José Trassi sobre ser par romântico de Sandy: “Qualquer brasileiro no meu lugar teria um treco” – GQ

19

O ator José Trassi (Foto: Divulgação)

José Trassi começou na carreira de ator aos 16 anos, no seriado Sandy & Junior, na pele de Dodô, líder da rádio estudantil e braço direito de Junior. Hoje, aos 35, integra o elenco principal da série Segunda Chamada na TV Globo, com estreia prevista para outubro, e estará no filme Carcereiros, que estreia nos cinemas em novembro.

+No ar em ‘Carcereiros’ e ‘Divino Amor’, Mariana Nunes defende a diversidade nas telas
+”Eu levei 1 milhão de pessoas ao cinema e não sou citada em premiações”, diz Samantha Schmutz
+Sandy como você nunca viu: “Trevosa”

Mas a colega Sandy e todo o elenco que conheceu na adolescência são considerados “amigos de infância”. Prova disso é que a cantora o chamou para interpretar seu par romântico no clipe de Nosso Nó(s) (2017), com cenas quentes: “Qualquer brasileiro no meu lugar teria um treco”, brinca ele. Confira a entrevista com o ator, que casou-se neste ano com a atriz Dani Moreno. “Tudo mudou!”, conta ele. 


O ator José Trassi (Foto: Divulgação)

GQ: Sua relação profissional com a Sandy é de longa data, desde o seriado Sandy & Junior. Depois disso, neste ano, você fez par romântico com ela no clipe de Nosso Nó(s). A admiração profissional também se converte em amizade? Como é trabalhar com a Sandy?

José Trassi: Se converte em amizade, sim. Considero não só ela, mas todos do seriado como meus amigos de infância, especialmente porque mantivemos uma proximidade e temos mais admiração e afeto pela trajetória uns dos outros do que normalmente se tem com parceiros de trabalho. Afinal, a experiência do seriado em 2000 foi muito intensa e numa época muito especial, de crescimento para todos. Às vezes rolam uns encontros da galerinha que renovam a energia dessa amizade e o que une essa galera é a arte. Um exemplo foi o clipe que fiz com a Sandy. A Gogacine que é produtora de um outro projeto dela Nos Voz Eles, é de um amigo que foi ator no seriado, o Douglas Aguillar. Esse movimento que é  legal…. valorizar o trabalho de pessoas que cresceram com você e que correspondem. Ela poderia ter escolhido qualquer profissional do Brasil ou do mundo, porque tem alcance e prestígio para isso, mas ela preferiu manter entre amigos, isso é muito bacana.

GQ: No clipe vocês aparecem em um momento pós-transa. Como isso reverberou para você?

José Trassi: Eu achei coerente com a história do clipe, com a linguagem que estava sendo construída. Por isso, a cena  tinha que existir mesmo. Tanto na hora de fazer a cena como na minha mente, ficou mais uma cena daquela história que estávamos contando. O momento do carro, o encontro da árvore, a briga na cozinha…Teve um momento em que aquele casal fictício estava ali na cama depois de transarem. Claro que se você parar para pensar, estou deitado na mesma cama que a Sandy ou…”Meu Deus, estou abraçado com a Sandy”. Qualquer brasileiro teria um treco [risos], mas eu não. Está muito na cabeça de quem faz e na forma como tudo é conduzido. Eu estava ali como ator, e com profissionalismo e respeito, qualquer cena é normal de se fazer.

GQ: Na sua opinião, por que a maioria dos homens brasileiros têm fetiche na Sandy? Você tem alguma teoria já que convive com ela há tanto tempo? Ela já é uma mulher adulta, casada, mãe, mas parece que os homens não conseguem se acostumar com a ideia, criam fantasias em torno dela como a eterna menina virgem.

