Kleber Mendonça: “Cresci achando que o fascismo nunca mais apareceria” – GQ

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O 72º Festival de Cannes chega ao fim com uma das melhores seleções da competição nos últimos anos. Foram sessenta filmes, dos quais, quatro brasileiros. A Vida Invísivel, de Eurídice Gusmão, foi o vencedor da mostra Un Certain Regard, e Bacurau, dos brasileiros Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, levou o Prêmio do Júri, terceiro mais importante da competição do festival. Em decisão inédita nos 72 anos do evento, o júri também entregou o prêmio a Les Misérables.

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Bacurau foi um dos filmes mais bem-recebidos nesses 12 dias de Cannes, com críticas elogiosas de críticos como Peter Bradshaw, do The Guardian. Diretores, elenco o público aplaudiram de pé após a exibição, com uma explosão emocionante dos brasileiros que estavam na plateia. Concorreu com grandes filmes, como o novo Almódovar, Dor e Glória, e os vencedores da Palma de Ouro e do Prêmio do Júri, respectivamente Parasite e Les Misérables.

CANNES, FRANCE - MAY 25: Kleber Mendonça Filho  receives the Jury Prize award for "Bacurau" during the Closing Ceremony of the 72nd annual Cannes Film Festival on May 25, 2019 in Cannes, France. (Photo by Pascal Le Segretain/Getty Images) (Foto: Getty Images)

Kleber Mendonça Filho conversou com a GQ  Brasil na Praia do Majestic sobre cinema e o momento do Brasil no dia seguinte à première no Grand Théâtre Lumière.

GQ: Há 3 anos, você estava em Cannes também, concorrendo à Palma com Aquarius. Como os dois filmes dialogam entre si e o que muda nesse novo projeto?
Kleber Mendonça Filho: Gosto de acreditar fazer um filme é um pouco como escrever à mão. A caligrafia é naturalmente reconhecível. Você pode escrever uma carta ou uma receita de bolo, e eu vou entender que você escreveu porque a caligrafia é a mesma. Aquarius é aparentemente muito diferente desse filme, pois se passa na cidade e é o estudo de uma única personagem. Já Bacurau se passa no Sertão. Mas acho que são filmes muito parecidos pois falam de como a vida em sociedade é composta por momentos em que pessoas jogam com o poder. Por ser um western e um filme de gênero, há uma situação clara em que pessoas poderosas tentam apagar do mundo pessoas que não são poderosas. Nesse sentido, é uma situação clássica de narrativa dramática, que o próprio gênero western já fez várias vezes. Acho que há alguns níveis de leitura e drama ao que está acontecendo no filme.

GQ: Quais seriam esses níveis? Como este foi um projeto de longa gestação, qual era a ideia de vocês no início? E qual a expectativa hoje?
Kleber: O estranho é que o filme chega parecendo um documentário. O Brasil fica se repetindo. Os governos do filme são repetições do passado. Como na cena em que o prefeito chega à cidade e é recebido com frieza. Uma voz grita: Respeite o seu avô. Ou seja, aquele homem é uma repetição de uma família de políticos que trabalham naquela área. A pessoa que gritou tem mais respeito pelo avô do que por ele, o que é muito interessante do ponto de vista de dinastias políticas no Brasil.

Bacurau valoriza muito a cultura e a escola. Para agradar à comunidade, o político tem uma maneira muito particular de oferecer os livros [despejando-os como se fossem lixo]. Essas são coisas que se repetem no Brasil mas que agora parecem mais exacerbadas porque existe um discurso totalmente absurdo, exótico quase, de coisas que não eram faladas há 5 anos, antes da ascensão da extrema direita no Brasil, se tornam necessárias. Então temos que falar coisas muito óbvias. Por exemplo, a sociedade é para todo mundo. Respeitem as mulheres. Respeitem os negros.

Com os feedbacks que tenho recebido, gostaria de atualizar e dizer que o filme não é sobre hoje, mas sobre as repetições do Brasil, e aquilo com que a gente vem lutando contra nos últimos anos. Como se trata de um filme de gênero, a gente pôde exagerar algumas coisas, que acabam soando muito atuais. Aos 50 anos, estou vivendo coisas que nunca vivi. Como falar no final do filme que trabalhar com cultura é trabalho, não um hobby. Começam a subir os nomes. Com cada função definida. Você precisa ser didático. Porque as coisas estão ficando sem sentido.


