Ivaldo Bertazzo faz um alerta para os sedentários: “Ficar parado enferruja, atrofia” – GQ

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Um dos maiores nomes da dança e da reeducação do movimento, Ivaldo Bertazzo acredita no ditado: “Dance e seus males espanta”. Seu trabalho à frente da Escola do Movimento (criada em 1974), seus tutoriais em vídeo, livros e peças propõem visões artístico-terapêuticos sobre o corpo e a mente. Próximo Passo, seu espetáculo mais recente, trouxe um elenco de não-bailarinos com histórico de depressão – “Utilizamos a dança como plataforma para resgatar a confiança e a motivação dessas pessoas, agindo como apoio ao tratamento com o remédio”, explica.

Quando pensamos no Brasil, nos vêm logo à cabeça uma certa malemolência no gesto, um dançar espontâneo do caminhar. Para o coreógrafo e professor, temos uma herança africana de movimento vinda do Maculelê – “um sistema de coordenação que educa um jovem a perceber espaço e ter prontidão motora”. Porém, também sofremos com o efeito “dancinha da garrafa” – “o brasileiro tem pouca coordenação nas pernas e braços ao dançar. Tudo está muito fixo na bacia”.

Leia a entrevista na íntegra em que Bertazzo convida sedentários de todas as idades para sair do sofá (agora):

GQ Brasil: Em suas aulas, cursos e espetáculos, o que é mais difícil ao começar a estudar e praticar movimentos?
Ivaldo Bertazzo: Nós trabalhamos a reeducação do movimento, que está diretamente relacionado à memória cerebral. É uma mudança de hábitos, de postura, de respiração, e tudo isso exige atenção e prontidão. É como aprender a dirigir: no início, o motorista presta muita atenção na mudança de marchas, até que vira algo natural. Criei a Escola do Movimento em 1974 e, desde então, trabalhei em inúmeras frentes, preparando as pessoas para o cotidiano, para elas funcionarem saudavelmente em sua respiração, circulação e digestão ao longo de toda vida. Começo minhas aulas com caminhadas dentro da sala e movimentações nos braços para que o corpo entre em aquecimento. Depois iniciamos trabalhos mais específicos no psicomotor, como a organização respiratória, força nos braços, nas pernas.

GQ Brasil: Em suas pesquisas sobre gestual de diversos países, o que nota do movimento dos brasileiros? Temos um gestual codificado que é nosso?
Pesquiso outras culturas pelo mundo para complementar o que nós possuímos. O grande legado que temos é o Maculelê, de origem africana e que chegou aqui por meio de imigrantes. É um sistema de coordenação que educa um jovem a perceber espaço, ter prontidão motora. Mas o brasileiro tem pouca coordenação nas pernas e braços ao dançar. Tudo está muito fixo na bacia e pejorativamente poderíamos associar à ‘dancinha da garrafa’. É uma dança erótica e interessante ao adulto, mas não no desempenho psicomotor da criança. Por isso temos que prestar atenção no frevo, em algumas catiras com percussões no pé e danças do Xingu. O Brasil não é só samba.

GQ Brasil: Pessoas que não têm histórico de exercícios físicos (ou de dança) podem começar a se movimentar em qualquer idade? O que indicaria?
Ivaldo Bertazzo: Não só podem, como devem. Tenho uma aluna que começou a se exercitar comigo aos 50 e hoje tem 94. Dirige, toca piano, tem uma vida social ativa, uma cabeça maravilhosa (de dar inveja), está sempre bem informada e bem-disposta. Ela sempre diz que se tivesse começado a se exercitar mais cedo, teria ganhos ainda maiores. Tudo o que fica parado para de funcionar ou quebra. Com o corpo humano não é diferente. A falta de atividade física traz prejuízos ao corpo, claro, mas para a mente também. Nós precisamos refinar os gestos, estimular a psicomotricidade, cuidar da postura, do olhar.

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Ivaldo Bertazzo (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: Com o envelhecimento da população brasileira, vê uma preocupação com a saúde física destes indivíduos (você já mencionou sobre exercícios de motricidade fina que devem ser feitos após os 50)?
Ivaldo Bertazzo; Após os 50 é importante incluir na rotina exercícios psicomotores. De que adianta malhar na academia para não despencar e sequer conseguir enxugar os pés pois o corpo não dobra direito, ou até mesmo ter dificuldade em abrir a tampa de um vidro, ou não ter mais apreensão nas mãos para segurar objetos?

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GQ Brasil: É mais grave não se movimentar ou ter um histórico físico e depois parar?
Ivaldo Bertazzo: O corpo humano tem memória. Claro que é mais fácil um atleta recuperar sua condição física, mas sedentários têm toda condição de ver ganhos rápidos quando se propõem e se dedicam ao movimento. Ficar parado é que é o problema – enferruja, atrofia.

Veja vídeo do Método Bertazzo que ensina como prevenir a artrose nas mãos:

GQ Brasil: Você vai começar novo novo curso para formação no Método Bertazzo. A descrição fala de ganhos físicos, emocionais e de saúde. Pode citar exemplos destes ganhos?
Ivaldo Bertazzo: Desde 2010, já formamos mais de 3 mil profissionais. O objetivo do Método Bertazzo é justamente desenvolver a psicomotricidade humana, aumentando a capacidade de concentração, organização do sistema cognitivo e intelectual, ampliando o poder de comunicação e linguagem de alunos e professores. Para isso, proponho diversos exercícios com recursos e materiais facilmente disponíveis nas escolas como, por exemplo, cabos de vassoura e garrafas plásticas – que podem ser utilizados em exercícios para ganho de tônus, equilíbrio, amplitude articular, respiração e até memória. A formação gratuita, viabilizada por meio da lei de incentivo fiscal, é dirigida para arte-educadores e profissionais da cultura, como músicos, cantores, bailarinos, circenses etc. Este curso tem 72 horas de carga horária (são 9 dias intensos que promovem a transformação no corpo e mente do aluno). Além dessa formação gratuita, que nesse ano tem patrocínio da Sabesp, Instituto Votorantim, Docol, Consórcio Primo Rossi e Governo do Estado de São Paulo, temos o curso pago, bastante procurado por profissionais da saúde (fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, psicólogos), educadores físicos etc. 

Fonte oficial: GQ

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