Em ensaio, Coletivo MOOC debate masculinidade negra – GQ

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Affection, do Coletivo MOOC (Foto: Vivi Bacco)

Com o debate cada vez mais frequente sobre a nova masculinidade, fica fácil generalizar o homem sob um rótulo único. Entretanto, em uma sociedade que vulnerabiliza a população negra, a diferença na experiência racial da masculinidade é muito mais que uma nuance. É para debater essa vivência que o Coletivo MOOC, grupo formado por oito jovens negros moradores da periferia paulistana, lançou um manifesto.

Lançado em português e em inglês, “Redefinindo a masculinidade negra através do afeto” reúne, em uma série de depoimentos de membros do coletivo, suas experiências pessoais sobre ser homem e ser negro. De quebra, apresenta dados que corroboram os efeitos da ausência paterna, tão comum a lares periféricos, em sua própria percepção da masculinidade.


Affection, Coletivo MOOC (Foto: Vivi Bacco)

Leia abaixo na íntegra:

Enquanto as emoções e a vulnerabilidade emocional são vistas como uma fraqueza, a resistência em verbalizar a afetividade também aumenta entre homens negros, devido às expectativas sociais e culturais eles podem ser bastante indescritíveis com seus sentimentos, especialmente quando se trata de ser vulnerável e amável.

O que é afetividade pra você?

“Pra mim afetividade é muito sobre o quanto eu estou pleno e completo para auxiliar, consolar e aprender com o próximo, é entender as qualidades e conflitos de quem está ao meu lado e operar de modo que as pessoas não padeçam ou se sintam menores diante da sociedade, é uma constante que deve ser praticada diariamente pra que o fluxo de emoções e sentimentos sejam fluidos e esclarecidos.” Julio Olimiro.

“O referencial de afetividade que eu tinha era reprimido, quase não existia. Era muito separado entre coisas pra mulher e coisas pra homem, eu era um adolescente que precisava me expressar e não sabia como, então comecei a escrever poesia e nunca tive coragem de mostrar pra ninguém, não tive força pra assumir até ver o Mano Brown fazendo.” Samuel da Paz.

Por muito tempo vimos e sentimos o quanto a masculinidade tóxica associada ao machismo impediu a sociedade de olhar para novas perspectivas e, falando por uma camada ainda mais abaixo, expressões de como poderia “ser homem negro” dentro da sociedade.

Quando você percebeu a masculinidade?

“Eu fui criado e adotado junto com meu irmão gêmeo por uma família branca, e os referenciais de masculinidade que eu tinha dentro de casa eram sempre muito engessados, padrão de uma família branca de classe média brasileira.” Artur Figueiredo

“A sociedade de um modo geral não vê o homem negro como um ser, um ser dotado de inteligência, de sensibilidade, de expectativa, de sonhos, principalmente quando se trata de um homem preto retinto como eu. Esse corpo é extremamente hiperssexualizado, visto sempre num lugar de subserviência, quase unanimado, quase como uma coisa que está ai para servir a todo mundo menos a ele próprio.” David Mechiasu

“Sou um homem trans negro, e achei até certa idade que deveria me encaixar nesses princípios sendo que não tenho genitália masculina e muito menos fui criado como um homem cis. Porém cresci numa família pobre e periférica e a questão da masculinidade me afetou muito. Levei muito tempo para desconstruir e ainda estou desconstruindo pra ver a masculinidade de uma forma diferente, algo que eu performe, pois minhas referências dentro de casa foram meus tios e pai, homens que não cuidam da saúde, que não sentem, não choram e não se permitem sentir nada, e agora vejo os reflexos que isso teve em como eu me relaciono, pois cresci acreditando que ser possessivo e agressivo fosse algo ”natural” do homem, o que acabou com vários relacionamentos meus e com meu psicológico logo em seguida.” Demetrio C


Affection, Coletivo MOOC (Foto: Vivi Bacco)

Segundo dados, 37,3% dos homens negros brasileiros têm sua primeira referência de afetividade com suas mães dentro de casa, devido a ausência da figura paterna que é um retrato social do jovem negro desde sempre. O que acaba levando o homem negro as estatísticas sendo considerado: os que mais se suicidam, os que mais matam, os que mais morrem e os que mais correm risco devido a violência generalizada.

“A masculinidade vista por mim, sendo um homem negro, é bem forte. As pessoas de cara nos enxergam como homens durões, tem ideias sobre nós que nem sempre são reais. Não estão nos deixando mostrar nossos verdadeiros sentimentos e isso afeta bastante o nosso desenvolvimento como pessoa, pois deixamos de demonstrar o que sentimos para manter a pose, enquanto precisamos de algum lugar no mundo pra se sentir seguro como qualquer outra pessoa.” Diego Vinicius

Enquanto o homem padrão corria por uma construção de estereótipo masculino, o homem possível abriu caminho pra falarmos sobre equidade de gênero, autocuidado, paternidade, espiritualidade, afetividade e empatia.

“Hoje, eu reconheço afeto no que é mais parecido comigo.” Artur Figueiredo


Affection, Coletivo MOOC (Foto: Vivi Bacco)

Direção criativa: suyane ynaya (@suyane_ynaya) & kevin david (@kevindavale)
Procução: kevin david (@kevindavale)
Fotografia: vivibacco (@vivibacco) 
Assistente: ana beatriz costa (@bicecosta)
Styling: suyane ynaya (@suyane_ynaya)
Assistente de styling: nairobi ayobami (@nayobami), gu souza (@vaskowitch)
Beleza: artur figueiredo (@figartur)
Casting: diego vinicius (@resistanceroot), demetrio c. (@demozin), neco blangata (@necoblangata), victor eduardo (@victteduardo), david mechiasu (@davidmechiasu), natan santiago (@natansantiago21) e ícaro santilhana (@afromermaidx)
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Fonte oficial: GQ

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