“Gostaria muito que minha filha pudesse crescer em um Brasil com justiça social”, diz Bruno Gagliasso sobre país ideal para as crianças – GQ

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“Tenho muito receio de que minha filha escolha morar em outro país para viver sua vida e sua cor em plenitude”. A capa de agosto da GQ Brasil, Bruno Gagliasso, conversou com seu colega de profissão Wagner Moura sobre o país em que sonha para sua filha, seus maiores ídolos e o melhor conselho que já recebeu na vida. Leia abaixo: 

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O que você aprendeu sobre racismo estrutural no Brasil?
Aprendi que não sabia nada do assunto e que jamais saberei o bastante. Racismo estrutural é também uma ignorância estrutural e eu tenho muita clareza que vivia e que, de alguma forma, ainda vivo nesse limbo. Aprendo todos os dias com muita gente que, generosamente e acima de tudo com muita compaixão, tem me ajudado a caminhar de forma mais humana nesse mundo. Djamila [Ribeiro], Luana [Génot], Maíra [Azevedo, a Tia Má], Regina [Casé], Cintia [Rosa], Tais [Araújo], Jane [Cristina]… São mulheres e mães que têm me ajudado com muita informação e com corações sem tamanho. E tenho aprendido muitíssimo com minha filha, que me ensina força, respeito e generosidade todos os dias.

Por que existe tanta resistência às políticas afirmativas?
Acima de tudo, por falta de informação. Desde o entendimento de que a escravidão foi um holocausto que durou 350 anos e da constatação de que o fim da escravidão foi algo que nossa sociedade nunca superou, falta a noção de que falar de meritocracia nesse contexto é uma armadilha e talvez a maior das ilusões. Também uma falta de visibilidade sobre todas as transformações que as políticas afirmativas já trouxeram ao Brasil nesses 15 anos – para negros e também para brancos. Sou iniciante nesse debate, mas há mensagens e informações que têm de ser colocadas na mesa. Busco com quem entende, busco entender e faço ações afirmativas no espaço que me é dado e em meu próprio discurso.

Bruno Gagliasso  (Foto: Alessio Boni)

Mesmo branco, e com todo o cuidado que procuro ter com lugares de fala, não posso me calar. Lembro do Mano Brown falando da importância do branco que se propõe a lutar contra o racismo e, com todo respeito, acabo por seguir comprando esse barulho que pode até não ser meu, mas é da minha filha. Se ilude quem acha que posso me beneficiar financeiramente com isso. Quem fala isso parece esquecer o país racista e reacionário em que vivemos. A alienação ou ser chapa branca seria um posicionamento muito mais estável, mas essa possibilidade já não existe mais para mim. Abri os olhos e vi um mundo que precisa mudar.

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Como é o Brasil no qual você gostaria que a sua menina crescesse?
Tenho muito receio de que minha filha escolha morar em outro país para viver sua vida e sua cor em plenitude. Ela saiu do país mais pobre do mundo, e mal sabia que iria parar em um dos países com maior injustiça social do mundo. Portanto, respondendo sua pergunta, meu amigo, gostaria muito que minha filha pudesse crescer em um Brasil com justiça social. Não precisa ser o Brasil mais rico, mas seria fundamental que fosse um Brasil mais justo.

Bruno Gagliasso  (Foto: Alessio Boni)

Por que você acha que nos momentos de crise a arte e os artistas são violentamente atacados?
Existe uma campanha de difamação e desconstrução do pensamento progressista, e a classe artística é a grande vitrine disso. Sempre foi. Todo autoritarismo silencia os artistas. A arte traz questionamentos e esperança, enquanto essa gente quer medo e conformismo. Faço também uma autocrítica. As redes sociais deram a possibilidade de todo mundo se manifestar por qualquer coisa e, às vezes, até na intenção de ajudar, caímos na armadilha de pensar que se posicionar é apenas fazer post no Instagram. Não é. Temos que aprofundar, dialogar de verdade, ter propriedade para falar.

Qual a coisa mais bonita que já viu, ouviu ou leu?
Acabei de ler o último livro da Djamila Ribeiro [O Que é Lugar de Fala?] e achei muito importante, e muito bonito, pela forma direta com que ela trata dos assuntos, pelo simples fato dela ter esse espaço e ter usado de uma forma que pode ajudar a transformar muita gente. Lembro também de Pixinguinha falando de viver e não ter vergonha de ser feliz e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz, e me identifico de verdade com isso.

Bruno Gagliasso  (Foto: Alessio Boni)

Quem são seus ídolos, Bruninho?
Minha avó Emilia, a Dona Miloca, e seu Manuel. Meus avós conseguiam reunir a família nos Natais, aniversários e almoços de domingo. Ninguém era obrigado a ir, mas todos os filhos, netos, bisnetos iam porque os amavam e queriam estar juntos. Quando penso no futuro, penso no amor, e a imagem que me vem é a deles. É isso que quero para minha vida. Ser como eles… Quero família grande, reunida por amor. Eles são meus exemplos e se mantêm vivos em nossos corações.

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Você já se conhece bem?
Minha filha chegou e minha vida mudou, virou de cabeça para baixo. Será que eu conhecia aquele Bruno de 5 anos atrás? Será que conheço o de hoje? Gosto de ter a sensação de que conheço, mas sigo vivendo e aprendendo sempre.

Qual o melhor conselho que você já recebeu?
Verdade sempre. Lidar com a vida sempre através da verdade; encarar com a verdade qualquer situação que vier; ser de verdade com todas as pessoas; viver a partir do que for verdadeiro. Se eu disse algo no passado que hoje me envergonho, não pretendo lidar com isso apagando o passado, mas lidando com ele hoje e sendo uma pessoa melhor sempre. Só encarando a verdade com a verdade que a gente evolui.

Hair: Alessandro Rebecchi
Make-up: Giuly Valent
Produção de moda: Mari di Pilla (Milão); Vini Coni e Rogério Martinez (SP)
Produção executiva: Sara Barbara
Assistentes de produção: Egidio Sterpa e Stefano Marusic
Assistentes de fotografia: Luca Truchet e Michael Rudd
Agradecimentos: Catrina Kowarick, Francisco Tellechea, Kevin, Tekinel, Laurent Goldblum, Lucas Wild, Rob, Pacheco, Rodrigo Crespo, Olga Ushakova
Agradecimento especial: -D’ARIA

Fonte oficial: GQ

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