Flávio Canto ressalta a transformação que o judô gerou em sua vida – GQ

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Quando Flávio Canto começou no judô, aos 14 anos de idade, colocou uma coisa na cabeça: traria para o Brasil uma medalha de ouro em 2000. “Para mim, era claro: eu tinha que treinar o dobro para recuperar meu tempo perdido, porque a maioria dos meus adversários tinha começado com cinco, seis anos”, lembra.

Depois de dez anos de muita preparação, vitórias e medalhas com a seleção brasileira de judô, em 1999 o atleta chegou à seletiva como favorito. E foi eliminado.

O choque deixaria muita gente completamente sem chão e até sem vontade de voltar ao tatame, mas Flávio optou por um outro caminho. No ano em que já não iria mais disputar o ouro, decidiu pôr em prática um princípio máximo do judô, o Jita Kyoei. “Significa benefício e prosperidade mútua, que todo crescimento deve ser compartilhado”. Na prática, em 2000 o judoca começou a dar aula na Rocinha.

Aos 25 anos, era a primeira vez que ele entrava em uma favela. “Foi um momento da minha vida que me redefiniu”, conta. “Comparar a vida que eu levava com a pobreza de tanta gente no Rio me fazia mal, então decidi usar o que eu tinha, que era o judô, para tentar ter algum impacto nisso.” 

  Transformação pelo esporte

Em três anos, nascia o Instituto Reação. O objetivo sempre foi lutar contra a desigualdade e dar oportunidades de largada para as crianças e os jovens da comunidade, e logo Flávio percebeu que eles estavam levando para fora do tatame o que aprendiam ali. “O esporte tem valores que você carrega para a vida pessoal, mas eu não sabia exatamente o que isso significava. Ali, entendi. Pude ver as vidas deles na escola e em casa serem transformadas pelo esporte”, afirma.
 

Flávio criou o Insituto Reação para estimular jovens de comunidades a seguirem o caminho do esporte (Foto: Divulgação)

O judoca também se transformou a partir do Instituto Reação. Para ele, seus melhores anos esportivos vieram depois disso, “porque cada vez que eu subia no tatame, não era só por mim que eu lutava”.

E quem achou que o sonho do ouro tinha morrido quando ele não conseguiu ir a Sidney, achou errado. Flávio se classificou para Atenas e de lá trouxe uma medalha de bronze. Competição após competição, provou ser um dos maiores nomes do nosso judô, tornando-se heptacampeão sul-americano e hexacampeão pan-americano – sim, o Brasil é hexa!

A hora de mudar

Logo depois, no entanto, uma infecção nos joelhos o deixou parado por muito tempo e o tirou de sua melhor forma. Ele se viu obrigado a mudar a rota novamente. Aos 36 anos, o judoca anunciou sua aposentadoria e procurou uma nova forma de se expressar: há nove anos, virou apresentador de televisão. Entre a televisão e o Instituto Reação, Flávio encontrou seu caminho pós-aposentadoria.

Com 15 anos de estrada, o Reação hoje tem mais de mil alunos por ano e forma grandes atletas, como nossa campeã olímpica Rafaela Silva, ouro a disputa que ocorreu em 2016, no Rio de Janeiro. É, naturalmente, motivo de muito orgulho para Flávio. “Dou muito valor ao que tenho, ao que construí. Sei que tudo pode mudar de uma hora para outra, mas acho que é da natureza da vida ela ser sempre mutável. A gente pode ser um monte de coisas, não pode?”.

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Fonte oficial: GQ

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