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GQ: Na minha opinião, o filme é universal. Algumas pessoas saíram da sessão dizendo que era preciso entender aquilo por que o Brasil estava pensando para entender o filme. Eu não concordo. Você poderia falar disso e das diferentes camadas?
Kleber: Os meus roteiros normalmente têm muita coisa acontecendo. Como se fosse parte de meu estilo. Você tem uma mulher trans, que é o olho da comunidade e sabe tudo o que vai acontecer. Conversando com Juliano, falamos sobre isso. Dessa pessoa que teria um sentido aguçado da realidade. Aí você tem uma igreja que virou um deposito. Mas, quando a coisa começa a apertar, querem reabrir. São coisas que fazem parte daquela comunidade e da natureza humana. Temos o museu que ninguém visita. No final, a comunidade guarda um segredo no museu.

O Brasil é um país com problemas com museu. As pessoas acham que é lugar de coisa velha. Mas o se Museu Nacional acaba em chamas, e as pessoas choram pelo museu. Mas se temos um incêndio na Nôtre-Dame, as pessoas choram ainda mais. Fico encantando com a reação das pessoas sobrecarregadas com os detalhes do filme. É como discutir referência. Você não começa a fazer uma lista de referências quando pensa em fazer um filme. Você escreve uma cena e pensa: isso lembra aquela cena do Brian de Palma em Um Tiro na Noite. As referências vão chegando dessa forma.

Quando Kate é ferida mortalmente na cabana de Damiano, ela tira um comunicador para falar com os brasileiros. Durante meses, era a voz do Google Tradutor. Ela veio para o estúdio no Rio de Janeiro por outro motivo, e o mixer perguntou se não podia gravar duas vozes dela nessa cena. Quando se fala em português, é a voz do tradutor mesmo. Quando traduz para ela, é a voz dela que pergunta por que vocês estão fazendo isso. Ganhamos um outro nível, porque é a voz dela se perguntando por que está fazendo isso. É um pequeno detalhe que deixa a coisa mais interessante do que estava naquela manhã.

GQ: Acho que vamos para o cinema para vermos cenas que nunca vimos antes. A cena do lado de fora da cabana é uma cena que nunca vi. Você teve alguma referência?
Kleber: Isso é cada vez mais raro. No roteiro que escrevemos, Michael, personagem de Udo, era executado como numa guerra. Nessa parte, começava a parecer uma cena de guerra. Mas não queria fazer mais uma vez essa cena. Então sugerimos o que realmente acontece. Ele entra no buraco e é trancado ali. Todo mundo começa a cavar e o filme acaba. Agora sim, isso eu nunca vi. Isso acrescenta uma camada.

Na Segunda Guerra Mundial, o fascismo foi derrotado, não é? Cresci achando que o fascismo nunca mais apareceria. Mas então, como uma planta no primeiro dia da primavera, ele começa a brotar de novo, agora, nos últimos anos. Quando Michael não é executado e desce para o buraco, ele está neutralizado. Mas isso não significa que ele morreu. O fascismo está lá embaixo.

GQ: Qual a ideia de vocês quando começaram a escrever? E qual a ideia hoje, imaginando que o filme vai ser recebido no Brasil nos próximos meses?
Kleber: A ideia era fazer um filme empolgante e excitante do tipo que o cinema brasileiro já não faz muito. A escola brasileira de cinema tem realismo social ou comédia. Temos toda a história das chanchadas e pornochanchadas e das comédias televisivas no cinema, mas a gente não tem uma escola. Por exemplo, os coreanos têm uma escola de thriller. No Brasil, a gente não tem uma escola de filmes: Caramba, o que foi isso? Era o que queríamos fazer. Estou muito feliz, até pelas críticas que saíram, a reação é exatamente essa.

GQ: Qual o efeito esperado, esse filme chegando às salas de cinema?
Kleber:  Quero que as pessoas vejam o filme que impressione as pessoas e faça as pessoas reagiram. Acho que é um filme de aventura, assustador, que tem uma catarse. Quando chega ao fim, horrível, parece que as pessoas ganham um pouco de esperança. É um pouco como o que aconteceu com Aquarius. Quando vai na construtora, a personagem de Sônia Braga se comporta muito mal, e é basicamente o que todo mundo queria, que ela impusesse respeito. Mas algumas pessoas perguntaram: Sim, mas o que ela conseguiu com aquilo? Às vezes, a ação é mais importante do que seu efeito. Foi muito importante ela ter feito aquilo. Bacurau tem algo muito parecido com isso.

