GQ Vozes: Tim Bernardes é a voz de sua geração – GQ

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Tim Bernardes veste: jaqueta e calça Z Zegna; tricô gola rulê Minha Avó Tinha; meia acervo; tênis Converse.(Foto: Takeuchiss)

“Você não é o moço daquela banda?”, pergunta a barista ao reconhecer o rosto (e talvez o cabelo, o jeitão, ou tudo junto) de Tim Bernardes parado do outro lado do balcão. “Não sei, sou?”, brinca o músico antes de dizer que sim e, em troca, receber um elogio pelo seu trabalho acompanhado de um expresso. Xícara na mão, antes mesmo de se sentar ele é abordado novamente por duas pessoas, dessa vez jovens fãs com quem posa para fotos e agradece mais elogios. Na mesa ao lado, um casal de idosos observa com médio interesse, talvez se perguntando o motivo de tanta comoção no quase sempre quieto e blasé café da Reserva Cultural, em São Paulo.

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Mais do que algo corriqueiro, o intervalo de três minutos no café serve como metonímia do que Tim Bernardes tem passado nos últimos dois anos. Entre o reconhecimento pelo que faz à frente d’O Terno e o elogio pela exitosa estreia solo com Recomeçar, seu primeiro disco solo, ele segue refletindo sobre quem é, percebendo as mudanças que o fim dos 20 anos trazem e traduzindo essas palavras e pensamentos em suas canções. Quase automaticamente, virou voz de sua geração.

Tim Bernardes veste: camisa Lacoste; calça acervo.(Foto: Takeuchiss)

“Acho que sou uma cobaia de mim mesmo, um sujeito que está vivendo esta geração e fala sobre isso”, analisa o músico de 28 anos que é ao mesmo tempo fruto e fertilizante do meio em que vive. “É mais fácil eu me entender e falar algo específico de mim do que ficar tentando entender qual é a geração, qual é o grupo. Se não dá para entender tudo, deixo meu campo de estudo ser um pouco menor. Pode ser eu, pode ser meu bairro, pode ser um sentimento específico”, explica.

Jogo de cintura

Antes de ser causa ou consequência, contudo, Martim Bernardes era um jovem com alguns instrumentos e amigos – o que em qualquer lugar do mundo resulta em banda. Em 2009, ele, Guilherme D’Almeida e Victor Chaves criaram O Terno do alto de seus 16 anos imbuídos por uma “vontade de explodir as coisas”. São quatro álbuns desde então: 66 (2012), O Terno (2014), Melhor Do Que Parece (2016) e atrás/além (2019). Embora cada um seja “um retrato de uma fase” (e o primeiro conte com cinco faixas compostas por Maurício Pereira, ex-Os Mulheres Negras e pai de Tim), em todos ele pôde apresentar mais um pouco de si mesmo em suas letras.

Tim Bernardes veste: camisa e sapato Gucci; calça Ricardo Almeida; cinto e meia acervo.(Foto: Takeuchiss)

“Quando eu comecei a fazer música, sentia as coisas um pouco abstratas demais e tinha vontade de apresentar algo mais concreto”, conta. “Mesmo falando sobre temas abstratos, queria que fosse de forma clara. Pode ser um término de namoro, uma música engraçada… Não me interessam muito coisas metafóricas ou poéticas demais, queria coisas coloquiais, que falassem como as pessoas falam”, completa.

A mistura de rock leve com interpretações escrachadas de questões contemporâneas da jovem classe média paulistana acertou em cheio uma geração simultaneamente afogada e órfã de músicas com as quais se identificasse. “Era um momento em que o indie estava muito blasé e não se levar a sério quebrava um pouco isso”, analisa Tim. “É meio ridículo quando você se leva muito a sério, sabe? Eu tenho uma certa irreverência, uma coisa de não respeitar tanto as coisas que eu me identifico. É uma coisa que a banda do meu pai tinha, a Rita Lee tem, Os Mutantes tinham. Um humor mesmo. Não precisa ser uma banda de piada, mas tem que ter um jogo de cintura, um jeito de lidar com a coisa. Não ter medo nem de escrachar, nem de falar sério”, explica.

