Em álbum de inéditas, Moraes Moreira, 71, faz sua transição de cantor para cantador – Notas – Glamurama

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Moraes Moreira ( Foto: Ricardo Borges/Folhapress)

Até os 17 anos, Moraes Moreira, menino de Ituaçu, no sertão baiano, não conhecia o mar, mas já sonhava em fazer música na capital generosamente banhada pelo Atlântico. “Cheguei a Salvador por volta de 1967, dizendo que ia fazer vestibular para medicina, mas na verdade a música já tomava conta da minha cabeça”, lembra Moreira, que dois anos depois seria um dos fundadores do lendário grupo Novos Baianos.

Agora, os sons e os ritmos daquela meninice voltam em Ser Tão, disco de inéditas inspirado na literatura de cordel. Ocupante da cadeira nº 38 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Moreira mergulhou no universo dos cantadores nordestinos para compor as faixas do novo disco. “O cordel já se fazia presente em minhas canções, só que ainda não observava os seus rigores”, diz.

Inspiradas pela poesia oral das ruas e das feiras, as canções evocam as métricas, rimas e orações que são a síntese do texto de cordel. Ele faz quadra, sextilha, septilha, décima, entra no passo da chula e do samba de roda, no ritmo da viola e da sanfona sertaneja. Fala da música popular, do cordel, da evolução do universo. Fala também de sonho e resistência, como em “I Am the Captain of My Soul”, inspirada pelo poema vitoriano “Invictus”, do britânico William Ernest Henley (1849-1903). “Não é à toa que Nelson Mandela em seus momentos de grande angústia, no cárcere, se apegava a esse poema. Em mim bateu forte e fiz a canção com grande entusiasmo”, conta Moreira.

Composta em proparoxítonas, que Moreira chama de “rimas perigosas” no cordel, a faixa “Nordestino do Século” homenageia Luiz Gonzaga, o maior nome da música nordestina e peça fundamental na sua formação musical. “Ouvia Gonzaga nos alto-falantes do interior, sempre foi o meu preferido”, lembra. “Meu primeiro instrumento foi a sanfona e isso influencia até hoje a minha música.”

Aos 71 anos, o Moreira cantor diz que faz agora sua transição para cantador. “Sem renegar o meu passado, que considero vitorioso, agora me sinto mais comprometido com alguns valores culturais que acho essenciais para reafirmar perante ao mundo: o valor da nossa gente, que se acha na diversidade e na capacidade de harmonizar diferenças” diz. “Quanto mais regional, mais universal”, afirma.

O cantador agora se desdobra entre a turnê da volta dos Novos Baianos, que preparam novo disco de inéditas para 2019, e a agenda de shows do disco solo. “Alvorada dos Setenta”, que fecha o disco, fala sobre essa fase de redescoberta de Moreira. “Abandonei a zona de conforto e fiz algo que me leva de volta pro sertão, que me lava a alma.”

Fonte oficial: Glamurama

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