Jean Wyllys diz que avisou colegas sobre ascensão de Bolsonaro: “Não me ouviram porque eu sou gay” – GQ

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Jean Wyllys não tem medo de dizer eu avisei: “Eu vi o Bolsonaro ganhando terreno e fiz alertas ao meu partido, meus companheiros de bancada, aos intelectuais que conviviam comigo… Mas nunca fui ouvido”, desabafa o ex-deputado federal. Em uma espécie de exílio voluntário para o qual partiu há cerca de seis meses, Wyllys não deixou de olhar para o Brasil. Hoje, mora em Berlim e viaja para conferências e palestras, falando sobre as articulações entre fake news e discurso de ódio na América Latina – um assunto que conhece bem. “As pessoas não ouviram porque não afetavam elas, não era problema delas”, pondera.

Na entrevista abaixo, Jean fala sobre a homossexualidade e sobre o kit gay. De quebra, ainda discorre sobre o presidente Jair Bolsonaro: “Para ele era inadmissível que um gay assumido e orgulhoso chegasse no mesmo espaço que ele, tivesse as mesmas prerrogativas”. Para ele, o Bolsonaro continua “assombrado” com sua imagem – uma peça que, segundo ele próprio, não foi desenhada para a engrenagem política, mas que a transformou mesmo assim.

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GQ Brasil: Você afirma que a maioria das pessoas tem preconceito em relação aos gays… Acredita realmente nisso?
Jean Wyllys:
As pessoas não querem ter filhos gays. Elas lidam com filhos gays depois que acontece. A heterossexualidade é vista como um destino, como a norma, enquanto ser homossexual parece ser uma escolha. Elas pensam: se eu sou hetero meu filho naturalmente vai ser hetero, pode acontecer de ele se desviar e eu, como uma mãe bacana, ter de lidar com isso. Nesse caso eu vou aceitar, vou amar meu filho como ele é, mas eu preferia que não fosse. Quando as pessoas têm esse preconceito dentro de si e se veem diante de uma manipulação escancarada, como no caso das fake news sobre o kit gay… Veja bem, não houve desmentido por parte da imprensa no caso do kit gay e foi assim porque os próprios jornalistas entraram no pânico moral, eles têm filhos e, em algum lugar dentro de si, temiam que a propaganda gay acontecesse. O suposto kit gay ressuscitou um preconceito histórico, enraizado: a ideia de que a homossexualidade é uma sexualidade agressiva, desmedida e que por não ter limites pode se voltar para as crianças. Não houve o que desfizesse o pânico moral.

Jean Wyllys (Foto: Fe Pinheiro)

GQ Brasil: Como assim você não foi ouvido pela imprensa em relação ao kit gay?! Você é uma das principais fontes consultadas sobre temas ligados à causa homossexual!
Jean Wyllys:
Dei entrevistas sobre o suposto kit gay para vários jornalistas, é verdade, mas minha fala nunca foi publicada na íntegra ou na forma de um desmentido. Fazia um desmentido peremptório e saia publicado “o deputado Jean Wyllys alega que o material não é verdadeiro…”. Não fui ouvido inúmeras vezes, em relação a diversos assuntos. Outro exemplo: Eu vi o Bolsonaro ganhando terreno e fiz alertas ao meu partido, aos meus companheiros de bancada, aos intelectuais que conviviam comigo, às instituições que me convidavam para dar palestras, aos jornalistas a quem eu dava entrevistas… Mas nunca fui ouvido.

GQ Brasil: Como você explica que as pessoas não deram atenção a você?
Jean Wyllys:
Não me ouviram porque eu sou gay. Era como se elas dissessem: você é deputado federal, mas não entende de grande política, você entende de direitos humanos e de LGBT, então fica aí, vai falar disso, não se mete na grande política porque não é a sua praia. Como resposta aos meus alertas me davam uma aula dizendo que o que define uma eleição é a economia e o tempo de TV, diziam que jamais Bolsonaro iria ganhar a eleição porque ela seria disputada mais uma vez entre PT e PSDB… E por que eu via claramente o que estava acontecendo? Justamente porque eu faço parte de uma minoria!

GQ Brasil: Como assim?
Jean Wyllys:
No Rio de Janeiro as casas de candomblé e umbanda sabiam o que estava acontecendo, assim como gays e lésbicas, porque éramos alvos do discurso de ódio representado pelo então candidato. Era claro para nós que havia uma força se organizando subterraneamente na sociedade e que seguramente ela iria se apresentar como força política no processo eleitoral. Fomos alvo da reação conservadora das pessoas aos temas da política identitária. Vimos vereadores ligados às organizações evangélicas e às milícias sendo eleitos. No meu livro, Tempo Bom, Tempo Ruim, de 2015, digo claramente que ele seria eleito presidente se alguma coisa não fosse feita. Ninguém ouviu e não foi por maldade ou por não querer ouvir. As pessoas não ouviram porque não afetava a elas, não era problema delas.

GQ Brasil: O Brasil, tendo nascido miscigenado e sendo uma espécie de mensageiro da alegria e da hospitalidade, sempre foi percebido como um exemplo de nação capaz de lidar com a diversidade… Hoje estamos tão distantes disso, somos um país dividido, raivoso. Será possível deixar para trás essa ideia de que existem “eles” e existem “nós” e recuperar o nosso otimismo?
Jean Wyllys:
Não sei quanto tempo vai durar essa noite, mas espero e desejo que seja breve. A gente tem de resistir. Espero que o campo democrático do nosso país se reúna, não se trata mais de esquerda e direita e sim de democracia, de razão e conhecimento contra a barbárie. Nessa guerra a gente pode escolher a nossa melhor face. Fazer isso significa lutar contra os nossos próprios preconceitos. Reconhecê-los e lutar contra eles.

Jean Wyllys (Foto: Fe Pinheiro)

GQ Brasil: O presidente parece considerá-lo seu maior adversário. Ou melhor: o seu principal inimigo. O que você acha disso?
Jean Wyllys:
Bolsonaro é o presidente do Brasil, tem a máquina política a seu favor, e mesmo assim continua sendo assombrado pela minha imagem e continua me usando como elemento na disputa pelo imaginário da população. Não sei se isso me envaidece ou me entristece profundamente. Desde a minha primeira eleição como deputado ele se incomodou com a minha chegada. Para ele era inadmissível que um gay assumido e orgulhoso chegasse no mesmo espaço que ele, tivesse as mesmas prerrogativas. A verdade é que sou uma peça que não foi desenhada para a engrenagem política. Eu fui travando a engrenagem e ela acabou por me expelir, mas o contato comigo fez com que a engrenagem deixasse de ser ela mesma. Todas as polias e parafusos estão afrouxados, vieram outros candidatos, minha passagem por ali gerou frutos. Uma coisa é certa: não vamos voltar atrás. Bolsonaro pode não gostar disso, mas as mulheres não vão voltar ao espaço doméstico, negros não serão mais escravizados, gays não vão voltar para o armário… Nunca mais vão falar de nós sem nós.

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Fonte oficial: GQ

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