Fabrício Boliveira viveu dias de taxista no Rio para filme: “Teve até polícia me parando” – GQ

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Fabrício Boliveira em “Breve Miragem de Sol” (Foto: Divulgação)

Os atores Fabrício Boliveira e Barbara Colen (Bacurau) estão em Londres para a pré-estreia mundial de Breve Miragem de Sol, de Eryk Rocha (Transeunte, Campo de Jogo, Cinema Novo), filho do cineasta Glauber Rocha. A exibição acontece nesta quinta-feira no BFI London Film Festival e o longa já está conquistando a crítica local, como o inglês Geoff Andrew, que o incluiu entre as suas doze apostas desta edição do festival. O filme chega aos cinemas em 2020.

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Ambientado na cidade do Rio de Janeiro, o longa é uma coprodução entre Brasil, França e Argentina. Nele, Fabricio é Paulo, que começa a dirigir um taxi depois de ficar desempregado. Entre as corridas, conhece a enfermeira Karina, vivida por Barbara. Em entrevista exclusiva à GQ, Fabrício sobre o filme.


Barbara Colen e Fabrício Boliveira em “Breve Miragem de Sol” (Foto: Divulgação)

Ficção da vida real

“O Erick Rocha foi uma descoberta na vida. É um filme que sobre a crise neste país, um desempregado tendo que trabalhar pela primeira vez com o taxi para poder pagar a pensão do filho. É um documentário/ficção inacreditável, muitas das coisas que a gente tinha programado dentro do roteiro aconteceram realmente, situações em que eu interagi com pessoas reais, teve até polícia me parando. A maioria dos atores eu não conhecia, nunca tinha visto. Eu só recebia uma informação de onde pegar os passageiros e desenvolvia um diálogo a partir dali. Eu tinha uma pré-cena e eles também e a partir dali eu desenvolvia, por exemplo, um encontro do taxista com argentinos, gente do subúrbio do Rio. Eu me mudei, fiquei um tempo morando em Cascadura, foi um processo muito intenso”, contou ele.

Corrida na madrugada

A equipe com câmera ficava dentro do carro, embora Fabrício tentasse manter a normalidade de uma corrida comum. Entre os episódios vividos durante na filmagem, um o marcou bastante: “ Eu estava no centro da cidade às três da manhã e tinha um garoto negro pedindo taxi sozinho. Ninguém ia parar pra ele; fato. No centro do Rio, com a cidade como está, um taxista não pararia nunca, evidente, são preconceituosos. Eu parei meu carro, ele ficou olhando e não quis entrar, aí eu dei uma volta no quarteirão e voltei e falei: ‘Entra que ninguém vai parar pra você aí’. Ele entrou no carro, perguntou o que era a câmera, mas como a câmera estava em mim eu respondi pra ele: ‘Claro, vou te deixar na Lapa’ [risos]. Ele fazia outras perguntas e eu ia respondendo como se fosse uma pergunta condizente com a situação. Aí ele se calou, tivemos um momento ótimo de transporte, ele me pagou no final e eu fiquei com o dinheiro, tudo aconteceu como uma coisa real, que era o meu grande sonho nesse filme”. Depois da corrida paga, a equipe no carro desceu e pediu a autorização de imagem para o rapaz.

Cascadura hipster

Vivendo em Cascadura, bairro pobre da Zona Norte, Fabrício se surpreendeu com os moradores do bairro: “A gente tem um olhar estereotipado do pobre brasileiro. Acha que ele vai se vestir de tal jeito, que vai usar tal tipo de roupa, mas nessa eu comecei a ver uma galera muito moderna dentro do trem, uma galera hipster negra que fica na Void (loja hipster) que tem em Madureira e é muito moderna. O mais legal desse filme foi ter tirado esse estereotipo de pobreza, a gente encontrou muita gente legal, madura, com nível intelectual altíssimo. As pessoas não estão sendo absorvidas pelo mercado ou estão em um lugar ruim e precisam correr atrás de algum jeito para estarem fortes pro emprego, pro melhor salário, pra discussão na rua. Hoje todo mundo tem que ter opinião sobre tudo, então os mais inteligentes estão tendo que correr atrás de informação”, conclui.

Confira o trailer do filme para o festival em Londres.

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Fonte oficial: GQ

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