Felipe Neto abre o jogo e fala sobre trajetória, política e ameaças – GQ

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Felipe Neto no GQ Men of The Year 2019; o youtuber levou o prêmio na categoria personalidade digital (Foto: GQ)

A frase de apresentação de Felipe Neto em sua página no Twitter, onde acumula 9,8 milhões de seguidores, é a perfeita tradução da sua personalidade  — “MUITAS PESSOAS (dessa forma, em letras maiúsculas) têm uma ideia errada sobre mim. E eu não tenho a mínima vontade de esclarecer as coisas”. E foi assim, falando o que pensa e sem se importar muito com a opinião alheia, somado aos 34,8 m de inscritos em seu canal no Youtube e os 11,4 m de seguidores no Instagram que Felipe alcançou o prêmio Men of the year 2019 na categoria Personalidade Digital. Ao saber da premiação, ele deu o tom político que tem usado cada vez com mais frequência em seus canais de comunicação.

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“Qualquer premiação ou reconhecimento traz honra. Mas me incomoda o fato de que o vencedor dessa categoria precise lutar contra um desgoverno desses, né?! Preferia que estivéssemos passando por um governo coerente, onde uma pessoa que tenha voz não precisasse lutar contra a censura, a opressão e tudo que a gente está vendo de balbúrdia do governo brasileiro atual. Apesar de tudo, esse prêmio me dá força para seguir”, afirma ele.

Com a impressionante marca de oito bilhões de visualizações acumuladas em seus vídeos, Felipe começou a postar no Yotube em abril de 2010. No início, com muito humor, fazia críticas ao comportamento das celebridades. Com o passar do tempo, o olhar ficou mais abrangente e passou a incluir a população como um todo em seus comentários. Daí às críticas sociais e políticas, foi um clique. Tudo com tom ácido e, para alguns, até agressivo.”Quando comecei eu ainda era um garoto cheio de reacionarismo e discursos conservadores. E quando você é jovem, é mais inconsequente e ignorante “, diz ele, numa auto-crítica reversa aos discursos que pipocam em meio aos digitais influencers.

Aos poucos, Felipe virou o jogo e mudou de fase no disputado e rentável universo digital: passou de yotuber das brincadeiras que dividiam opiniões a uma voz política de oposição potente, que merece ser ouvida. Hoje, diz que fala sem filtro com os eleitores do futuro — e também os atuais. “Isso vem de um processo. Eu passei por uma coisa muito difícil, e não estou aqui me fazendo de vítima ou reclamando. O que acontece é que amadureci com todo mundo me olhando. Passei por todo esse processo de amadurecimento com muita exposição, não é fácil”.

Sobre a obtenção e a relevância da sua voz, diz sem rodeios. “Sinceramente, essa ficha de que sou uma voz política ativa ainda não caiu. Na verdade, nem sei se tenho mesmo esse poder todo”, diz, minimizando suas ações e as discussões que dissemina através dos seus posts e vídeos. “É óbvio que eu tenho muitas pessoas influentes que me acompanham e, talvez por isso, o que faço possa gerar um alcance maior. Mas se eu levar isso a sério, parar para refletir essa questão, tenho medo de onde isso possa parar”.

Sua última grande ação, na qual distribuiu gratuitamente cerca de 14 mil livros com temática LGBT que seriam apreendidos a mando do prefeito Marcelo Crivella, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, em setembro, deu o que falar.  “Meu objetivo não era criar uma comoção, mas enfrentar uma imposição. O que ia acontecer ali era um absurdo, os policiais foram com os sacos de lixo para recolher os livros. O ponto de partida dessa questão é a luta da comunidade LGBTQ. Mas é mais do que isso: é uma luta contra a censura. É uma luta contra a imposição de valores morais que visam a oposição de minorias e que eu, como homem branco heterossexual, se não faço nada, sou conivente com essa opressão que já perpetua há séculos. Justamente pela minha posição de privilegiado, usar isso a favor das minorias é minha obrigação. Nunca senti na pele absolutamente nada das causas que luto e defendo, mas isso não me impede de lutar”, reforça. 

Extremamente midiático, o episódio dos livros, para Felipe, não é tão fascinante quanto parece. “Custou muito da minha liberdade”, diz ele, se referindo às ameaças que recebeu após o ocorrido. As ameaças, é bem verdade, sempre existiram. “No Twitter ,então, é um bando de gente idiota me mandando mensagens horríveis. Não percam o seu tempo, porque não leio”, avisa.

