Fabrício Boliveira diz que é maravilhoso viver na TV um “negro, rico e vilão” – GQ

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Experiências inusitadas não faltam para Fabrício Boliveira, uma das três capas da GQ de setembro ao lado de Chay Suede e Emilio Dantas. Nos seus 36 anos de vida, ele já foi recenseador do IBGE – “conheci muita gente, fui até padrinho de casamento” – e, ótimo aluno que era, professor de aulas de reforço de matemática, português e história para crianças – “já trabalhava desde os 15 anos” – além de ter dado aulas de dança, mais especificamente de swing baiano nos anos 90 [risos], depois que a mãe o colocou no balé clássico aos 15, “queria ter independência financeira e sempre fui da dança desde pequeno”. Sua mãe foi atriz antes dele nascer, além de ter sido bibliotecária, “foi ela quem me guiou no mundo das artes, muitos livros, espetáculos, música boa…”

Fabricio Boliveira (Foto: Hick Duarte)

Sobre o fictício Roberval, Fabricio diz que é maravilhoso fazer pela primeira vez na TV, em Segundo Sol, um personagem “negro, rico e vilão”. “Tem uma questão servil brasileira aí ( Roberval é o filho da empregada na casa da família tradicional) , só aqui no Brasil há esse resquício muito forte da escravidão, empregadas domésticas que até 5 anos atrás não tinham nem carteira assinada, dormiam dentro de casa e deixavam de criar os próprios filhos para criar os dos patrões. Tem uma coisa estranha acontecendo agora, brasileiros pedindo quartos de empregada nos apartamentos que estão sendo construídos em Portugal e Miami [para onde muitos brasileiros estão migrando]”, diz ele, que participou com o elenco da novela de uma conversa com a emissora sobre poucos atores negros atuarem na trama, que se passa na Bahia, estado com mais negros do país. “Foi muito especial ver que a minha questão negra, que me acompanha a vida inteira, virou também uma questão para os meus colegas de trabalho. Fizemos isso com maturidade, como artistas deste tempo”, conta. “Estamos em diálogo, a gente não quer impor, com conversa vamos chegar em bons lugares. Temos uma população (de negros) de 52% neste país, não dá mais para a gente só ser visto desse jeito estereotipado, vamos nos ver com normalidade, o Roberval recria dentro das pessoas a possibilidade de um ator negro poder fazer tudo, isso é uma evolução dentro da arte”, completa.

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Fabricio Boliveira (Foto: Hick Duarte)

Depois da novela, um dos próximos projetos de Fabrício é um filme sobre a história de Luis Gama (1830-1882) pela Paranoid – produtora do diretor Heitor Dhalia, diretor de Tungstênio, filme que tem o ator como protagonista. “Ele foi um grande advogado negro que libertou vários negros da escravidão, uma história fortíssima, um filme de época feito em São Paulo. Ele ( Luis Gama) veio para São Paulo depois de ser vendido pelo pai (um português), quando já era liberto. Uma história de muita beleza e força”.
Para Fabrício, é muito claro o porquê da representatividade negra no showbiz americano, com estrelas como Beyoncé, Jay-Z e Kanye West dominando a cena: “Pós escravidão aqui neste país (Brasil) os negros foram expulsos das senzalas para viverem nas ruas como miseráveis. Nos Estados Unidos, eles ganharam um pedaço de terra, uma mula e uma quantia em dinheiro para poderem recomeçar. O mais louco é que a população negra dos EUA é de 17% no máximo, nós no Brasil somos 52%. Tudo o que a gente vive é resquício disso. No Brasil, as pessoas dizem que não são racistas, mas para esse país andar a gente tem que ser muito mais, temos que agir contra o racismo”. 

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Fonte oficial: GQ

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