GQ Vozes: a hora e a vez de Silva – GQ

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“Gente, quem é esse?” é a pergunta mais repetida ao fim de um show do cantor capixaba Silva no fim de junho em São Paulo. Mas não por falta de conhecimento em relação a ele. Todos os curiosos presentes ali no camarim são seus familiares, amigos e colegas. Todos acostumados a, nos últimos seis anos, ver o rapaz tímido de voz bonita subir no palco, cantar, agradecer e ir embora. Por isso a surpresa ao vê-lo naquela noite tão falante, solto e bem-humorado, dominando com tiradas e histórias uma apresentação de quase duas horas da turnê de seu disco mais recente, Brasileiro. Não era possível que aquele fosse o Silva que conhecemos. Mas é

“Pela primeira vez na vida estou muito seguro do que estou fazendo”, diz o músico de Vitória durante um almoço, semanas antes, com a GQ. “Estou vivendo a melhor fase da minha vida, em todos os sentidos: família, relacionamento, profissional, tudo. Quero levar a coisa assim desse jeito, sem planejar muito. Antes eu tinha uma insegurança muito grande. Quando entrava no palco ou dava uma entrevista, ficava me policiando, pensando se podia falar tal coisa ou não. Agora eu já achei o jeito que eu sou. Vou ser assim, vou falar as coisas que eu penso”.

O que Silva (ou Lúcio, para os mais próximos) pensa é causa e efeito de algumas mudanças recentes em sua vida. Da meditação às novas amizades, passando pela chegada dos 30 anos e por relacionamentos mais estáveis, o músico consegue, segundo ele mesmo, se enxergar melhor agora. E a mais visível dessas diferenças para nós, que o chamamos de Silva, é musical.

 

Brasileiro

“Quando comecei, todos os sites de música indie me amavam”, lembra. Eu nunca me enxerguei assim, mas a galera mais cool me abraçou. Só que essa galera gosta de música igual a galera da moda gosta de moda: a cada seis meses muda o estilo, a coleção, a tendência e você tem que mudar também. Eu não vou ficar nessa, fazendo música pra jornalista, pra ganhar prêmio. Quero fazer show, quero tocar por aí, quero ter público, quero que as pessoas gostem da minha música e cantem comigo.”

O tom é de brincadeira, mas o discurso é de certa forma radical – e a mudança também. Silva pode até ter ganhado o carimbo de “nova MPB” com o pop sintético brasuca apresentado em Claridão, de 2012, mas hoje esse primeiro álbum é visto por ele como “muito gringo” e recheado das influências de música eletrônica acumuladas na época em que foi músico de rua na Irlanda – para onde se mudou aos 21 anos a fim de aprender inglês. “Mesmo o Júpiter, que é só de três anos atrás, é completamente diferente. Enjoei dele”, diz.

GQ Vozes: Silva' (Foto: Jonathan Wolpert e Breno Galtier)

 

Não à toa foi apenas agora, com Brasileiro, um álbum inspirado em João Gilberto e Darcy Ribeiro, calcado na voz e no violão e com faixas que vão da bossa ao samba (mas com um sintetizador aqui e outro ali), que ele assumiu o rótulo de vez. “Outro dia um motorista do Uber viu meu violão e me perguntou o que eu toco. Falei: ‘é MPB’. Ele disse: ‘tipo Ana Carolina?’ E eu respondi: ‘tipo Ana Carolina!’”

A nova fase musical é a deixa para abraçar esse novo público – Silva está feliz com as “cabecinhas brancas” que começam a aparecer em seus shows – e também uma nova forma de encarar a vida. De família de músicos protestantes, foi “criado pela avó”, na igreja, participou do coral e estudou música erudita. Largou tudo e mergulhou na eletrônica, mas sempre teve no violão um amigo de infância e uma forma de conexão com um passado musical confortável.

GQ Vozes: Silva' (Foto: Jonathan Wolpert e Breno Galtier)

 

“Na minha casa, essa parte da MPB mais clássica, tipo um João Gilberto, era permitida”, lembra. “Mas na hora que chegava Caetano, Gil, Gal, era aquilo: é macumba, terreiro. Rolava uma proibição. Mesmo assim meu avô, que era pastor, foi um dos maiores incentivadores da minha vida musical. Ele comprou meu violino, pegava um ônibus e ia até Belo Horizonte comigo só pra eu poder estudar. A gente pegava oito horas de viagem pra ter uma hora de aula de violino. Tenho uma relação muito boa com isso. No começo chutei o balde, fiquei meio revoltadinho com esse negócio de igreja, mas tem tanta coisa boa que veio desse lado.”

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De Marisa a Anitta

Além da família, o mergulho na música brasileira veio também muito graças a algumas das amizades que o músico fez nos últimos anos. Uma delas em especial. Silva é um dos poucos seres humanos neste planeta que têm o privilégio de serem amigos próximos de Marisa Monte.

Tudo começou quando ele escolheu a cantora para interpretar no programa Versões, do Canal Bis, em que jovens músicos cantam clássicos de décadas passadas. “Não sei como, mas ela soube que eu fiz isso e me mandou um e-mail dizendo ‘Ei, Sil, tudo bem? Te acompanho desde o começo. Muito obrigada pela homenagem, fiquei muito emocionada, muito feliz. Quando vier ao Rio, me escreve, aqui meu WhatsApp’. Eu surtei”, conta entre risos nervosos.