Tim Bernardes veste: Costume e tricô gola rulê Minha Avó Tinha; meia acervo; tênis Vert Shoes. (Foto: Takeuchiss)

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Emancipação

Enquanto tudo isso acontecia, o caminho para a carreira solo – tocada simultaneamente à com a banda – foi sendo construído naturalmente. As músicas foram aparecendo ao longo dos anos e sendo “guardadas na gaveta” por Tim. Apesar de uma construção continuada – há faixas feitas durante quase toda a última década- Recomeçar marcou de fato uma espécie de ruptura. O álbum convergiu com algumas mudanças na vida do músico, como morar sozinho, encarar uma longa turnê internacional com O Terno e terminar um relacionamento. “Foi um momento de dar uma respirada, de pensar no que eu estava fazendo”, reflete. “Agora estou de novo criança e aprendendo, procurando”, completa.

Tim Bernardes veste: Costume e tricô gola rulê Minha Avó Tinha; meia acervo; tênis Vert Shoes.(Foto: Takeuchiss)

Para isso, foi preciso mergulhar em si mesmo. Trabalhar em letras tão profundas e pessoais foi, segundo Tim, um ato de se abrir ao mundo e expor parte de seus sentimentos a outras pessoas. “Sou muito seguro e muito inseguro ao mesmo tempo”, reflete. “Sei o que quero, mas gosto muito de agradar o outro. Então, por saber disso, fico sozinho até chegar no que eu quero e aí quando a coisa já está sólida eu posso mostrar para o outro sem estar tão exposto”, afirma.

Com esse método, Tim encara a produção musical como a agricultura. Para ele, “fazer música é como planejar safras, tem que pensar em quando vai colher”. Agora, passado o período mais Recomeçar, é o momento de colher com O Terno. Mas será possível separar? “A mistura do individual com o coletivo é um momento de emancipação para todos nós”, diz sobre a união de duas carreiras em uma única pessoa. “Nesse tempo, deixamos de ser um grupo de moleques e viramos indivíduos que fazem algo juntos”, reflete.

Tim Bernardes veste: jaqueta e calça Lacoste; bolsa Gucci; meia e sapato acervo.(Foto: Takeuchiss)

Recomeçar

Crescer e envelhecer parece ter também derrubado quaisquer barreiras sobre escrever músicas mais sentimentais. “Eu gosto de ouvir música assim, me toca”, brinca. “Coisas que são bem próprias mas universais, porque são íntimas, são simples. Crises existenciais e amor são assuntos que existem desde sempre. O que muda são pontos de vista e o contexto de eu ser um cara de 28 anos agora em 2019 e como recebo isso. Fui ficando mais desenvolto, mas a coisa também vai ficando mais desafiadora e eu estou sempre buscando fazer coisas que eu não fiz ainda. É sempre uma busca que não é óbvia”, reflete.

Tim Bernardes ainda é o “moço daquela banda”, mas agora parece saber que carrega consigo um peso maior dentro de seus pares – de idade e de profissão. “É uma fase muito peculiar, porque é um segundo nascimento meu como indivíduo”, diz. “É eu me bancar como um artista, sabe? Quase como se o tempo todo, de lá pra cá, tivesse sido para eu ir me formando como compositor e hoje em dia eu me sinto um pouco mais pronto. Eu me considero um compositor. No fim das contas, o que eu faço desde sempre é canção”, conclui.

Tim Bernardes veste: macacão À la Garçonne; meia acervo; bota Ricardo Almeida. (Foto: Takeuchiss)

Fotos: Takeuchis
Styling: Gabriel Feriani
Direção de arte: Leandro Bicudo
Grooming: Marilio Bitarello
Produção de moda: Mateus Almeida e Manu Fiães

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Fonte oficial: GQ

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