Mas após o episódio da Bienal, um certo e-mail enviado para Felipe e também para sua mãe, dona Rosa,  fez a luz de alerta ser intensificada. “Esse e-mail já está registrado na polícia, com direito a um boletim de ocorrência e vai ter investigação. A pessoa fala que representa um grupo de homens que luta pela conservação da família. E que eles estão acostumados a apagar aqueles que ameaçam a família brasileira. Foi aí que a coisa ficou um pouco mais séria: intensifiquei a segurança e decidi mandar minha mãe para fora do país para não correr nenhum risco”, relata, apreensivo.

Durante a entrevista e sessão fotos, GQ contou quatro seguranças na residência do youtuber, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. Observamos também certa tensão na chegada ao local, até que todos os integrantes da equipe fossem devidamente identificados.

“Hoje, realmente saio pouco de casa e, quando saio, é junto com uma equipe ao meu redor, com escolta mesmo. Isso tudo é bem menos glamouroso do que as pessoas podem pensar. Mas se o ônus é ter que abrir mão da minha segurança pessoal, sinceramente é um preço muito pequeno a se pagar para continuar tendo voz contra tudo o que está acontecendo. E decreta: “Vou continuar fazendo. Isso não se compara ao que outras pessoas vivem no dia a dia, o tempo inteiro”.

Na contramão das ameaças, Felipe tem recebido mensagens de apoio, inclusive de famosos e anônimos, de todos os cantos do país. E até do mundo. A atriz americana Patrícia Arquette mandou mensagem de apoio dia desses, pedindo que ele não deixasse de usar seu poder digital para lutar contra desigualdades e injustiças. “Sou fã dessa mulher, que é maravilhosa. Também recebi mensagens lindas do Caetano Veloso e da Patrícia Pillar. E até políticos de esquerda começaram a se manifestar de forma muito bonita, alguns inclusive me defendendo lá na Câmara”, orgulha-se, para em seguida se deixar levar pela emoção.

“É engraçado isso, mas me senti mais amado no momento em que eu estava sendo tão odiado. Isso me provou como o amor é maior e muito mais forte que o ódio”, conclui, com os olhos marejados. Mais uma vez, eleva sua voz contra a falta de compreensão que existe hoje entre as pessoas. “É estarrecedor que no Brasil de 2019 um indivíduo seja impossibilitado de se manifestar e lutar contra qualquer tipo de censura e opressão sem ser ameaçado”.

Em meio à tanta luta política, paira sobre sua figura a dúvida se um dia pretende se lançar a um cargo eletivo. ” Zero chance, de forma nenhuma. Nunca tive nenhuma pretensão política”, afirma. Para quem acha que suas palavras o carregam para esse ou aquele lado na política brasileira, ele deixa seu recado:

“Mesmo para quem é de esquerda e me enxerga como um aliado, quero dizer que meu papel será sempre a de comunicador, de certa forma, um humorista. Sou e sempre serei oposição. Se amanhã um governo de esquerda ao qual tenha simpatia for eleito, saibam que no dia seguinte eu estarei cobrando ao invés de apoiar”.

O que faria se encontrasse Marcelo Crivella?
Viraria para o lado e andaria na direção oposta. Não imagino nada, repito, na-da de útil vindo de uma conversa com o Crivella. Se ele esticasse a mão para mim, eu não sou mal educado e minha mãe me ensinou a apertar a mão das pessoas quando elas me cumprimentam, cumprimentaria de volta. Mas o faria sem nenhum interesse de desenvolver nenhum tipo de conversa com ele.

Votaria no Luciano Huck?
Hoje em dia não posso nem dizer se votaria ou não votaria, porque nunca vi nenhuma proposta do Luciano. Ele nem se candidatou. Levando em conta o que o Luciano hoje é e quem ele representa, eu diria que me vejo com muita dificuldade em votar nele. Mas, eu odeio prever o futuro. 

Ficou Rico?
Estou rico de muitas coisas, inclusive de dinheiro. Eu já tenho o suficiente, poderia parar de trabalhar hoje se quisesse, mas trabalho porque gosto. Isso não é discurso hipócrita: é bom ter dinheiro, te dá liberdade, conforto…mas não dá toda a felicidade que as pessoas acham que dá. Posso parecer o mais clichê do mundo, mas tem um porquê por trás. Então, eu posso ter dinheiro família e amigos, mas eu tenho depressão clínica diagnosticada. Faço terapia toda semana. Tenho todas as mesmas coisas e os mesmos problemas que qualquer pessoa tem.