GQ Vozes: Silva' (Foto: Jonathan Wolpert e Breno Galtier)

 

O santo bateu e a amizade rendeu a Silva não apenas uma parceria musical e uma passagem só de ida para a MPB com o Canta Marisa, mas também um modelo. Como cuidar da voz, como lidar com públicos chatos, como se posicionar politicamente com elegância. O capixaba presta atenção a tudo que Marisa faz e guarda na cabeça. “Ela tem essa coisa de música em primeiro plano”, diz. “Comecei a ver também o que eu gostava e não gostava na música. Enjoei de coisas eletrônicas, comecei a ver que eu curtia mais a minha voz. Fui me sentindo mais seguro pra fazer coisas novas. Até pra fazer algo mais pop.”

E que jeito melhor de chegar no pop do que ciceroneado pela mulher mais midiática do país? A parceria com o furacão chamado Anitta na música Fica Tudo Bem rendeu a Silva todos os louros que se recebe ao entrar no universo popstar: ampla divulgação, convite para programas de TV e, sobretudo, centenas de milhares de seguidores nas redes sociais – 50 mil depois da primeira foto em que apareceram juntos divulgando a parceria, vale dizer.

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“A gente é completamente diferente, tipo água e vinho”, conta Silva sobre Anitta. “Ela é ariana e eu canceriano. Ela é ligada no 220 o tempo inteiro e eu super tranquilo, maconheiro. Mas o que pegou foi que eu mandei a música pra ela, ela ouviu, gostou e já me mandou mensagem na hora. A gente nunca tinha se falado e semanas depois estávamos gravando o clipe juntos. Porra, eu tô acostumado com o meio indie, mando música para os amigos e eles demoram semanas só pra dizer que acharam tal acorde muito simples”, ri.

Nessa soma de Marisa com Anitta, Silva parece ter chegado a uma consciência plena de seu infinito particular em meio ao universo musical. “Adotei essa coisa de não se levar muito a sério”, confessa. “Estou tentando ser bem de verdade. Se deixar, você vai ficando meio fabricadinho. Não posso falar isso, não posso fazer aquilo. ‘Você não pode ser tímido.’ Por que não? Deixa eu ser tímido. Deixa eu ser do meu jeito.”

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Feliz e ponto

Foi com muita terapia, além das amizades, que Silva aprendeu a definir o que é esse jeito e a se sentir confortável para tratar pessoal e profissionalmente de temas como sua própria sexualidade. Hoje, ele brinca ao falar com naturalidade que se fosse hétero casaria com Marisa (e quem não?) e que frequenta “de boa” a casa evangélica da família com o namorado Fernando.

“Foi um processo”, reconhece. “É uma desconstrução que você faz com respeito. Você não vai mudar uma pessoa preconceituosa no grito. Acho que a arte tem esse efeito de ir pela beirada, de conquistar. Meu pai, quando viu o clipe de Feliz e Ponto [de 2015, em que Silva aparece pegando um cara e uma garota ao mesmo tempo] ficou um mês sem falar comigo. Falou que estava super chateado, pediu para eu não me expor, meio com vergonha. Hoje ele é um cara completamente diferente.”

A conexão com a família reflete no trabalho. Os irmãos cuidam da carreira de Silva. Lucília, dois anos mais velha, fica com a produção dos shows, enquanto Lucas, seis a mais, é o responsável pelas finanças – e pela maior parte das letras. “Ele me complementa”, diz o caçula. “Eu gosto de cantar as coisas que ele escreve, porque ele me conhece muito bem, sabe exatamente o que caberia na minha boca, o que estou vivendo. Mas ele ganha 50% de tudo, né? Ele é meu sócio e isso é bom também, porque daí ele não faz corpo mole”, brinca.

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GQ Vozes: Silva' (Foto: Jonathan Wolpert e Breno Galtier)

 

No meio fio

Com o trabalho e a vida pessoal azeitados, o Silva que conta quase sua vida inteira no intervalo de um almoço não parece sofrer tanto das questões mundanas – aquelas que nos levam à terapia. É quase possível perceber nele uma aflição diferente, subliminar, uma dúvida comum às pessoas que vivem da arte e se chocam com a fama: como ganhar o mundo sendo a mesma pessoa de sempre?

“Não sei se tenho mais vontade ou medo”, diz sobre a possibilidade de virar alguém muito famoso. “Tenho várias pessoas na minha vida que sumiram, desapareceram, principalmente depois dessa coisa da Anitta. Acho que me viram indo para outro lado. Isso rola no meio musical. Cansei disso, quero fazer música que emocione as pessoas. Gosto de não ter vergonha de fazer uma música bonita.”

GQ Vozes: Silva' (Foto: Jonathan Wolpert e Breno Galtier)

 

Todo o resto mudou. Silva agora escolhe suas roupas para os shows baseado nas cores  – “cansei do preto e branco” -, abraçou novos gêneros, parou de fumar cigarro, medita, passa horas estudando música e responde ironicamente aos xavecos que recebe ao vivo entre uma música e outra em cima do palco. Ao mesmo tempo, as músicas bonitas estão lá, ele continua gostando de pastel, arroz, feijão e se sentindo cada vez mais ele mesmo. O que nos leva à questão inicial: quem é esse, afinal?

“Eu quero ser um músico foda”, crava. “Todo mundo tem suas ambições. A Anitta vai ganhar o mundo. Tem gente que quer tocar pro Maracanã lotado. E eu quero ser um músico bom. Tipo, tocar pra caramba, cantar pra caramba, fazer uma música incrível. Essa é a vontade que eu tenho. Se isso vier junto com ganhar o mundo e tocar no Maracanã lotado, não vou reclamar.”

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Styling: Gabriel Feriani
Direção de arte: Nicollas Beirigo
Fotos: Jonathan Wolpert e Breno Galtier
Grooming: Roni Modesto 
Agradecimentos: Michell Lott

Fonte oficial: GQ

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