GQ Vozes: Jão está pronto para o sucesso de sua “sofrência pop” – GQ

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“Cara, eu sou do interior de São Paulo, de uma cidade de 30 mil habitantes, eu não sabia o que era Gucci.” A frase vem de um músico que, em um de seus últimos videoclipes, Vou Morrer Sozinho, alcançou mais de cinco milhões de visualizações no YouTube – no vídeo, ele e todos os atores que o acompanham vestem Gucci.

O sucesso repentino e as mudanças de vida que ele traz poderiam explicar de forma bem resumida o que aconteceu com João Romania nos últimos 18 meses. Acontece que, na trajetória de Jão, como ele é conhecido, nada foi repentino. Rápido, sim, mas não de surpresa.

Jão (Foto: Vivi Bacco)

Como ele mesmo diz, e o sotaque ajuda a confirmar, Jão é um garoto do interior. Nascido em Américo Brasiliense, cidade vizinha a Araraquara, se mudou para a capital do estado há cinco anos para estudar publicidade, mas já com outros planos na cabeça. “Escolhi São Paulo para poder tentar uma carreira musical”, resume. “Claro, pensei em aprender umas coisinhas na faculdade pra me ajudar, mas o objetivo sempre foi esse”.

O resultado? Aos 23 anos o cantor tem hoje uma das carreiras em maior ascensão do Brasil, com mais de 40 milhões de visualizações no YouTube, um álbum recém-lançado, Lobos, e prestes a entrar em sua primeira turnê – e a começar seu TCC. “Não comecei ainda”, diz num riso meio envergonhado. “Mas, Deus queira, vou terminar neste semestre. Vou ter que arrumar um domingo, estudar de madrugada, vai rolar”.

Sucesso se faz em casa

Jão (Foto: Vivi Bacco)

Jão vem de uma família musical. O avô era trompetista da banda da Polícia Militar, uma prima é cantora gospel e “em toda festa tem alguém com violão”. “Eu e minha irmã cantávamos juntos”, lembra. “A gente assistia novelas tipo Chiquititas e cantava as músicas. Éramos meio que os palhacinhos da cidade, meu pai saía com a gente e ficávamos cantando na casa das pessoas. Foi aí que comecei a gostar de aparecer. Eu era na minha, mas na hora de me apresentar, de cantar, aquilo me transformava.”

O próximo passo foi mostrar esse talento para mais pessoas, principalmente para as pessoas certas. Depois de uns anos tocando em bar, em “palco de escola” e onde desse, Jão estabeleceu uma estratégia: fazer vídeos com covers de artistas famosos no YouTube e no Facebook. De Rihanna a Beyoncé, passando por Ed Sheeran, Pitty, Marília Mendonça e Maiara & Maraísa, todos ganharam versões.

Jão (Foto: Vivi Bacco)

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“Quando eu comecei, tinha um objetivo muito claro: chamar a atenção, ser notado e lançar meu material”, conta. “Eu não ficava muito vendo reação ou lendo comentário. Eu fazia o vídeo e, se passasse uma semana e ninguém de nenhuma gravadora mandasse mensagem, então fazia outro.”

Deu certo. Jão começou a viralizar cada vez mais e, num dia do Carnaval de 2017, recebeu o chamado da produtora Head Media, parceira da gigante Universal Music. Menos de um ano depois, os primeiros singles começaram a aparecer nas paradas. No último agosto saiu Lobos, o disco de estréia.

Drama e sofrência

Jão define seu próprio estilo como uma “sofrência pop”, embora faça careta ao falar o nome. Em Lobos, faz uma mistura entre batidas eletrônicas com letras confessionais e sons regionais. “Eu faço música pop, então óbvio que existe uma preocupação com melodia, com estrutura, se vai ser pegajoso, gostoso de ouvir”, conta. “Mas também gosto do contraste entre uma letra pesada e um beat mais leve, ou uma batida alegre com uma letra triste. Até por que eu levo minha vida assim, sou meio dramático.”

Jão (Foto: Vivi Bacco)

Os dramas cotidianos e autobiográficos de Jão serviram de combustível para um álbum que precisou ser gravado em tempo curto – “Chegamos a gravar oito músicas em três dias”, conta -, mas cujo resultado final agradou o compositor. “Senti um pouco de resistência”, confessa. “Acho que a galera do pop ficou meio sem saber onde me encaixar, mas as pessoas compraram a ideia. Todo mundo sofre por amor, todo mundo passa por uma merda.”

Para evitar sofrer ou se deslumbrar diante da nova vida de artista, Jão trabalha para manter a cabeça no lugar. “Eu me preparei muito pra isso”, afirma. “Sempre quis muito, desde quando postei o primeiro vídeo no Youtube. Minha mãe fica meio preocupada, se eu vou ficar lendo comentário negativo, se isso vai afetar minha autoestima, se não seria bom procurar um psicólogo… Mas são preocupações de mãe. Ela sabe que me preparei e que no fundo eu vou estar bem equilibrado quando essa turnê começar.”

Jão (Foto: Vivi Bacco)

Horizonte

Se rola muito papo com a família e seus produtores, Jão também sabe que ser um artista da música pop rende um dos públicos mais fiéis do meio, mas que exige uma manutenção mais trabalhosa. “Eu tento ser muito transparente”, afirma. “Tento conversar como conversaria com meus amigos. Acho que não tem mais espaço pra formalidades do tipo ‘ah, o artista não se mistura’. Isso é uma mentalidade muito anos 90 e, se o fã de pop é muito dedicado e caloroso, é porque o artista compartilha com ele sua narrativa.”

Jão (Foto: Vivi Bacco)

O cuidado com os fãs, muitos deles jovens, tem rendido frutos. Jão foi o vencedor do prêmio teen MTV MIAW 2018 na categoria dedicada a revelações, desbancando nomes como Iza e Baco Exu do Blues. O discurso, diz ele, sempre esteve pronto. Ganhar prêmios está nos planos do cantor, assim como fazer parcerias de sucesso e ser ainda mais famoso. Se em apenas um ano e meio ele já chegou bem perto disso, o que esperar dos próximos 18 meses?

“Lançar uns quatro álbuns, fazer show no Allianz Parque, cantar com a Anitta e a Marília Mendonça e ganhar um Grammy – americano, não latino”, brinca. É brincadeira, mas também não é. Jão sempre soube onde quis chegar. Podia não saber que vestiria Gucci um dia, mas o resto sempre esteve no horizonte.

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Styling: Gabriel Feriani
Direção de arte: Nicollas Beirigo
Fotos: Vivi Bacco
Assistente de fotografia: Tamires Prado
Grooming: Casagrande
Assistente de grooming: Grasiela Paz
Produção de moda: Caroline Albuquerque
Assistente de produção de moda: Mateus Almeida
Vídeo: Mauricio Joseb
 

Fonte oficial: GQ

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