José Trassi: Tenho uma teoria, não pela convivência, mas por quem eu sou e no que vejo da vida. Homens, héteros, alfa-dominantes geralmente vivem sendo bombardeados e se criam culturalmente com a necessidade de se afirmarem pelo sexo, de se verem obrigados “a”, e muitas vezes criam a ilusão de que é um valor que admiram, conquistar mulheres como objetos de consumo e aceitação entre eles. Vivem o paradoxo de quererem casar com uma mulher “que preste”… Mas por não quererem reciclar seus próprios valores, acabam traindo essas com as “que não prestam”. Veja…. prestar ou não prestar é um jeito grosseiro de falar se o ser humano tem ou cultiva valores que edificam caráter. Desse ponto de vista, a mulher com moral, no sentido dos valores, elevada, reservada, dedicada a algo puro como a arte do canto, que mexe literalmente com a vibração das pessoas, é com certeza um grande troféu. Acho que a questão da virgindade no fim é traduzida neste sentido dos valores. Pense numa energia limpa e de verdade, independente de religião ou moralismo. Pense numa pessoa que se dedica a ser a melhor e realmente é o seu melhor, que foi reservada pela família, tratada e cuidada com tudo o que os pais puderam dar de melhor, que teve suas virtudes potencializadas…Todos os homens heteronormativos, na minha opinião, no mínimo de forma incosnciente pensam: “É o desafio mais difícil, eu quero”. Como se evoluir nos valores humanos positivos fosse um caminho falso…como se consumir aquela energia fosse um objetivo. O objetivo deveria ser cultivar e elevar a sua própria energia, evoluir a consciência através de atitudes positivas. Sem propósito, a vida vira um oba-oba vazio, que é o que vemos por aí, prazer momentâneo e frustração e depressão a médio prazo. Quem vibra numa freqüência mais grosseira só de desejo e vontade, normalmente não trabalha a si próprio e acaba querendo consumir esse tipo de energia, pura, dos outros. Agora, a segunda parte da minha teoria que diz sobre esse padrão. Fora os homens heteronormativos da velha guarda do machismo, todos querem entrar em contato com essa energia, representada na forma dessa artista, para se espelhar na hora de escolher os valores que deseja numa parceira ou parceirx. Que é o que acredito que inspira homens e mulheres na hora de considerarem alguma referência do que querem para a vida, que seja próspera e fere abundância de amor e harmonia, conquistas e saúde, independente, família, inteligente, dedicada e para tudo o que de positivo puder ser cultivado. É isso que a Sandy se propõe e executa. Deve ter seus desafios enquanto ser humano? Com certeza, mas existem pessoas assim, positivas e elas causam fascínio mesmo, nas pessoas. Tem também o ponto de vista do mercado que criou esse rótulo para ela e reforçou essa fantasia, mas aí já não é mais minha teoria.


O ator José Trassi (Foto: Divulgação)

GQ: Como foi participar do filme Linha de Passe (2008) com um diretor do calibre de Walter Salles? Você era jovem, o que você aprendeu com ele?

José Trassi: Foi um momento de reconhecimento no meio audiovisual e oportunidade de me desafiar ao fazer esse filme. Primeiro porque depois que fiz o teste me chamaram dizendo que todos os papéis haviam sido escolhidos e por perfil etc eu não estaria entre os principais, mas gostaram muito do meu teste e criaram uma sequência para eu fazer. Pilotando uma moto, eu iria fazer um motoboy em um ataque de fúria por presenciar um acidente com outro motoqueiro. Só de estar num set do Walter Salles já valia aceitar, mas teve outro fator que me fez aceitar o convite: a moto. Eu não sabia pilotar até pegar este trabalho e quando perguntaram se eu pilotava, respondi imediatamente que sim. Acertamos os detalhes de contrato e sai dali já ligando para meu irmão, pedindo ajuda para aprender a pilotar moto. Tirei a habilitação a tempo e filmei a sequência que foi para a edição final com sucesso. Aprendi no susto. Essa habilidade me rendeu mais papéis como o Marley do episódio do programa A Garota da Moto, anos atrás, e o Tikinitos do longa Vale Night, que acabei de filmar. Ambos dirigidos por Luis Pinheiro. Digo que nesse filme do Walter Salles aprendi duas coisas: que eu consigo aprender qualquer coisa para filmar, além de pilotar uma moto.

GQ: Agora você vai estrear com a série Segunda Chamada na TV Globo. Como é o seu personagem? Já que o tema da série é educação, gostaria de saber o que pensa sobre as discussões em torno das questões de gênero nas escolas.

José Trassi: Nessa série eu interpreto o Giraia, que é um aluno que quer se formar e crescer na vida, mas que para conseguir as coisas que precisa se aproveita da sua personalidade expansiva e comunicativa. Ele usa esse carisma  para vender remédios de uso controlado para as pessoas na escola. O Giraia não é bom ou mau. Aliás, a realidade da periferia vai para além dessa polaridade simplista. Lá, de uma forma mais honesta e visceral existem pessoas se virando como podem para sobreviver, para conseguir alcançar seus objetivos. Giraia é um deles. Personagem solar. Sabe que a realidade é aquela, sem romantismo, e por isso age com  o que está ao alcance dele para sobreviver, sempre almejando crescer na vida. Por isso quer tanto se formar. Na minha opinião, o modelo de escola em que fomos criados e que é realizado no Brasil é extremamente ultrapassado… Quem salva o ensino, literalmente, são os profissionais dentro das escolas que se dedicam além da grade curricular, muitas vezes fazendo o papel de pais, pois se vêem obrigados a educar o aluno em questões básicas. É ultrapassado em seu objetivo principal de aprovar ou reprovar um ser humano que conseguiu ou não acumular informações para replicar em uma folha de papel, para ter um carimbo que o permita conseguir um emprego para garantir sua sobrevivência. Uma escola deve ser um lugar que potencialize muito mais o ser humano. Que seja mais que um lugar para apenas alfabetizar e torná-lo um cidadão funcional para a sociedade. Deveria ser um lugar onde nascem os pensamentos de vanguarda, que transforme o pensamento antes do pensamento como diria (o artista alemão) Joseph Beuys, que tem força para reciclar os valores de uma sociedade inteira, através daquela juventude, ou alunos. O modelo de ensino popular é simplista e foi desenhado para ser assim, prioriza a cabeça cheia de informação por decoreba ao invés de ensinar aquelas pessoas como articular o pensamento até transformá-lo em ideias, reflexões ou algo mais que seja útil a ponto de ser utilizado como referência na vida daquele que aprende, para este ser humano lidar com a realidade que virá a seguir, criar soluções criativas e se tornar consciente de suas faculdades e das potências de sua vida e coletividade.