GQ: Na cena de Damiano, por exemplo, as pessoas na plateia do Grand Théâtre aplaudiram.
Kleber: Uma amiga viu e disse que se sentiu culpada em sentir tanto prazer com aquilo. Disse: “Não sinta, o cinema também é catártico”. Eu não vejo problema nenhum com a catarse.

GQ: E a violência do filme? Conversando com algumas pessoas após a sessão, quase todas as críticas foram muito positivas. Mas algumas pessoas falaram sobre a violência na sessão, sem saber como a violência seria vista pelo júri.  Como vocês escolheram esse tipo de violência?
Kleber: É meu primeiro filme com violência gráfica. Em Aquarius, a violência está nas situações humanas e em sua angústia. Conhecemos o histórico de violência do cinema. Quando o casal faz a emboscada no carro à noite, é uma emboscada bem clássica. Tudo bem fazer daquele jeito, não há nada demais ali. Mas é uma cena violenta pelo que significa. Duas pessoas completamente inocentes sendo brutalmente assassinadas por duas pessoas que acham que estão num jogo. Uma delas fica inclusive sexualmente excitada.

GQ: O engraçado é que eu achava que isso ia acontecer, por causa da construção da personagem.
Kleber: A Julia é uma grande atriz, e faz engenharia reversa. Quando viu a cena da emboscada, ela repensou as outras cenas. Na cena da reunião, em que os brasileiros são assassinados, temos um plano em que ela está ofegante. Foi sua precisão de atriz, já preparando o que vai acontecer lá na frente. Ela tem algum tipo de perversão relacionada à morte. Mas era importante que tivéssemos uma cena impressionante, como a cena de Damiano. Quando chegamos à cidade e ele vai atirar contra a escola, e a escola reage, a gente achou que seria interessante ter só a reação, sem o efeito da reação. É claro que você sabe o que aconteceu – e depois temos o plano em que ela respira morta, quase em câmera lenta. É interessante dosar. Temos filmes em que as mortes são óbvias. Acho que conseguimos chegar a diferentes modalidades de violência de se filmar a violência.

GQ: Você acha que estar aqui, hoje, pode ajudar na questão judicial que você enfrenta no momento?
Kleber: Acredito que essa questão é tão claramente persecutória e absurda, que uma vez na justiça, vai se resolver. Uma coisa que a imprensa não tem ajudado a esclarecer é que isso tudo é uma decisão criada e discutida dentro do Ministério da Cultura de Temer. Esperamos resolver isso do ponto de vista administrativo. É um caso sem precedentes para um filme que foi entregue. Quando fizemos o filme, documentamos toda a comunicação com Ancine e Ministério da Cultura. É uma ação corriqueira dentro de um projeto cultural. Há uma série de filmes que fizeram a mesma coisa e não estão sendo procurados.

GQ: Uma pergunta boba, mas que a gente sempre gosta de ler nas entrevistas. O que você diria para um jovem brasileiro?
Kleber: Hoje ele ou ela tem infinitamente mais meios e recursos para fazer um filme do que eu tive em 1992, quando me formei na Universidade Federal de Pernambuco. Naquela época, os meios eram muito limitados, precários e primitivos, e hoje com esse celular você pode fazer coisas incríveis, editar no seu computador. A grande questão é você se munir de ideias e talentos e estofo, e ler e olhar para o mundo para o mundo de uma maneira interessante e interessada. Mas a realização é muito possível e está muito democratizada. É claro que não dá para fazer Bacurau com um telefone. Cada ideia tem um tamanho e tem um preço.

Julio Dornelles: No início, quando estamos começando, vemos as obras dos outros e nos inspiramos, queremos fazer o mesmo. Eu diria que tudo o que o Kleber falou da tecnologia é incrível, mas é importante trazer algo original, algo só seu e esse é um bom ponto de partida para você desenvolver seu cinema. Descobrir cada vez mais quem você é o que precisa dizer.

Fonte oficial: GQ

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