Já teve alguma experiência gay?
Nunca tive nenhuma experiência homossexual na vida e, se tivesse vontade, teria sem sombra de dúvida. As pessoas são muito travadas com qualquer coisa que diga respeito ao ânus. É um travamento tão bizarro, porque se você analisar bem, a única razão para um homem se recusar veementemente a qualquer experiência com sua parceira que envolva um ponto erógeno anal, é fundamentalmente medo. Ele tem medo de ser tocado, numa área onde o gay supostamente é tocado. Sendo que, cientificamente falando, é uma zona erógena. Eu mesmo vivo com isso: até hoje nunca experimentei nada nesse sentido com minha parceira. Por que? Por puro preconceito. Eu acho que um dia, talvez, tenha essa vontade.

Já foi vítima de milícia digital?
Já sim. Essas ações coordenadas de fake news fazem as pessoas acreditarem em atrocidades. Inventam coisas muito pesadas. Imagina você saber que algumas pessoas no Brasil acreditam que você distribui conteúdo pornográfico para crianças? Imagina viver com isso?!  Os bolsonaristas são muito digitais. Nas próprias manifestações de rua, eles são poucos, pequenos. Eles não são muito físicos. Mas no digital, são a coisa mais agressiva que eu já vi na minha vida. Do ponto de vista de militância digital agindo contra mim, me sinto perseguido. É uma estratégia maligna, feita de maneira ilegal, pela extrema direita. E nisso envolve-se o PSL, envolve-se políticos específicos e há muito dinheiro por trás. Isso sim é opressão.

Confia na CPI das Fake News?
Tenho esperança. Hoje, a maior luta é para que essa CPI se torne algo produtivo. Porque a compra de robôs e de posts pagos e patrocinados, além da divulgação de fake news através de grupos de whatsapp, está sendo feita de uma maneira coordenada e estratégica para um domínio de massas. 

É amigo do Jean Wyllys?
Ficamos muito tempo sem nos falar. Não dá pra dizer que somos farinha do mesmo saco, porque ele é um militante que pertence ao grupo LGBTQ. O que, por si só, já o coloca em um patamar diferente do meu: eu sou um apoiador e ele de fato é um lutador. E falo lutador com a melhor das intensões. Ele é um guerreiro, luta por uma causa que sofre na pele desde que nasceu. Considero o Jean, no que diz respeito a uma força política, de enfrentamento, de combate, que está realmente bem na minha frente. Ele é o cara que representa toda uma comunidade ou, ao menos, muita gente dessa comunidade.

Quem é o próximo Felipe Neto?
É difícil, mudou muito. Atualmente tem muitos nichos e muitas pessoas ficando grandes, falando com grupos específicos. E não tem surgido grandes influenciadores que falam com todo mundo, como eu e o Whindersson Nunes. Esse é um fenômeno que está sendo estudado, inclusive. Já tive esse debate com funcionários do Youtube e com meus sócios e, nos bastidores, a gente tem tentado entender cada vez mais porque isso está acontecendo. Isso não é bem bom nem para o próprio Youtube e nem para as plataformas digitais. Parece, de certa forma, uma limitação em termos de grandes comunicadores. É como se as pessoas não estivessem mais se interessando por isso.

Pensa em deixar o país?
Já pensei sim e ainda penso bastante. Ainda mais agora, com minha mãe lá fora. No momento que sentir que minha integridade física passou dos limites de ser mantida, que eu não vou mais poder continuar, eu saio. Mas até agora as ameaças estão só no digital, não aconteceu nada. Não quero simplesmente sair daqui porque tenho dinheiro para isso, e deixar as pessoas que não têm para trás. Seria uma sensação de abandono, eu não quero ter essa sensação de que estou em outro país, vivendo uma vida boa, e pensar na quantidade de pessoas que estão se ferrando no Brasil. Seria um grande fracasso, eu seria vencido. 

Está cansado de lutar?
As vezes cansa. Estar na linha de frente é foda, porque é cobrança de todos os lados. E essa posição é de cobrança para um Brasil melhor, sempre. Se eu achar que um governo esteja indo bem, eu vou querer que ele vá melhor. É essa a postura que um comunicador tem que ter: a da responsabilidade de alertar sempre. Alertar sobre injustiças, sobre desigualdades sociais, sobre melhorias que são possíveis. E isso não é só papel do comunicador, mas também do povo. O povo tem que ser o fiscal do governo. Fomos nós que colocamos eles lá, então nós temos que fiscalizar e cobrar o tempo inteiro, não só aplaudir, bater palma e chamar de mito

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Fonte oficial: GQ

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