GQ: Você estreia no cinema em novembro em Carcereiros o Filme. Como é o seu personagem?

José Trassi: Meu personagem é o Damásio, braço direito de um chefe de uma facção, que está enfraquecida dentro do presídio. Eles estão na ala dos jurados de morte e vão precisar fazer de tudo para salvar suas vidas. Damásio é um detento que preza pela lealdade.

GQ: Não é a primeira vez que você trabalha em uma trama que se passa no sistema carcerário brasileiro. Antes você participou de Carandiru, Outras Histórias, em 2005. O que pôde perceber sobre o assunto nas suas pesquisas e como reage quando vê as notícias sobre tragédias como a de Altamira, no Pará?

José Trassi: Fazendo um link com a sua pergunta sobre educação, tenho a mesma percepção sobre o sistema carcerário. Há uma engenharia social sedimentada em nossa sociedade que não tem o mínimo compromisso com a vida ou com criar mecanismos pra conscientizar ou ajudar pessoas a evoluir, se instruir. No caso do sistema penitenciário ele potencializa o próprio crime. As cadeias não são criadas para reabilitar nenhum ser humano, são depósitos de pessoas, que valem dinheiro através de verbas que sempre acabam na mão de membros da elite ou política, através da corrupção. Os negócios que mais vendem no mundo são guerras, drogas e sistemas penitenciários e no Brasil não é diferente. A grande maioria dos presos querem a mesma coisa sempre: alimentar a família, garantir a sobrevivência, ter algum valor na vida. Muitos escolhem caminhos errados para isso, por falta de educação ou índole. Sim, devem ser recolhidos do convívio para reabilitação, ou se não for o caso, porque há pessoas ruins mesmo no mundo, que sejam privados do convívio da sociedade, mas com dignidade e direitos humanos resguardados. Quem é alguém para dizer que determinado ser humano não pode existir, não merece ter uma outra chance? Deve haver um sistema que mostre um novo caminho em vez de potencializar a negatividade do indivíduo, da coletividade encarcerada. Amontoar pessoas e as deixarem no ócio ou sem qualquer perspectiva, em cadeias superlotadas, sem o mínimo de condições para a vida humana, só pode resultar em tragédias como Altamira. Sem contar que dentro das prisões os códigos de conduta ficam cada vez mais seletivos, até para liberarem espaço. Triste falar isso, mas é real. No que eu identifico como engenharia social, as facções são soluções indiretas do sistema social para extermínio em massa entre os detentos ou cidadãos da camada mais necessitada da sociedade, sempre manipulada pela elite corrupta.


O ator José Trassi (Foto: Divulgação)

GQ: Você se casou este ano com a atriz Dani Moreno. O que mudou depois do casamento?

José Trassi: Tudo mudou! O casamento foi o símbolo máximo de um período de renovação de valores pessoais, de mudança de atitudes comigo mesmo. Costumo dizer que em casa ela tem três resgatados: o cachorro, o gato e eu. Depois do casamento senti que chegou a hora de buscar objetivos mais a médio e longo prazo, no sentido de construir uma família, fortalecer nossas virtudes e focar no trabalho para conquistar uma tranquilidade na velhice.  Estamos na fase de cultivar virtudes e topar um caminho virtuoso. Não é um mundo cor-de-rosa de gozo eterno, é também sangue, suor e lágrimas. Ninguém é só bom ou ruim, mas escolhemos o que vamos ser a cada ação, consciente ou não. Eu prefiro a consciência. A satisfação não é imediata, mas quando vem, dura. E com companhia, então…. Aí o caminho fica mais gostoso… E quando os dois são artistas ainda! Eu ganhei na loteria e estou dividindo o prêmio com ela.

GQ: A Dani é vegana. Você também? Se não, costuma acompanhá-la na dieta?

José Trassi: Ela é vegana sim e eu não. Porém eu gosto da comida vegana, como sem problema algum, inclusive porque geralmente ela é mais temperada e eu gosto! Mas curto comer carne também… fazer o meu churrasco e ela entende. Cada um no seu momento . Como omelete de grão de bico e peço mais, e às vezes ate coloco umas fatias de bacon junto. Agora, o que faz viver mais, uma fatia de abobrinha ou uma fatia de bacon? São escolhas. Uma coisa que tirei definitivamente e me fez muito bem foi o leite de vaca no café da manhã, que substitui por leite vegetal. Enfim…. respeito, admiro e aceito mesmo, mas no momento ainda não estou tão evoluído a ponto de abrir mão do prazer que tenho em comer carne.

Acompanha tudo de GQ? Agora você pode ler as edições e matérias exclusivas no Globo Mais,o app com conteúdo para todos os momentos do seu dia. Baixe agora!

Gostou da nossa matéria? Clique aqui para assinar a nossa newsletter e receba mais conteúdos.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários