Jair Naves canta o sentimento de estrangeiro no Sesc 24 de Maio – GQ

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Jair Naves (Foto: Meredith Adelaide)

Jair Naves sobe no palco do teatro do Sesc 24 de Maio, no centro histórico de São Paulo, na noite desta terça-feira (30), como quem já está indo embora. Músico importante do cenário underground paulistano na última década, ele faz a última apresentação da turnê do seu terceiro álbum solo, Rente. Após a apresentação, ele deverá voltar para a casa, em Los Angeles, nos EUA, onde vive com a esposa, a atriz e musicista Britt Harris, desde 2017.

“Tem tudo para ser memorável”, diz o cantor à GQ, vendendo o seu peixe e antecipando o clima de “até logo” do show. Estabelecendo uma vida no exterior, ele não deixa se preocupar com os amigos que ficarão no Brasil. Neste álbum, o artista expõe sua preocupação com os rumos da terra-natal. Em Veemente, primeira faixa do álbum, ele canta como se fosse um prenúncio: “minha terra é uma bomba a ponto de explodir”.

“Temos passado por situações tão absurdas e chocantes, de forma tão corriqueira, que no período de composição desse disco eu simplesmente não conseguia pensar em outra coisa”, revela o cantor, admitindo que a mudança para os EUA influencia na sua visão sobre o cenário brasileiro. Mas sem “viralatismo”. “Sair daqui fez com que eu valorizasse aspectos nossos aos quais antes talvez eu não desse tanta atenção”, analisa.

Além da preocupação com os que estão longe, Jair Naves não deixa de abordar temas introspectivos, como a dificuldade em se adaptar à terra nova. “A sensação de ser estrangeiro nunca é das mais confortáveis”, conta. “Tenho aprendido muito, crescido como pessoa, absorvido informações novas. Creio que muito do que está em Rente vem dessa experiência”, conclui.

Confira abaixo o papo na íntegra:

GQ: Jair, muito obrigado por falar com a GQ. Depois de dois discos tidos como “pessoais e introspectivos”, você lança Rente, um álbum que vem sendo descrito em muitas resenhas como”político”. Para começar a nossa conversa, eu gostaria de partir justamente deste termo: para você, existe algum tipo de arte “apolítica”? A política seria algo realmente novo em sua carreira?

Jair Naves: Eu que agradeço, fico feliz em falar com vocês. Eu sinceramente acredito que todo tipo de posicionamento, especialmente em tempos como os atuais, seja no Brasil ou em diversos outros países, tem um viés político. Ainda bem que você tente se abster de temas sociais ou qualquer coisa nessa linha, a simples preocupação em não querer tocar em assuntos espinhosos já pode ser considerada uma declaração de intenções. Então, seguindo essa linha de raciocínio, mesmo que você busque fazer da sua manifestação artística uma forma de escapismo da realidade, existe algo sendo dito aí.

E não vejo a política como algo novo na minha trajetória. Talvez eu não falasse disso de forma tão aberta nas músicas antigamente, claro, mas uma análise mais aprofundada do quadro geral mostra que ela sempre esteve lá. De forma mais sutil nas letras e explícita, nos shows e nas interações com o nosso público. É algo que eu tento passar para os meus ouvintes desde meus primeiros shows. Se eles quiserem, eles devem lutar para vir a ocupar qualquer que seja o espaço que eu esteja ocupando. E essa troca por si já é um tremendo ato político, na minha visão.

Jair Naves (Foto: Meredith Adelaide)

GQ: Apesar da ampla questão sobre “música política”, indiscutivelmente, o disco apresenta algumas reflexões explícitas sobre o nosso cenário político e social. Depois de anos abordando dilemas pessoais em suas letras, percebemos você preocupado com o coletivo, como fica explícito no verso “minha gente é uma bomba a ponto de explodir”, em Veemente. Você se tornou mais altruísta com a maturidade? Seria reflexo de uma evolução pessoal?

Jair Naves: Não creio que seja uma prova de altruísmo ou maturidade da minha parte. Claro que é muito difícil fazer uma suposição dessa natureza, mas pode ser que, se eu tivesse 18 anos hoje em dia e estivesse gravando meu primeiro disco, eu também estaria falando dessas mesmas coisas, provavelmente de uma maneira diferente. Temos passado por situações tão absurdas e chocantes, de forma tão corriqueira, que no período de composição desse disco eu simplesmente não conseguia pensar em outra coisa.

Esse verso que você citou é bem simbólico para mim. Considerando a situação política, social, ambiental e econômica do país e do mundo em 2019, a impressão que se tem é de um modelo de vida insustentável, por diferentes motivos. É inviável seguir assim por muito tempo.

Voltando um pouco à questão anterior, podemos tentar ignorar e falar de outras coisas, mas é algo que fatalmente voltará para nos assombrar. Vem um pouco daí também a ideia de “Rente” para o título do álbum: algo tão próximo, tão presente, que precisa ser abordado, e do qual você também faz parte, quer queira, quer não.

E esse é um ponto muito importante para mim. Não quis dar a impressão nessas músicas de que eu estou num lugar de superioridade moral, de que eu sou uma reserva de sensatez em meio a um mar de insanidade. Eu estou no meio disso. Você também está. E, de alguma forma, fazemos parte deste quadro tão preocupante.

GQ: É só olhar o noticiário brasileiro para concordar com o verso “minha terra é uma bomba a ponto de explodir”, ainda falando sobre a faixa de abertura do disco. Enquanto você produzia o disco, imagino que o caos político brasileiro tenha sido “inspirador” em alguns momentos. Como compositor que já escreveu tão bem sobre solidão, rejeição e males sociais, você sente que a sua arte bebe da fonte dos dias difíceis?

Jair Naves: Sinto que sim. No Brasil desse fim de década, um breve exercício de observação do cotidiano pode trazer muita coisa à tona. E eu também passei por uma mudança muito grande nesse período, em que comecei a viver em um novo lugar, sem minhas referências de sempre.

Gostei de você ter citado na sua pergunta a solidão como um dos pilares dessas composições. Talvez seja o meu disco em que o fator mais esteja presente. A solidão do estrangeiro, a solidão das minorias, a solidão dos que discordam, dos que não se encaixam em padrões pré-estabelecidos, sejam eles quais forem.

GQ: Você diz que “O homem reprimido é um câncer social” em O.H.R.E.U.C.S. Você acredita que a resistência masculina ao movimento feminista e LGBT, para citar só dois grupos importantes, ajuda a explicar a ascensão da extrema-direita no Brasil?

Jair Naves: Sem a menor sombra de dúvida. E também vale para muitos outros lugares do mundo, obviamente, mas é um aspecto impossível de ignorar nos resultados dessas últimas eleições no Brasil. É urgente que se repense e se discuta os modelos de masculinidade com que educamos os meninos desde seus primeiros anos de vida. Em todos os aspectos: na forma com que os homens lidam com as mulheres, uns com os outros, com seus próprios sentimentos, com aqueles que são diferentes… Sei que o termo usado nessa música que você citou, “câncer social”, não é dos mais leves, mas realmente acredito que esse modelo de “homem padrão” não está muito longe disso. E, de novo, não tenho intenção de me colocar num pedestal distante desse problema. Também fui criado nesse contexto, também percebo em mim sequelas dessa criação. Então que o verso seja um convite à autoanálise. É hora de aprender com quem vem sendo vítima desde sempre desse tipo de mentalidade, antes que um estrago ainda maior aconteça.

GQ: Em meio a tantas músicas urgentes, Gira é um respiro romântico. Um verso nela particularmente me chama a atenção: “Eu cresço, eu mudo, eu moldo/Tudo em torno de ti”. Você acredita no poder de transformação do amor? Uma única pessoa pode ser capaz de mudar a vida de outra para melhor e para sempre?

Jair Naves: O amor é a maior força, a maior motivação. Muito maior que o ódio, a vingança, a inveja ou qualquer outro sentimento negativo. Então eu acredito, sim, que o amor pode ser extremamente transformador. Não no sentido de mudar uma vida para melhor, porque infelizmente não existe essa coisa de “viveram felizes para sempre”. A união entre duas pessoas sempre trará algum tipo de atrito. Sem contar que não existe nenhuma garantia de que essa junção vá durar para o resto das vidas dos envolvidos – sendo honesto, a maior chance é de que isso não aconteça.

Mas eu acho que existe um enorme aprendizado no amor, em uma infinidade de diferentes aspectos, e não só quando está tudo bem. No sentido de aceitação, de lutar pelo bem de alguém, de entender as limitações e prioridades das outras pessoas, de respeitar as suas, de não se colocar sempre como prioridade ou como modelo de qualquer coisa.

Não sei, como todo mundo, eu também ainda estou aprendendo como funciona essa coisa toda (risos) Mas eu gosto mais da pessoa que eu sou hoje, depois de ter achado alguém com quem eu estou verdadeiramente disposto a dividir a vida.

GQ: Deus Não Compactua tem sido uma música bastante celebrada entre os seus fãs. Ouvindo o seu grito no verso “não tem fim”, a sonoridade me remete ao Ludovic, sua antiga banda (mais precisamente Você Sempre Terá Alguém A Seus Pés). A turnê de reunião do grupo em 2017 teve influência neste disco?

Jair Naves: Influenciou, sim. No meu disco solo anterior, muitas das músicas duravam entre cinco ou seis minutos. Logo depois do lançamento desse álbum começamos a trabalhar na turnê de reunião do Ludovic. A urgência daquelas músicas antigas fez com que eu quisesse cortar os excessos dessa vez. Talvez a música em que essa influência seja mais nítida é justamente Deus Não Compactua, mas a maior parte das faixas também traz essa ideia de ir direto ao ponto, ainda que não lembrem a sonoridade da minha antiga banda.

