e com Gonzaguinha em “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória”. Mas também aposta em novas parcerias, como Rafael Mike e BaianaSystem. Quem é a nova turma da música brasileira que você acha que leva seu legado consigo?
Elza Soares:
O Rafael Mike, com certeza. Ele quem entra para entonar o Tim Maia. “Me de motivo / vai ser agora”… é a voz dele também.

GQ Brasil: No dia 29, você lança o show de Planeta Fome no palco Sunset, do Rock in Rio, e chamou uma série de mulheres da nova geração para acompanhá-la. Como você enxerga essas novas vozes?
Elza Soares:
Essas novas vozes são muito importantes, a turma d’As Bahias e a Cozinha Mineira, gente trans, empoderada… essa é a turma que quero do meu lado. Essa é a turma que vai acordar a nova geração para o povo mais novo, para a nova geração.

GQ Brasil: Você também fala muito com essa nova geração, como você sente a recepção dos jovens a sua música?
Elza Soares:
É muito boa porque eles estavam precisando. Como disse, o país tá ficando doente e se a gente não remediar rápido, essa gripe vai crescer e se tornar uma pneumonia. Nesse sentido eu me enxergo como um remédio poderoso. A gente não pode tratar de uma pneumonia que atinge o país tomando chá ou xarope. A gente tem que ser mais forte que isso. E para uma geração que tá tomando muito chazinho, eu sou eritromicina.

GQ Brasil: No seu “País do Sonho”, você agradece ao “craque” Mané Garrincha, o único “craque” que rende um prazer verdadeiro. Por que você escolheu falar dele – e por que falar dele nessa faixa?
Elza Soares:
Eu agradeço ao Mané, ao drible, ao gol. Agradeço a ele pelo país que a gente queria – em um país que a gente comemora, celebra, o país que se orgulha, até de seu futebol. Acho que agradeço sim. É o país que eu quero.

GQ Brasil: O que nos divide do “país do sonho” que você descreveu na letra?
Elza Soares:
Tanta coisa. A gente tá inerte, mas precisa acordar. Acho que isso é o principal. Eu tô fazendo a minha parte, tô forte e bem acordada. A gente não pode se calar.

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Fonte oficial: GQ

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