GQ: Aliás, o que podemos esperar deste show no Sesc 24 de Maio? Ao compor as músicas do álbum, você conseguia imaginá-las ao vivo? Podemos esperar algumas surpresas?

Jair Naves: Queremos priorizar o material do Rente, mas também tentar encaixar essas canções novas com algumas dos discos anteriores. Quando estávamos gravando esse disco, ficou claro que algumas faixas seriam quase impossíveis de serem reproduzidas ao vivo (Hino dos Estados Unidos como toque do seu celular, por exemplo). Mas queremos ver como essas composições funcionam nos shows no formato em que geralmente tocamos, como quarteto, de forma mais crua.

Estamos muito ansiosos para esse show. É o fechamento de um ciclo de dois anos, contando o período de pré-produção até essa apresentação de lançamento. Sem contar que também é o show de encerramento dessa turnê de lançamento. Tem tudo para ser memorável.

Jair Naves (Foto: Meredith Adelaide)

GQ: Você já disse que se inspira em Bob Dylan e Patti Smith – embora seja normalmente comparado ao Nick Cave. Porém, desde o primeiro disco do Ludovic, Servil, já se passaram 15 anos, tempo suficiente para refletir um legado. Você vê a sua influência em novos músicos da cena brasileira?

Jair Naves: Já ouvi músicos mais jovens falando que se inspiraram em algum momento no que eu faço, ou que minhas músicas tiveram importância para eles em determinadas passagens de suas vidas. Não sei se isso configura uma influência tão grande assim, mas receber palavras desse tipo é uma das maiores honras que alguém pode ter. É uma das coisas que me dão força para continuar nessa.

GQ: Recentemente, nós entrevistamos o escritor angolano Kalaf Epalanga, que nos ensinou um provérbio: “quando você está diante de uma árvore, precisa se distanciar para ver o tamanho da floresta”. Ter se mudado para os Estados Unidos fez a sua visão sobre o Brasil mudar de alguma maneira?

Jair Naves: Fez, sim. Mas não dá forma que muita gente imagina, aquela coisa deslumbrada, meio síndrome de vira-latas, achando que o país novo é uma espécie de paraíso em comparação com o Brasil. Muito pelo contrário: me fez perceber o enorme potencial que temos, como nossa cultura é uma das mais ricas do planeta. Temos uma bagagem enorme de problemas estruturais e sociais a serem combatidos. Ainda assim, sair daqui fez com que eu valorizasse aspectos nossos aos quais antes talvez eu não desse tanta atenção.

GQ: Em Escalas, aliás, você se pergunta: “Será que eu fiz bem em vir pra cá? E se eu estiver velho para me reinventar?”. A faixa tem um apelo emocional muito forte, reforçado pelo (muito bonito) violoncelo . Falamos sobre o Brasil de Jair Bolsonaro, mas como tem sido ser um estrangeiro nos EUA de Donald Trump?

Jair Naves: Eu moro numa parte do país que é uma espécie de ilha democrata, onde felizmente não é tão comum encontrar o típico eleitor do atual presidente dos EUA. Mas a sensação de ser estrangeiro nunca é das mais confortáveis; no início, te traz um tipo de estranhamento e solidão que é muito peculiar. Leva um tempo para você achar o seu lugar, as suas pessoas, até você conseguir se reinventar usando um novo idioma e em meio a costumes diferentes.

Dito tudo isso, não posso me queixar. Tenho muita sorte de poder viver com a pessoa que eu escolhi, de não ter nenhuma barreira legal nos separando. Encontrei pelo caminho pessoas que estão impedidas de viver com seus familiares por problemas dessa natureza. É algo que eu não desejo a ninguém.

Jair Naves (Foto: Meredith Adelaide)

GQ: O que você faz quando bate saudades do Brasil? Além dos amigos e familiares, o que te faz mais falta?

Jair Naves: Eu sinto falta da naturalidade com que a gente vive no nosso lugar de origem. Tudo funciona naturalmente no cotidiano quando você está no seu habitat, sabe como é? Para voltar à letra de Escalas, que você citou na pergunta anterior, essa coisa do “lugar em que eu sei como existir, o ar que eu sei como respirar”. Então, nesse sentido tudo faz falta: minha música, meu trabalho, meus amigos, a comida daqui, os lugares que eu gosto de ir e tudo mais. Ainda assim, novamente, é um privilégio enorme ter a oportunidade de passar um tempo em um lugar novo, conhecer a cultura e os costumes locais a fundo. Tenho aprendido muito, crescido como pessoa, absorvido informações novas. Creio que muito do que está em “Rente” vem dessa experiência.

JAIR NAVES 

Data: 30 de Julho de 2019 (terça-feira)
Local: Teatro do Sesc 24 de Maio –  Rua 24 de Maio, 109, Centro
Horário: 21h
Ingressos: R$9 (Credencial Plena do Sesc); R$ 15 (Meia); e R$ 30 (Inteira)

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Fonte oficial: GQ

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